quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

NÃO PASSOU

Os paralelepípedos da cidade não se arrepiaram.

A cada ano mais distante da ofegante epidemia que o jovem Buarque queria ver passar na avenida, o carnaval mais uma vez ficou bem distante do povo.

Povo que trabalhou, e muito, nos quatro dias de folias. Nos hipermercados, shopping centers, praias, hotéis e restaurantes estavam a postos todos os caixas, empacotadores, balconistas, recepcionistas, recreacionistas, garçons, ambulantes (os que ainda resistem) e funcionários temporários (dando tudo de si para conseguirem a graça de serem efetivados) que ao invés da folia labutaram com resignação e cansaço para melhor atenderem aos clientes de seus patrões.

Nos bairros e nas cidades pequenas, alguns populares tiveram a oportunidade de cair na folia. Seguindo a risca os mandamentos (não sei como alguma editora ainda não lançou o “Manual do folião”!), os pobres trios tocavam as músicas instituídas como sendo de carnaval e os foliões se divertiam conforme a regra: pulando, com as mãos para cima e tirando o pezinho do chão.

Enquanto isso, as emissoras de TV apresentavam os milionários trios da Bahia e as fantásticas escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo com suas celebridades (?) exibindo os padrões de beleza e conduta adequados à festa. E, como não poderia deixar de ser, ensinando ao povo que o carnaval “de verdade”, como tudo no nosso País, é um privilegio que cabe aos escolhidos e que o lugar do povo é nas pipocas, nos fundos das arquibancadas ou assistindo-os via satélite.

Nos sambódromos e nos trios, nos telejornais e nas revistas, o povo, a música e a folia serviram de coadjuvantes para o exibicionismo de celebridades vazias na forma e no conteúdo. E o samba das escolas, cada vez menos melódico, agoniza na avenida do luxo e dos efeitos especiais. Adeus batucada! Adeus Cartola e Ismael! O rio que passou na vida de Paulinho da Viola desaguou no mar da felicidade artificial e da alegria padronizada poluído pelo lixo da indústria cultural.

Resumindo: o carnaval foi igual ao resto do ano. Opressores, exibindo seus status, suas marcas e produtos, sua falsa cultura e seu vazio, de um lado e oprimidos, sonhando ocupar o lugar dos opressores e figurar lado a lado com eles (até quando?) de outro. Pelas ruas o que se viu foi uma gente que nem se viu, que nem se sorriu, se beijou e se abraçou. Com seus preceitos apolíneos, o carnaval pouco se parece com as festas dionisíacas (festas em louvor ao libertário (e banido) deus Dionísio) que lhe deram origem.

A kizomba de Martinho não é a nossa constituição, atrás do trio elétrico só vai quem paga caro pelo abadá e as mulatas hoje negam seus cabelos. Quando rola a festa, o povo do gueto fica de fora. No grande latifúndio chamado Brasil, o carnaval é uma festa para o povo assistir.

Entretanto, nas ruas de Pernambuco, a embriaguez do frevo, os maracatus e os palcos de seu carnaval plurirítmico varreram com suas vassourinhas os cordões de isolamento, camarotes e lobbys, sob a benção de Naná Vasconcelos e Alceu Valença, mantendo um facho de esperança (“ mais que nunca é preciso sonhar”) de que a vida ainda pode ser bem melhor. Resta saber por quanto tempo essa folia democrática resistirá aos apelos do status quo...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

PASSAGEM

O homem passou sozinho. Eu nunca soube seu nome e nem sua história. Tudo que sei é que os seus cabelos são brancos, não me perguntem por quais caminhos eles embranqueceram, há mais de dez anos e que todas as tardes ele passeava com a filha.

O homem e a menina passeavam juntos todas as tardes. Um oásis de amor nos tempos da glacial corrida neoliberal. Quando a menina estava uniformizada, o homem carregava sua mochila e ouvia com atenção suas estórias colegiais, de vez em quando opinava sobre algo, mas na maioria das vezes a palavra estava com a filha. Durante a noite, provavelmente, faziam lições, nas quais o pai ensinava e aprendia com a criança.

Nos dias chuvosos, dividiam o mesmo guarda-chuva, depois ela apareceu com um, menor e mais colorido que o do pai ; nas tardes ensolaradas tomavam sorvete ou um refrigerante na padaria. Quase sempre o refrigerante era o mais barato, desses que alguns classificam de refrigereco, mas para a menina não fazia diferença, mais importante que qualquer marca era a companhia do pai. Nas tardes de outono e primavera, os dois podiam ser vistos comprando sonhos do vendedor ambulante (Ah! Os carrinhos de sonho! Suas buzinas, seus vendedores. Até quando irão resistir ao domínio das corporações?). A menina saboreava e se lambuzava de açúcar e creme enquanto o pai trocava algumas palavras com o vendedor – o resultado do futebol, a beleza da tarde, o aroma dos doces ou coisas do tipo – e depois voltavam aos seus assuntos, suas observações sobre o bairro, as flores (Perdoem-me a inverossimilhança, mas no bairro, ainda havia algumas casas com jardins e flores naquele tempo), a vida dos animais e os acontecimentos da aula.

E agora, o homem passa sozinho. Onde estará a filha? É isso que me inquieta. O homem passou sozinho e se eu não o tivesse visto talvez eles ficassem guardados em um canto da minha memória e o meu consciente julgá-los-ia esquecidos. Mas, eu o vi. E sozinho.

Será que a menina hoje amamenta uma outra menina que caminhará com ela pelas tardes ensinando-lhe a vida do mesmo jeito que ela um dia ensinou ao pai de cabelos brancos? Será que está numa maternidade esperando apenas o pai chegar para dar a luz a um menino com o nome do avô?

Quem vê o homem passar não enxerga as esperanças e satisfações que ele carrega.

Ou terá a filha engravidado contra a vontade paterna e ele ao encontrar um conhecido em qualquer esquina maldirá a filha, esquecendo-se de toda a ternura daquelas tardes? Ou será a filha, que tendo crescido por caminhos contraditórios, hoje maldiz o pai? Talvez estejam brigados e o pequeno motivo (uma vaga na garagem, uma festa fora de hora ou uma palavra mal colocada) tem, hoje, mais peso que a lembrança dos dias de sonhos e lições. Talvez ela em casa cuide da mãe, sempre doente, enquanto o pai corre à farmácia em busca do mesmo medicamento que há anos mantém viva a trindade.

Quem vê o homem passando não enxerga o destino que o contorna.

Talvez o homem caminhe enquanto a filha amarga a falta de oportunidade nas filas de emprego ou, quem sabe, esteja recebendo uma promoção no emprego que o pai conseguiu pra ela pela indicação de um velho amigo. Estará a jovem moça a alguns anos de revolucionar as artes, a engenharia genética, a arquitetura ou a geopolítica com idéias que nasceram das inocentes conversas dos passeios vespertinos com o pai? Ou, esquecida dos sonhos da infância, desperdiça sua beleza e ternura, se esbaldando na artificialidade dos supérfluos globais? Ou será que, cansada da falta de oportunidades e sem enxergar uma perspectiva socialmente digna, decidiu emigrar e tudo que o velho pai tem como companhia são cartas (provavelmente, e-mails) em que ela reafirma o seu amor e jura que volta assim que o pé-de-meia garantir o futuro? Ou terá sido vítima da violência urbana e hoje more só no pensamento ou então no firmamento ("pode ser a Estrela D'Alva que daqui se olha") e assim todas as tardes têm para o homem o cheiro de uma vida que passou?

Quem vê o homem passando não enxerga as saudades que ele cultiva.

Tudo pode ter corrido simples e a moça está na mesma casa dormindo na mesma cama e só não veio com o pai porque preferiu ficar na sua janela virtual esperando um príncipe que tecle para ela. Pode ser que apaixonada passeie de mãos dadas com um rapaz de cabelos negros com quem divide sonhos e compartilha seu entardecer. Os dois namorados caminham, ternos como a simplicidade que exalam, e ela conta-lhe coisas da sua vida, segredos que seu pai não alcançou e delírios que são só deles dois.

E quem vê a mulher passando não enxerga a menina que um dia ela foi.

OUTRAS PALAVRAS

"A brincadeira acabou" e "A Madonna lavou minhas meias" são dois blogs de jovens pensadores que apesar de toda a propaganda contra o pensamento e a reflexão insistem neste cultivo.
Vale a pena!

http://abrincadeiraacabou.blogspot.com/

http://www.a-madonna-lavou-minhas-meias.blogspot.com/

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

DÍVIDA

O enterro foi triste à medida que todos são. Alguns choram o morto, e esses não eram muitos, e outros (no caso a maioria) choram o fim cada vez mais próximo de si mesmos. É nos enterros que a vida desnuda-se, nesses momentos a contagem regressiva vem à mente daqueles que não sofrem a perda. Aos sofredores, ela revela-se absurda: “Pra que tanto?”, perguntam-se ao perceberem que Deus, ou a própria vida, não respeita planos. O consolo dos crédulos é uma outra existência, uma felicidade eterna, uma punição merecida, um encontro futuro, um céu, uma colônia, um paraíso, um juízo final ou coisa que os valha.Mas, deixemos de lado as elucubrações e vamos aos fatos:

O enterro tratado aqui é do milionário Orlando Stewart. Filho do respeitável George Stewart, alto funcionário da indústria ferroviária que fez fortuna na compra e venda de terras. Corre pelas ruas de Lotolândia, cidade onde a família Stewart se estabeleceu e que a viu enriquecer, que o velho George, possuidor do segredo da localidade da construção das linhas ferroviárias, comprava terras por uma bagatela para vender, depois dos trilhos colocados, por uma quantia muito maior; dizem até que ele não agia sozinho e que muita gente participava dos lucros e que o negócio das terras era apenas um dos vários em que a família se envolveu, mas como em Lotolândia ninguém sabe o que é verdade e o que é intriga da oposição, oficialmente o Sr. George Stewart é o grande empreendedor que a lápide de seu busto na praça central da cidade diz ser. O certo é que o jovem Orlando recebeu de herança uma quantia muito maior que seu pai possuía quando chegou ao país.

Assim que se viu milionário com pouco mais de vinte anos de idade, o rapaz decidiu “ganhar o mundo”. Proferiu impropérios contra a cidade, chamou os habitantes de provincianos e declarou que aquele lugar não dava futuro e quem ficasse ali não sairia nunca do buraco. No que dependesse das possibilidades dos habitantes, principalmente os nativos da terra, fazerem transações como as do pai dele com certeza eles continuariam no buraco. Afinal, os privilégios assim como os infortúnios são hereditários em Lotolândia, mas o que importa é que, poucos meses depois do enterro do pai, o jovem se mandou para a Europa. Não sem antes deixar um filho dele na barriga da professora primária Lívia.

Enquanto Orlando assistia, totalmente chapado de L.S.D e maconha., aos shows dos Yarbirds, The Who, David Bowie e outros no Marquee Club em Londres e montava uma banda de rock em Oxford e bebia até cair nas festas no Bairro Latino e passava as tardes fumando e planejando a festa da próxima noite sentado no Café de Flore em Paris e pensava em suicídio ao ser trocado por uma namorada em Amsterdã e quase acabava com o estoque de heroína de Liverpool e fazia sexo com todas as prostitutas de Hamburgo, Lívia educava seu filho Cláudio com todo o sacrifício e força que requer uma ação desse tipo num lugar como Lotolândia. Com o parco salário da profissão as dificuldades tornavam-se cada vez maiores. O pouco de ajuda que recebiam era da irmã Lúcia, com quem morou até esta casar e mudar para São Paulo e de alguns ardilosos cujo interesse era apenas garantir uma fatia do bolo de uma possível herança.

Quando Orlando soube da existência do filho estava morando em Nova York e faziam mais de quinze anos que ele deixara Lotolandia; quem contou foi Evelyn, filha de um proprietário amigo do velho George e que fora sua colega de classe na faculdade, “na nossa distante juventude no terceiro mundo”, assim definiram a época, que ele encontrou em um bar no East Village. Em meio a doses de Whisk e alguns picos, ela contou sobre a professora e o filho dele. Na época Orlando nem deu atenção ao assunto, tanto que quando acordaram no seu apartamento, ele já não tinha mais certeza do que conversaram na noite anterior. Foi só quando a doença (um tumor numa região delicada do cérebro) se mostrou irreversível, “apenas mais dois anos de vida, no máximo”- decretou o Dr. Waltz, que ele sentiu o significado da paternidade.

Para Cláudio, a vida pesava como um caminho mal escolhido. Ao invés de gratidão e carinho, nutria pela mãe certa aversão, culpava-a pelo seu infortúnio, por ela cair no conto de um playboy, por não saber segura-lo. Revezava os sentimentos de amor e ódio de acordo com as dificuldades apresentadas pela vida. Chegou a dizer que ela não tinha sido nem mulher para reparar o erro enquanto era tempo. Lívia, que nunca fora apaixonada por Orlando e quando engravidou propositalmente foi pensando que a fortuna do rapaz seria a alforria da sua vida de professora, às vezes também era arrastada pela raiva de ver no filho a personificação do seu fracasso. Mas, mesmo com toda a revolta, o rapaz jamais saiu de perto da mãe e nem da odiada Lotolândia. Quando Lívia faleceu, vítima de um surto de dengue, o filho, então com quase trinta anos, era secretário de Roberto do Trilho, ex-funcionário da ferrovia e, na ocasião, vereador e presidente da câmara.

Foi nessa época que Orlando decidiu voltar para a terra natal. Passado o tempo da revolta, do “por que comigo?” e da auto-piedade, a vida começou a cobrar-lhe por aquilo que ele não foi. A primeira crise, ou o início do despertar, foi quando leu sobre um jovem brasileiro que passara anos na cadeia, acusado de um crime que não cometeu porque não tinha um advogado que o defendesse. Nesse momento o Dr. Orlando, o advogado que ele negara-se a ser quando recebeu a herança, pulou da tela do computador para cobrar-lhe as causas que ele não defendeu e as injustiças que ele não impediu. O Dr. falava com uma severidade e um realismo que o deixaram atônito. Desse dia em diante, Orlando passou a ser perseguido por todos os tipos que ele negara-se a ser.

Certa vez após conversar com seu administrador (Atílio Figueira, cunhado de George que multiplicava a fortuna em especulações), Orlando se viu entrando pela porta com um ar de desprezo. Enquanto seu negativo olhava a decoração do apartamento, se apresentava como Orlando Stewart “o revolucionário de Lotolândia”. Contou-lhe que com a herança que recebera, subvertera o poder local; criara centros de educação e auxiliara e investira nas causas da população. Contou-lhe ainda que sua filha Geórgia e seu filho Cláudio davam continuidade à revolução, que ele dizia ser permanente e que estava satisfeito em saber que após sua morte, ainda permaneceria vivo nos seus filhos e na sociedade que ajudou a criar. Orlando viu o noticiário mudar e ao invés de um documentário sobre a fome no terceiro mundo, a emissora exibia a história da revolução em Lotolândia e seus exemplos por todo o mundo, além de uma biografia do corajoso e heróico Orlando Stewart. Desligou a TV e foi dormir sobressaltado.

No dia seguinte, enquanto esperava para ser atendido pelo Dr. Waltz, viu-se vestido de médico. Desviou o olhar para a revista para evitar mais uma alucinação e se deparou com uma matéria sobre o médico brasileiro que aplicou quase toda a fortuna da família na colaboração de pesquisas e estudos para o avanço da medicina. O texto ainda revelava que, ironicamente, uma das descobertas feitas pelo Dr. Traria a cura de sua própria doença. O nome do tão aclamado médico era Orlando Stewart.

E foi nesse estado de colapso que ele, que sempre se disse inglês, assumiu Lotolândia como sua terra natal e decidiu resgatar o que restava da sua essência.

O encontro com Cláudio não foi nada fácil. Apesar de sonhar com o pai como os conquistadores espanhóis sonhavam com o reino da Traplanada na Argentina, o rapaz cobrou-lhe todo o sofrimento e privação de todos aqueles anos. Trocaram poucas palavras durante os dois meses que Orlando viveu por ali depois de sua volta. Sabendo que sua herança estava garantida, não via razões para um contato com o pai moribundo.

Contudo, o que mais incomodou o magnata na sua volta à cidade natal foi percebê-la exatamente igual ao dia em que ele foi embora. Ela em nada se parecia com aquela que o seu “negativo revolucionário” lhe narrara e que ele viu no tal documentário. As terras continuavam nas mãos da meia-dúzia de herdeiros dos parceiros do velho George, enquanto a população ou era obrigada a subsistir ou tinha que migrar em busca de oportunidades. Aquele cenário provocava a presença quase que constante do revolucionário ao seu lado lembrando-lhe como poderiam ser as coisas. Contando-lhe como a sua morte poderia ser gloriosa e o quanto ele poderia ter sido importante àquela cidade e feliz. Sobretudo, o quanto ele poderia ter sido feliz.

O enterro de Orlando, que acompanhávamos no início, deu-se oito meses depois do diagnóstico, talvez o Dr.Waltz não contasse com a carga de remorso que aquele corpo doente ainda acarretaria ou então quis deixar seu paciente morrer com alguma perspectiva de futuro, e, como sabemos, numeroso foi o cortejo, mas poucas as lágrimas pelo falecido. Digo poucas para não dizer nenhuma, afinal alguém deveria estar sendo sincero.

Durante a leitura do testamento, além de quase toda a sua fortuna (Orlando doou um dinheiro para a prefeitura construir um colégio e um hospital e comprou algumas terras para distribuir para famílias sem-terra), o pai deixou uma carta para o herdeiro:


“Dear Cláudio,

Esta carta chegara às suas mãos quando eu estiver sendo jantado pela terra. Não quero fazer aqui um relatório de meus erros nem falar sobre o quanto você se tornou importante para mim. Seria mentira.
Desde que soube que morreria logo, acredite, eu sempre achei que morreria bem velho, bem depois, houve épocas da minha vida que eu talvez tivesse até deixado de acreditar na morte ou esquecido dela, sei lá. Mas desde que eu soube que morreria breve, eu não consigo andar pelas ruas sem me deparar comigo mesmo às avessas. Na época da faculdade, ou do vestibular, ou antes, lembro-me de ter lido em um jornal, ou será que alguém me contou?, um texto em que o autor andando nas ruas se deparava com ele mais moço nos mesmos lugares, pois comigo acontece o contrário. Cada vez que passo pelas ruas vejo o advogado que poderia ter sido e em cada pessoa que me cumprimenta vislumbro uma causa que poderia ter ganho. Ele me diz que poderia ter sido brilhante, pois diferentemente de muitos, não precisaria se sustentar do ofício. Vejo os empregos que não gerei, as aulas que não dei, o ensino que não propaguei e as possibilidades que eu tive de circular um dinheiro e que decidi concentrar somente comigo e com os poucos que se aproveitaram dele em causa própria. Pra que? Pra terminar escrevendo uma carta como esta? Sei que no meu velório você vai ouvir frases do tipo, esse aí viveu! Absurdité. Muito pior que o mal que eu fiz é o bem que eu não causei.
Cada vez que um amigo de juventude vem me visitar, vejo na felicidade dele a vida que eu não soube construir. Quando vejo nos noticiários toda essa desgraça, eu sei e não adiante ninguém tentar me dizer o contrário, que eu poderia ter amenizado tudo isso. E eu assisto aos filmes que eu não produzi, percebo a arte que eu não propaguei. Quando eu olho o lixo que é alguns bairros da Lotolândia, cada pessoa que vive naquele esgoto deve a mim, e eu espero que você reverta esta dívida, boa parte da sua miséria.
Não quero compaixão nem piedade. Quero apenas evitar que o mal prossiga. É a última coisa que eu tenho a oferecer ao mundo que me levou consigo e do qual eu só gozei.
Eu estive por toda a Europa e por toda a América e hoje me sinto como se nunca tivesse saído de Lotolândia. And why? Porque eu nunca olhei o mundo. Eu só fui descobrir que o mundo não era a minha cabeça há pouco tempo. O que eu vi foram ruas, pontos turísticos e possibilidades de romances, sexo, diversões e bate-papos, mas as pessoas eu não vi. Vejo-as agora quando me encaro no negativo, neste espelho às avessas que só reflete os tipos que eu não fui.
Mais do que este dinheiro, eu te deixo a minha triste experiência e talvez seja só por ela, na esperança de que as tuas privações anteriores te façam dar um melhor destino a esse dinheiro que nunca foi nosso, que eu tenha voltado para te dar essa herança.

Orlando Stewart”


Hoje, anos depois de receber a carta (e a herança), Cláudio S. Stewart é sócio de uma indústria química, que vem sendo acusada de arrasar ainda mais a modesta qualidade de vida da região. Também é dono de uma emissora de TV, um canal de rádio e um jornal impresso, cuja maior utilidade é eleger os candidatos que trabalham para o empresário, que segundo o senso comum, tem o espírito empreendedor do avô. Seu próximo projeto é a construção de um grande shopping center no coração da Lotolândia.

Caso um dia, atormentado, ele decida escrever uma carta-testamento para seu herdeiro, prometo transcrevê-la com a mesma fidelidade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

MUITO NATURAL

“Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção”, o conselho dado por Caetano Veloso em “Língua”, serve como exemplo do amor do povo brasileiro pela música.

Que País possui uma variedade tão grande de estilos e ritmos? E em que outro ela está tão presente no cotidiano?

A vida do brasileiro possui trilha sonora. Depois da efervescente “era do rádio”, a nossa época de ouro, não há momento da nossa História que não tenha uma música que o marque. Da eleição de Vargas ao enterro de Juscelino; do Golpe “militar” ao movimento pelas diretas; da Copa de 58 ao penta de 2002; tudo tem a sua trilha, tudo é representado por alguma canção.

O Brasil do mangue beat e da timbalada; dos choros, cirandas, marchinhas, frevos, cocos, baiões, partidos-alto, maracatus atômicos e bossas sempre novas. Do Abril pro Rock e do Free Jazz. Do Bumbódromo e do Sambódromo. Das batidas urbanas e da batida perfeita. O Brasil tropicalista. Um caldeirão de influências, tendências e - por que não? - idéias incríveis.
“Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.” (Oswald de Andrade/Manifesto antropófago).

É na mistura de ritmos, na modernista antropofagia musical que revelamos a nossa identidade, que mostramos a nossa cara. Um País mestiço com uma música mestiça. O mundo inteiro está na música popular brasileira, assim como nas nossas cidades. Mas, essa absorção não resulta em confusão, ela fabrica a unidade. Uma singularidade que aproxima e distingue. Não é européia, nem oriental, nem africana e nem de nenhum outro lugar da América: é brasileira. Sem siglas nem chauvinismo.

Como definiu Mario de Andrade, a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça (entenda-se, o povo brasileiro).
“Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português.” (Noel Rosa/ Não tem tradução).

E mesmo com todas as tentativas torna-la caricata ou deprecia-la, ela resiste nas pontes de Pernambuco, nas vitrines do Rio, nas chalanas do Mato Grosso, nos manos de São Paulo, nos clubes e esquinas de Minas, nas praças da Bahia, nos uirapurus da Amazônia. Do Oiapoque ao Chuí, é a música que sensibiliza, orienta e influencia a vida de nossa juventude. Nossa filosofia, sociologia, nossa maneira de nos vermos e ao mundo, tudo é traçado pelas nossas canções. É a música, junto com o futebol, que impede que as nossas barreiras sociais se transformem definitivamente em castas. É nela que a juventude carente de Estado e História se agarra para não submergir.

Nossa música está nos palanques e nas sociedades alternativas, nas rosas e nos serrados, nas procissões e nas torcidas organizadas, nas curvas das estradas e nos vilarejos, nas cozinhas e nas salas de recepção, em Angola e Montreux. Ela foi a grande estrela televisa na época da popularização dessa e hoje as telas de cinema, que já tiveram seu auge com os músicais, biografam nossos compositores.

É a força dessa música que faz os movimentos sociais agarrar-se aos compositores (como os estadunidenses agarram-se aos produtores de cinema) e dá a todo bom letrista o nome de poeta (Chico Buarque, Cazuza, etc.) ao mesmo tempo em que transforma grandes poetas em letristas (Vinícius de Moraes, Torquato Neto, Capinam, Cacaso e outros). Por sua espontaneidade e competência nossos músicos, e aqui é necessário destacar que não somos um país imperialista, são reconhecidos e requisitados no mundo inteiro. De Cesária Évora a Diana Krall, de Ryuch Sachamotto a David Byrne, músicos de todo o mundo não cansam de render homenagens à música brasileira e seus profissionais.

Todo brasileiro é um músico em potencial; por perceber isso é que o maestro Heitor Villa-Lobos fez tanto para que a música fosse valorizada na educação formal e chegou a dizer que todos os problemas sociais do nosso País seriam resolvidos com a formação de um grande coral. Se hoje a música não faz parte da grade de ensino dos nossos colégios, trata-se de mais uma deficiência do nosso sistema educacional.

O Brasil ama sua música. E será nas lições musicais, das harmonias dissonantes, que construiremos a melodia de nossa democracia social. Uma aquarela de diferenças que se aglutinam e formam uma unidade.

E aí então, para alegria de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Brasil merecerá o Brasil.


* Publicado também nos jornais "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4480) e "Brasileiros e brasileiras" (http://www.jornalbb.com/v_impr_fev08/pdfs/A10.pdf)

BLOG DO WALMIR

Gostaria de indicar aos leitores do "Mandando Brasa" o sensacional "Blog do Walmir".
Walmir Carvalho é um blogueiro dedicado, além de excepcional escritor. Seu blog é recheado de contos, que apesar de distintos são sequenciais.
Leve, divertido, sagaz e, o que para mim é o mais importante, sensível.
Quem ler não se arrependerá:

http://walmir.carvalho.zip.net/

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O HOMEM DA MÁQUINA

Robério tinha pouco mais de cinqüenta anos de idade quando se deu o acontecido. Passaram-se mais de meses sem que a cidade falasse em outra coisa. Hoje, anos depois do fato ocorrido, sua estória é apenas um caso corriqueiro que apenas os bem idosos se lembram como digna de prosa.
Para falarmos do fato que tanto mexeu com a cabeça da cidade (cujo nome não revelarei, com o intuito de evitar dissabores e não tirar o privilégio do leitor de imaginar, visto que a imaginação é um dos maiores prazeres da leitura), é necessário tratarmos antes da vida do homem.

Robério viveu na tal cidade desde que nasceu. Bom menino, sempre se aplicou nos estudos e quando rapaz nunca foi de extravagâncias, prova disso é que após dois anos de relacionamento casou com Eugênia, sua primeira namorada. Quanto à profissão, nunca teve problemas em escolher: seu pai, o tenaz comerciante Álvaro Tostão era dono do “Empório Espartano” e Tostãozinho sabia desde tenra idade que seria o sucessor e prosseguidor dos feitos do valoroso pai. Portanto, a vida correu-lhe sempre de forma previsível, linear como um domingo chuvoso. Até que um dia, por volta de seus vinte e dois anos, ele descobriu a tal máquina.

Ninguém sabe explicar ao certo como foi. O que se sabe é que um belo dia (talvez não estivesse nem tão belo assim, mas sabe como é a mania do povo de adjetivar tudo), o, já então, dono do empório apareceu transbordando de alegria com a tal máquina. Passou o dia admirando o encantador objeto e mostrando aos amigos (sempre teve poucos) que apareceram por lá, fazendo questão de realçar suas qualidades e utilidades. Chegou a dizer que aquilo equivalia ao retorno de D.Sebastião. Em casa não falou de outra coisa com Eugênia e chamou o filho para apresentar-lhe o novo membro da família. Dizem as más línguas, que sua alegria naquele dia foi tanta a ponto dos gêmeos, David e Golias, terem sido gerados durante a noite, num espasmo de alegria que acordou três vizinhos e um galo.

Daí em diante a vida de Robério Tostão mudou. Como que hipnotizado, ele não largou mais a máquina um só minuto. Passava o dia inteiro cultuando-a, a ponto de negligenciar completamente os afazeres do empório e esquecer a família. Não foram poucas vezes em que foi surpreendido, nas primeiras horas do dia, ainda com a mesma roupa do dia anterior e vidrado na tal .

Quando os gêmeos nasceram, seis meses depois de gerados, ele recebeu a notícia sem tirar os olhos da dita cuja. E quando eles morreram, Golias viveu quatro dias e David seis, ele chorou abraçado na sua companheira extraconjugal. Eugênia, em um primeiro momento tentou trazer-lhe de volta pela razão. Esgotados os argumentos, partiu para a fé: fez promessas para todas as qualidades de Nossa Senhora, fez vigílias em templos evangélicos, consultou búzios e dois meses após um despacho nos trilhos do trem, decidiu pedir a separação. Não podia mais conviver com um homem que relegava a família a um segundo plano e vivia exclusivamente para a bendita máquina.

O marido aceitou de pronto a idéia e ainda colocou o empório à venda. Pediu à esposa que o deixasse morar na garagem, com a sua máquina, e dividiu o dinheiro do empório entre ela e os filhos. Eugênia aceitou servir-lhe duas refeições por dia, de modo que a parte dele na venda seria usada apenas para a conservação de sua relíquia.

Os anos passaram-se e Robério Tostão quase nunca foi visto longe de sua preciosidade. Quando Eugênia, monofóbica como tantas, casou com Charles (dizem por aí que os dois já andavam de caso quando ela ainda estava casada) e decidiu-se mudar para uma casa mais ampla e melhor localizada, ele não se moveu do seu refúgio.

Sua vida resumia-se a máquina. Era ela a emoção de seus prantos, a causa de seus risos, a fonte de suas preocupações, a razão de suas noites mal-dormidas. As crianças da vizinhança puseram-lhe o apelido de ”homem da máquina”, nome pelo qual certamente ouviam os pais se referir ao antigo dono do empório, e sempre que alguém o encontrava pela rua tratava de fazer algum comentário relativo ao alvo de sua adoração.

Foi na época do casamento de seu filho Juscelino que se deu o acontecido:

Robério não respondia mais aos amigos que lhe visitavam. Seus movimentos e reações eram sempre obedecendo aos comandos da máquina. Quem percebeu isso com mais astúcia foi Teodoro, amigo que morara muitos anos em Frankfurt, dizendo que a tal máquina havia absolvido totalmente a alma do pobre homem. Na época todos disseram que o “alemão” estava exagerando e que o comerciante apenas valorizava aquilo que conseguira adquirir como fruto de seu trabalho suado. Porém, as “rabugices” se concretizaram: só quem movimentava Tostãozinho era a máquina que ele julgava ser dono.

Foi nesse estado que o filho o deixou depois de entregar o convite de seu casamento. Pai e filho mal conversaram durante a visita. O pai totalmente submerso no mundo da máquina que naquele momento era o dele também e o filho tentando encontrar uma forma de se integrar ao “mundo-máquina”, apostando que assim poderiam se entender. Que nada! Juscelino saiu abatido, como se a sua raiz, a pessoa que lhe trouxe ao mundo nunca tivesse existido, como se a família Tostão fosse apenas um veículo para viabilizar a missão da máquina na Terra.

Dois meses depois, quando voltou à garagem, encontrou tudo como deixara. Exceto o pai. Abriu a porta e viu a máquina que jazia solitária no seu lugar de sempre. Em nenhum canto da tal garagem havia indícios da existência de seu progenitor. Quem entrasse ali naquele momento juraria que apenas a máquina vivera naquele lugar. Robério fora engolido, apagado de sua existência. Desaparecera para sempre e ninguém sabe como. O homem havia sucumbido aos delírios. Partiu de vez para o falso mundo prometido pela sua musa. O filho, perplexo, olhava para a Melpómene do seu criador, sem saber qual era o papel de quem naquela confusa trindade. Atônito, riu e chorou o destino dos Tostões.

Hoje em dia, nenhum membro da família Tostão reside na cidade. Juscelino emigrou, fazendo assim o caminho de volta do velho Álvaro. No endereço do empório existe uma franquia de lanchonete internacional e a casa, onde na tal garagem deu-se o misterioso sumiço, deu lugar a uma loja de departamentos.

Algumas entidades religiosas tentaram transformar o sumido em mártir, outros chegaram a psicografar mensagens com a sua assinatura e houve até vigílias para que o demônio que se apossou do desaparecido não tomasse conta do local. Estudantes levantaram teses e sociólogos escreveram artigos, à luz de teses que lhe garantissem notoriedade (muitos que pregaram o quão pernicioso era a relação do homem com a máquina, hoje a defendem sob o argumento de que os tempos são outros).

Se o homem ainda é lembrado deve-se a máquina. Quem for a tal localidade, constatará que a tal, hoje popularizada, exerce o mesmo fascínio em quase todos os moradores e o acontecido com a família Tostão é, quando muito, um assunto pueril.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

CANTO

Sexta-feira, manhã de sol, mês de novembro. Nos jardins da praia, um pássaro canta nas imediações do canal 3. Seu som é alto, não é preciso dinheiro para ouvi-lo cantar. Pode ser ouvido da avenida. Os carros, sempre imersos em seus CD Players e atormentados pelo trânsito infernal, permanecem indiferentes, mas os transeuntes demonstram interesse em conhecer o autor do surpreendente assobio.

O pássaro está em pé na areia. Tem o peito nu, a barba por fazer, o dorso bronzeado e as calças frouxas revelam os pêlos pubianos. Um homem cordial tentando restituir à natureza a alegria subtraída pela humanidade. Não dará autógrafos nem será assediado. Sua música é orgânica, contemplativa. Sua sensualidade não é fabricada por publicitários. Seu desleixo é rude, não arquitetado.

Rapidamente, o canto multiplica-se. Outros, atraídos pelo som do irmão solitário, respondem-lhe alegres e solidários. A resposta não vem da areia, nem do mar, tampouco das árvores do jardim. Vem do outro lado da avenida. De um prédio em construção. Um ninho de joões-de-barro, ou joões-de-cimento (construtores da moradia alheia), que se não prenunciam bons tempos com seus cantos ao menos nos trazem à lembrança um tempo onde as manhãs eram animadas pelos pássaros.

É um espetáculo alegre e harmônico. Da areia, o flaneur inicia o canto que encontra eco na obra. Cada qual do seu posto, um por vez, os pássaros em serviço respondem ao contato do maestro. A princípio alguns e em instantes dezenas de outros cantos são construídos paralelo ao prédio. Quando cessam, o nosso Orfeu, na areia, entoa um novo número que, como numa torcida organizada, rapidamente se propaga. Um instante fugaz de espontaneidade. Uma breve vitória da Santos sobre a $anto$, do Brasil sobre o Bra$il.

Os cantores seguem até saciarem-se. Não há jornalistas no local. A apresentação não estará nos informativos regionais, muito mais interessados em divulgar a violência e polarizar eleições do que procurar a ternura que não está perdida. O canto é deles para eles. Solidários na exclusão, na alegria e na autenticidade. A voz da massa.

Dois turistas estrangeiros divertem-se com o show. As árvores que aqui gorjeiam em nada se parecem com as de lá. Não há flashs. O espetáculo não cabe nas lentes. Os bebês que passeiam pelos jardins com avós, mães, pais e babás entram em contato com mais um canto da natureza. Ficará no subconsciente. Até quando haverá pássaros para embelezar suas manhãs?

O canário embriagado pára o canto, Baudelaire iletrado, com seus paraísos artificiais, segue cambaleante pela areia para juntar-se ao bando e deitar-se nos bancos próximos à Concha Acústica (vista como mau agouro pelos moradores dos prédios vizinhos na ocasião de sua inauguração).

Os joões-de-barro também cessam. Precisam dedicar-se à construção dos lares que nunca serão deles. Talvez tenham até sido repreendidos pelo chefe por causa da “bagunça”. Os olhos embotados de cimento e lágrimas seguem a construção cuja porta está voltada para o leste. Não tardará o dia que o alegre ninho dará lugar a um prédio cínico e silencioso na sua aparência embora cheio de alegrias, inseguranças e angústias represadas em seu interior. Imagem e semelhança de seus futuros moradores. Representante fiel de sua vizinhança.

Ao fim da tarde, nosso Ulisses ainda flanava pela cidade. Não mais cantava, falava sozinho e comia um pão despedaçado, como convém aos pássaros. Indiferente ao mundo indiferente, dirigia-se aos bares da Pompéia para molhar o bico com água que dizem que passarinhos não bebem. E, cantarolando um samba qualquer, seguiu sua odisséia. De homem e pássaro. De deus e espermatozóide.

* Publicado também no jornal "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4341)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

POETIZANDO (DEZEMBRO/07)

A edição de verão da revista literária POETIZANDO nº. 27, terá seu lançamento no dia 14 de dezembro de 2007, das 20 às 22 horas, com sarau poético aberto ao público, na sede da Aliança Francesa de Santos.
A revista POETIZANDO é editada pelos poetas santistas Eunice Mendes e Walmor Colmenero e apresenta poemas, contos, crônicas, biografias, lendas, letras, folclore, etc. Entre outros nomes da literatura universal, figuram nesta edição: Fernando Pessoa, Euclides da Cunha, Victor Hugo, Catulle Mendés, Quevedo, Oscar Wilde, Marquesa D'Alorna, Júlio Herrera Y Reissig, Antero de Quental, Lima Barreto, Luciano de Samosata, etc. A seção dos autores contemporâneos apresenta: Carlos Cassel, Madô Martins, Anderson Braga Horta, Sérgio Bernardo, Nina Rodrigues, Glauco Mattoso, Cleberton Santos, Benilson Toniolo, Marcelo Lopes, Rogério Salgado, Leandro Rodrigues, etc. No sarau serão lançadas também as folhas poéticas O POETA e A POETISA e haverá sorteio de kits com material literário. A entrada é franca.
A Aliança Francesa fica na Rua Rio Grande do Norte 98 – Pompéia – Santos/SP – Fone: 3237-2403
Maiores informações:
http://www.revistapoetizando.blogspot.com/

Aproveito a ocasião para relançar o texto METAMORFOSES, de minha autoria, que estará na edição de dezembro da Poetizando.
Um humilde aperitivo.

METAMORFOSES

Semi analfabeto em país de analfabetos vira professor;
Curioso em país de ignorantes vira doutor;
Bandido em país de criminosos ganha cem anos de perdão;
Política no país dos mensalões vira profissão;
Vendedora no país do consumo vira rainha;
Drogas em país sem lei é farinha;
Travesti no país da mentira vira mulher;
Espoliação em país sem governo vira imposto;
Emprego no país da informalidade vira exploração;
Favela no país do turismo sexual vira ponto turístico;
Assentamento no país do latifúndio vira invasão;
Alimentação em país de esfomeados vira plano de governo;
Esporte no país do despreparo vira comércio;
Violência no país da injustiça vira espetáculo;
Teatro no país das concessões vira shopping center;
Seção de senado em país de espectadores vira programa de auditório;
Jornalismo no país da alienação vira fuxico;
Malha ferroviária no país das transportadoras vira sucata;
Música em país sem harmonia vira batuque;
Impunidade no país do jeitinho vira imunidade;
Habitação no país dos sem teto vira sonho;
Lixo no país do desperdício vira comida;
Cesta básica em país de desempregados vira prêmio;
Férias anuais no país das terceirizações viram privilegio;
Rio em país de merda vira esgoto;
Quer mais? Leia os jornais...