terça-feira, 7 de outubro de 2008

MILES AWAY

A noite corre suave. Brisa. Olor de plantas que ainda respiram (Deus as proteja!). Miles Davis toca “Autumn leaves”. Um homem conversa com o porteiro do prédio. Uma estrela nos observa “escribiendo em el cielo sus estrofas de plata”...

A música me envolve. Meio século depois, os acordes do bruxo ecoam na sala da minha casa. Tecnologia: eis o grande milagre do século XX. A unidade do tempo. A beleza eternizada. Popularizada. O som do trompete penetra nos meus poros. No mesmo segundo, Santos vira o Harlem do jazz dos anos 40 e volta a ser Santos. O passado e o presente de mãos dadas. Relatividade. “Autumn Leaves”. Miles, Cannonball, Hank, Sam e Art tocam para mim. A harmonia traz perfume ao ambiente. As plantas aplaudem. Aposso-me do som como do brilho da estrela. Nessa noite eles são meus e são exatamente essas maravilhas (que eu tenho, mas não contenho) que tornam a noite bela.

Na portaria, os homens continuam conversando. O morador fala alto com o porteiro, gesticula, mostra-lhe a revista (fonte de todas as suas convicções) e palestra sobre as mazelas do mundo. Suas frases são maniqueístas, seu entendimento é concebido de fora para dentro. Para ele um subalterno social é também subalterno intelectual. O porteiro escuta distraído. É um alvo fixo, não pode abandonar o posto. Uma presa fácil para monólogos. Sua mente não está ali (só o pretenso palestrista, mais preocupado com suas bravatas e certezas não percebe), está, talvez, procurando uma forma de se libertar, de encontrar um emprego onde suas noites sejam noites, seus domingos, domingos; ou quem sabe está do outro lado da cidade, aonde numa virada cultural um “guitarreiro batuca sua guitarra como se fosse o tambor do terreiro”.

Virada Cultural. O samba-rock. O Brasil e os E.U.A. O clube do balanço. A América que a África pariu. Pixinguinha e Robert Johnson. Little Richard e Jorge Ben. Assim como não admito Santos somente como uma porta de entrada e saída de lucros e nem tampouco o Brasil como um simples celeiro de matérias-primas, não vejo mais os E.U.A. apenas como a truculência de sua geopolítica nem como a infantilidade de seu “way of life” e de suas propagandas; é também -e sobretudo- a desobediência de Thoureau, a estrada de Kerouac, as mutações de Beck, a Lucille de B.B.King, a geração de Hemingway, o sinal de Prince, a guerra de Welles, a batalha de La Rocha e Morello, a rebeldia de Marlon e o amor de Dian.

A estrela continua nos observando inconsciente (?) de seu brilho intenso. Brilha para mim e para alguém que a observa em Illinóis. Como Miles Davis, talvez não esteja mais ali fisicamente. Seja apenas uma miragem. Uma vida além da vida. Uma luz superior à matéria. Ou um milagre tecnológico da natureza. Na sala, “Yesterdays” também brilha. Lembro-me de Billie Holiday cantando-a. Billie Holiday morta na sarjeta. Será que algum dia ela teve consciência de seu enorme valor? Cartola lavando carros na praia de Botafogo. ”El poeta es el médium de la natureleza”. Garcia Lorca assassinado com um tiro na nuca. A lei da bala. Farofa Carioca. Penso na virada cultural, nos estivadores do porto e no mundo globalizado. A liberdade e seus subterrâneos. Haverá lugar para a arte no mundo prático da não-utopia? Miles me diz que sim. Miles e seu trompete vermelho. Sua liberdade. Seus azuis. Azul de Madre Teresa e Iemanjá. De Renoir e Gershwin. Azul da geração de crianças índigo. Sim. A arte é parte do ser-humano mesmo que ele não a saiba. Enquanto houver sentimento haverá arte. Haverá vida. Vida e virada. Haverá utopia.

O morador, cheio de ódio e mídia, se despede do porteiro acenando com a revista. A noite para ele está péssima e o dia vindouro é preocupante. Sofre. O mundo não consegue apresentar-lhe mais nenhuma beleza. É ao mesmo tempo algoz e vítima.
O porteiro não se lembra mais de nada do que foi conversado. A única parte da conversa que o agradou foi sobre o jogo de seu time. Zero a zero. Irá esperar o dia nascer para voltar a viver.

É por volta da meia-noite. Miles toca “Vênus de Milo”. Toca para a deusa do amor, para a Grécia antiga e seus artistas. Toca para a estátua que perdeu seus pés e braços sem perder a beleza. Toca para a estrela. Para si mesmo. Para o universo. Despeço-me da noite e do som satisfeito por saber que em Alton ou em Santos, em Varsóvia ou em Luanda, um garoto, apesar do mundo que está montado ao seu redor, descobre na beleza da arte - como no “Clube da luta” às avessas - um modo de tornar luminosa a sua existência e mais leve a vida de quem o encontra.

Boa noite Miles Davis. “Bye bye blackbird”. Boa noite.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

ELEIÇÕES

O texto abaixo (Emoções) foi escrito há quatro anos, mas como nada mudou no comportamento dos candidatos e eleitores não vejo problemas em relança-lo. É como se eu o tivesse escrito hoje.Por isso, quem não leu (pois ele ainda não fazia parte do blog. Foi lançado no jornal Página Dois, no B&B, que na época ainda era Brasileiras e brasileiros e está no "Desconstrução", cujo lançamento já está virando uma lenda).
E lembrem-se: comentar não é pecado.
Fiquem à vontade...

EMOÇÕES

Mal o Sol nasceu e Jorge Guerreiro já pulou da cama. Aquele domingo era dia de eleições municipais e ele como candidato a Prefeito não dormira nem um minuto.

O motivo da insônia era simples: para bancar sua campanha Jorge contou com o apoio de alguns empresários, os quais prometeu facilidades e isenções durante o seu mandato.Caso perdesse ficaria endividado.E desempregado. Abrira mão da reeleição como vereador para se candidatar à prefeito portanto a possibilidade de derrota era inadmissível.Iria arruinar a sua vida, nem Presidente de Escola de Samba poderia ser mais, pois o candidato da oposição iria manter a cidade sem carnaval.

Às sete da manhã, Jota Moreira, o marketeiro da sua campanha chegou à casa do aflito candidato. Tomaram um copo de cachaça e Jota garantiu que a vitória era certa.
- A marchinha está na boca do povo, Jorjão...

- É, mas o samba mais cantado quase nuca é o campeão do carnaval... - refletiu o experiente carnavalesco.

- Só que no carnaval o júri é técnico e nas eleições o voto é popular. Alguma dúvida que se o campeão do carnaval fosse escolhido pelo povo o vencedor seria quem tivesse o samba mais cantado. Eleição é isso: o carnaval do voto. - tranqüilizou o homem do marketing já acostumado a iludir os clientes e seus público alvo.

- Viva a Democracia brasileira!- se animou o candidato. - Mas e o enredo Jota? Achei repetitivo...

Jorge se referia ao tema da campanha: a segurança pública. O slogan era “Jorge, o guerreiro da paz” e dizia que saúde e educação eram supérfluas, pois iam por água abaixo com um tiro na cabeça. O importante para o povo era ter segurança para poder trabalhar e comprar o que quisesse...

- Eleição é repetição. O povo gosta. - concluiu o elaborador do plano de campanha. - Foi tudo impecável. O enredo, o samba, a fantasia – a fantasia eram cavanhaques postiços que eram distribuídos para o povo usar nos showmícios numa referência ao do candidato.

- Uma perfeição foi o nosso desfile – o candidato já estava com lágrimas nos olhos- os carros todos alinhados, as bandeiras, os destaques, o povo todo usando nossas camisas e o gran finalle. Que show! Se bem que eu acho que aquela dupla caipira saiu caro...

- Não é mais caipira. Agora eles formam uma dupla romântica. E você vai ver que foi barato.Quantos votos você acha que tirou da concorrência quando eles pediram emocionados pro povo pensar nos filhos, na segurança das crianças...

- É verdade. Mas além do cachê eu tive que me comprometer que toda quermesse que a Prefeitura fizer, no meu mandato, vai contratar o show deles.Já pensou que merda...

- O povo gosta...

Tomaram mais um copo de cachaça e foram votar.Na porta junto com o povo a bateria da escola de samba tocava a música da campanha acompanhada pelo coro popular:

“Jorjão sangue novo,
É o guerreiro do povo
É gente que faz.
Na minha rua todos são Jorge, são Jorge,
No meu trabalho todos são Jorge, são Jorge...

Esta última parte elaborada por Jota trazia para a campanha o apoio peso pesado de São Jorge, padroeiro da cidade, para a campanha do candidato.Aliança que Jorjão fez questão de firmar no citado showmício prometendo ao povo a “Semana São Jorge”.

- Essa atitude além de justiça com esse santo guerreiro, como nosso povo, que tanto fez por esse nosso Brasil tão sofrido, vai gerar empregos, diretos e indiretos, além de trazer turismo para a nossa região. E isso não é promessa não, vocês me conhecem e podem me cobrar, todo dia 23 de abril, será feriado municipal – concluiu emocionado o Guerreiro candidato.

- Viva São Jorge! Viva Jorge Guerreiro – gritou Jota levantando as mãos do candidato.

Na platéia lágrimas, esperanças, aplausos e cavanhaques postiços enquanto os cabos eleitorais distribuíam freneticamente os panfletos do candidato motivados pela certeza que seriam os primeiros a estarem empregados com a criação da semana milagrosa.

Na porta da casa de Jorjão alguns pedidos de emprego eram ouvidos com atenção pelo candidato que respondia prontamente:

- A questão do desemprego, que tanto abala a juventude de nossa cidade, será totalmente superada no meu governo. E daqui a quatro anos no final do meu mandato ninguém nesta cidade vai mais saber o que é ficar desempregado. Podem apostar...

- Viva Jorge Guerreiro! – gritou um cabo eleitoral enquanto a bateria da escola de samba voltava a tocar a música da campanha.

- Você é um gênio, Jota. – disse Jorge à seu assessor já sentado no banco do carro rumo a escola – Essa música da campanha com a repetição resultando em São Jorge, isso é demais.Você devia ser músico!

- Eu sou publicitário, Jorge. Hoje em dia músico de sucesso e publicitário é praticamente a mesma coisa.Quantas músicas de sucesso que tocam o dia inteiro nas rádios não foram feitas pelos marketeiros das gravadoras? Até mesmo a imagem desses ídolos que aparecem por aí. Eleger um candidato ou criar um músico de sucesso pra mim é a mesma coisa.

Agora se eu fosse músico mesmo, desses que querem um som sofisticado, acham que música é coisa séria, provavelmente taria igual à eles tocando em barzinho pra meia dúzia de intelectuais... – riram os dois da situação da música no país.

Na escola onde votou Jorge foi recebido com aplauso, deu entrevistas, votou e foi visitar outras zonas eleitorais, onde deu mais entrevistas, prometeu acabar com a violência e abraçou algumas senhoras emocionadas. Depois voltou para o seu bairro onde tomou mais cachaça, sambou, prometeu empregos e recebeu o resultado da boca de urna: empate técnico.

Às seis da tarde, horário de início da apuração dos votos, Jorge, que estava trancado no banheiro havia dez minutos, recebeu o chamado do filho Guerreirinho, futuro candidato a vereador:

- Pai, a bateria já está tocando, o povo ta todo lá embaixo gritando o seu nome, vamos descer, chega disso por hoje...

- Já to saindo. Fala que eu estou no telefone recebendo o apoio carinhoso de quem não pode vir...
Saiu do banheiro, acendeu uma vele verde, de “confirma”, para São Jorge e foi assistir à apuração.

No ginásio onde a apuração foi realizada cavanhaques postiços, gritos de “já ganhou”, abraços e alguns pedidos de autógrafo esperavam o candidato que acompanhou a abertura de urna por urna cheio de sobressaltos e idas ao banheiro, entre um copo e outro de whisky.
Mas dessa vez o povo fez justiça e o samba mais cantado ganhou a eleição. O novo prefeito ouvia, com lágrimas nos olhos, a queima de fogos, preparada pelo autor do samba, a bateria da escola e os gritos da multidão que o carregava nos ombros, “é campeão”.

E cheio de emoção e cachaça já pensava no carnaval das próximas eleições.

sábado, 27 de setembro de 2008

LEVE

Escrever por quê?

Pra que?

Pra quem?

Escrever é gestar,

parir,

criar,

É lançar mundos no mundo,

Libertar-se em si.

Estou preso a mim

Como a palavra está presa às letras,

Como o jogo está preso às regras,

Como a língua está presa à gramática.

Comigo sou amor, sou Glauber,

Sou Picasso, Sidarta;

Sem eu sou apenas o concreto,

O português tacanha,

O tempo e o espaço,

As limitações externas;

Preso ao indivíduo, à razão,

Como o yang está preso ao yin,

Como o fim está preso ao início,

Como Deus está preso à fé,

Mas, cada palavra que passa me liberta

E livre sou mais real, mais ar, mais vida,

Mais Cauê e Renata,

Sou mais eu.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A VIAGEM

Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad
Todo es mentira yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?
(Manu Chao/Mentira)

Eu quero morar na cidade da propaganda.

Não é a cidade retratada pelos telejornais nem a polis de Platão nem a dos sonhos de Lynch e muito menos a de cabeça pra baixo que seduziu Raul Seixas. Esse oásis de justiça social e homens públicos esforçados em servir a população que o elegeu já existe. Moramos nela e nunca nos demos conta do nosso privilégio.

Eu quero me mudar para a cidade que a propaganda diz que é a minha. A bela cidade que dizem ser a que eu moro mesmo eu não a conhecendo.

A cidade do serviço público de qualidade com seus hospitais equipados e eficazes, seus transportes eficientes, sua política justa, suas escolas paradisíacas. A cidade dos jovens informados, da massa politizada e dos Impostos cobrados com responsabilidade e usados com transparência.

Todos nós que julgamos ser essas cidades um universo paralelo, que nunca pisamos em seus solos sagrados nem nunca desfrutamos de suas benesses, é que estamos enganados. Elas existem sim. O que vemos e vivemos todos os dias, os sofrimentos e revoltas, as injustiças e indiferenças, não passam de miragem. Ilusão de nossa imaginação pessimista. Real é o que nos diz a propaganda. Prova disso é a satisfação popular que se faz presente nas urnas em todas as eleições cujos resultados contrastam gritantemente com as lamúrias e bravatas que ouvimos durante a administração de tais benfeitores.

Já não sei mais se quem vota é o eleitor ou a pesquisa, se o real é o que eu vivencio ou a que me mostram os meios de comunicação.

Só sei é que eu não vivo e nem nunca vivi nas cidades existentes nas propagandas dos candidatos a reeleição.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

CASA

Na rua há um chalé. Um único entre os espigões. Um lar em meio ao progresso.

Anacrônico? Talvez. Numa era em que basta estar fora dos moldes ditos modernos para ser considerado como tal, é bem certo que o distinto chalé seja, para os “moderninhos” moradores dos “Residencials”, um trambolho, um resquício de uma época enterrada.

E assim é. O modesto chalé está lá, carregando consigo não só uma época que passou, mas todas as que passam por ele. Embora não seja tão antigo quanto parece ser na cabeça dos filhos do progresso, não há ninguém da sua idade na tal rua. Mais velho então, nem pensar. Na sua altivez estão lembranças de seus irmãos que deixaram de existir para que outros interesses viessem à luz. E ele segue firme. Sua fachada está pintada, as janelas e o portão também. Os muros baixos, os únicos na rua das grades, alarmes e interfones, estão bem cuidados. O chalé se preserva. Mesmo ouvindo os rumores de que ali deveria estar algum outro pseudo gran fino de nome estrangeiro, ele permanece firme. Firme e asseado. Dentro dele correm vidas. Vidas que se protegeram no seu calor, vidas concebidas no seu aconchego. Vidas que se infiltraram em suas paredes e cujas marcas permanecem embaixo das pinturas.

Encostada no muro, a velha (Sim, eu disse velha, mas ela não liga para tal, sabe que é preferível ser chamada assim com carinho a ser desrespeitada entre risinhos e palavras escolhidas), a rainha do chalé olha mais uma tarde passando pela rua. Uma tarde de maio, mês das noivas e das mães. Nem Helena nem Macabea nem Carolina, ela olha a cidade indiferente ao tempo. Varre o lixo do elegante prédio atirado no seu quintal e cultiva suas lembranças. As lembranças da vida que passou e que continua a passar. Dos filhos que são pais, dos netos que batalham e dos bisnetos que virão. A vida continua seguindo independente do século e das ambições predominantes.

Seus olhos verdes, sua pele levemente maquiada, seu perfume doce e discreto, seu sorriso aos passantes, mostram que a vida ainda pulsa indiferente às tendências. Já viu muito, já ouviu de tudo. Viveu o suficiente para não ter certezas. Sua única convicção é a beleza incerta desta tarde. Desse mesmo muro viu guerras e revoluções. Marchas e marchas. Democracias e ditaduras. E nada abalou seu pensamento, sua fé e felicidade. Ela continua olhando pelo muro como se assistisse ao mundo, como se ele fosse um espetáculo apartado do seu chalé. Como se a vida das pessoas individualmente não formassem o mundo e como se o mundo em nada influenciasse a sua vida, seja na alegria seja na tristeza. Sorri para os bebês que passam nos carrinhos. São seus filhos, seus netos. Os bebês riem das mesmas brincadeiras e choram pelas mesmas necessidades indiferentes ao século. Nos tempos de Lacan já eram assim; já o eram antes mesmo da loba.

“La bohème” toca na sua vitrola e ressoa por toda a rua. "Je vous parle d'un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaitre..." ("Eu vos falo de um tempo que os menores de vinte anos não podem conhecer...") E ela cantarola com os olhos no entardecer da rua e em Montmartre ou no Alentejo ou na Galícia ou nas ruas de uma Santos que não existe mais. "La bohème, la bohème, ça voulait dire on est heureux ..." ("A boemia, a boemia, isso queria dizer que éramos felizes..."). Canta a vida, a felicidade, o amor e o tempo que fica mas não pára. O tempo queijo derretido da memória persistente de Dalí. "...Fallait-il que l'on s'aime et qu'on aime la vie..." ("...Era preciso que nos amássemos e amássemos a vida...")

Haverá um dia em que o chalé não estará mais ali. Cairá como as árvores da floresta em nome do dito progresso. Talvez até o endereço deixe de existir. "...Ni les murs, ni les rues qui out vu ma jeunesse... "("...Nem os muros nem as ruas que viram minha juventude..."). Quando esse dia chegar, a tal velhinha não mais fará parte deste mundo de famílias e presépios. Haverá um dia em que todo o zelo se transformará em destroços, a afeição em herança e o amor em lembrança, dando lugar a um outro amor que também se transformará em lembrança e assim sucessivamente. Assim sempre passará o mundo. Os homens vivendo suas vidas, construindo suas casas, dando vida às ruas e passando para outras vidas, outros sonhos. E toda essa pintura será sempre contornada pelo lápis do amor. O amor. Enquanto houver vida na Terra haverá amor. O amor da velha e do chalé. O amor das leoas e dos gorilas. O amor dos homens que marchavam. O amor da ópera e dos operários. O amor dos índios e dos antropólogos. O amor das noivas e das mães. A vida será sempre amor e procura.

Sigo pela rua, a velha e o chalé ficam para trás. Na vitrola toca “Eu e a brisa”. Eu já não a vejo, provavelmente alguma placa de “vende-se” anuncie o tal inventário. “...brisa fica pois talvez quem sabe...”; pode ser que se eu olhe agora já não distinga mais a velha do chalé, pode ser que o muro já tenha caído. “... o inesperado traga uma surpresa...”. Eu sou a velha e as suas incertezas. O tempo que eu a vi vendo só existe dentro de mim. Seus filhos e netos foram fecundados por mim. Ela é o outro e eu o bebê. A tarde como a vi só existe pra mim. Eu e a brisa. Eu agora sou o chalé. O chalé e o endereço que um dia deixará de existir.

terça-feira, 29 de abril de 2008

SANTO OFÍCIO

Ah, a propaganda!
Santificado é o seu nome.
Da mesma forma que a filosofia guiou as idéias e pensamentos do século XVIII, nesta nossa Idade Mídia, em que a sofrida Mãe Terra se transformou numa imensa bolsa de valores, é a propaganda quem determina o pensamento contemporâneo.
Sob a sua influência, quantos crimes compensaram? Quantos satélites foram invadidos? Quantos muros se ergueram e quantos caíram? Quantos imbecis se tornaram gênios e quantos gênios foram malditos? Quantos reis e rainhas foram coroados e quantos fenômenos foram criados? Quantas línguas morreram e quantos deuses deixaram de existir?
É ela a serpente que induziu o homem a provar o seu fruto proibido e viver condenado a ganhar o pão com o suor do seu rosto. Como se não bastasse comer o cérebro dos mortais, ela toma o lugar dos sentidos, regendo a seu bel prazer o olfato, a audição, a visão e até mesmo o tato dos incautos, vítimas preferenciais da sua lobotomia.
Santa propaganda! São os seus milagres que transformam entretenimento em arte, repressão em liberdade, pão em brioche, negociata em justiça, lixo em luxo e ambição em religião. São as suas obras que anestesiam a mente do homem condenado a permanente atividade e desvario. São os seus interesses que estipulam a estética, a fé, a saúde, o lazer, os ideais e as ambições do censo comum. É por sua mão que o belo passa a ser feio e o inconcebível, real.
Tantas vidas mal vividas, tantas famílias desfeitas, tantos talentos desperdiçados, tanta fome, tanto tédio e tanto vício, para que sempre seja feita a sua vontade.
Cervantes definiu a pena como a língua da alma. Basta lermos nas entrelinhas (nem sempre é preciso tanto) para constatarmos que a escrita dos nossos escritores, jornalistas, cronistas e de tantos outros é a língua da alma do negócio.
E em nome dessa beatitude é que no país movido pelas agências de criação, ferir a liberdade de expressão é proibir publicidade de cerveja na televisão.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Dia 23 de abril é o dia mundial do livro.
Um país se faz com homens e livros, disse Monteiro Lobato; mas talvez falar de livros em um país que tem mais editoras que livrarias talvez não signifique exatamente a construção de um país. Mesmo com todos os festejos e ações que a UNESCO promove em países do mundo inteiro para celebrar a data que ela instituiu em 1995, o mais importante é lembrarmos o que ela significa:
No dia 23 de abril do longínquo (nem tão longe assim) ano de 1616, dois gênios das letras deixavam o nosso planeta:
Shakespeare e Cervantes. Hamlet e D.Quixote de La Mancha. Romeu e Julieta e O curioso impertinente.
Gênios tais que se confundem com as lendas;
Gênios tais que sobrevivem 400 anos depois de suas mortes;
Gênios tais que seus personagens adquiriram vidas próprias e romperam a barreira do tempo. A prova disto é que hoje, séculos depois das mortes de seus criadores, não é difícil encontrar pessoas que se identifiquem com a inadequação de D.Quixote com o tempo em que vivia ou com a rebeldia contra as normas sociais representadas pelo casal de personagens mais famoso do teatro.
Cervantes lutou em guerras, foi prisioneiro na Argélia, perdeu a mão esquerda e criou o melhor livro de ficção de todos os tempos, antecipando-se ao realismo. Shakespeare levou uma vida discreta, o que colabora com as lendas quanto a sua existência, pariu o teatro moderno e, séculos depois, emprestou seus personagens e conflitos para servirem como base para os estudos de Freud e Lacan.
Hoje, na era digital do excesso de informação e variedade de conceitos, é sempre oportuno refletirmos onde estão nossos pares para Shakespeares e Cervantes.
Estarão tentando romper a barreira dos intere$$es editorais e midiáticos? Combatendo em alguma guerra absurda? Interessados apenas nas suas, como disse Capinan, vida in vitro feita nas coxas e vivida às pressas? Preparam no subterrâneo da nossa Idade Mídia uma obra-prima? Ou esqueceram-se de serem o que são e tentam ser Shakespeare e Cervantes?
De qualquer forma, nada mais justo para o dia do livro que a data em que perdemos duas das maiores forças literárias que a raça humana produziu.
Parabéns Miguel! Parabéns Willian! Parabéns a todos, gênios ou não, que rompem a barreira do cotidiano e se aventuram pela dor e delícia do mundo das letras!

*Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4883)

terça-feira, 22 de abril de 2008

SINAIS

Sinal vermelho. Pare. Sinal verde. Contramão. Velocidade máxima permitida. Travessia de pedestres.

Para que servem as sinalizações? Por que existem leis de trânsito? É óbvia a resposta que as leis, no caso do trânsito, servem para assegurar uma convivência harmoniosa. Mas, no caso do que vemos pelas ruas do Brasil a afirmativa pode bem ser interpretada como falsa. Se na teoria todos aparentemente concordam com a afirmativa, na prática quase ninguém as respeita. Resultado: o caos.

Talvez o nosso trânsito seja a demonstração cabal da selva em que ainda vivemos, dos selvagens em que nos transformamos e da fraqueza da nossa civilidade. No país do “quem pode mais chora menos” e “cada um com os seus problemas”, o descalabro instalado em nossas avenidas, ruas e rodovias é a metáfora perfeita do individualismo reinante. Aí está a conseqüência do tão aclamado jeitinho: salve-se quem puder.

Como esperar de uma população que não consegue respeitar um código tão elementar para a convivência pacífica como o de trânsito a construção de uma grande nação? Como falar em cidadania, democracia ou o que quer que seja para quem não consegue respeitar uma faixa de pedestres? O número de acidentes com mortos, cuja causa é o desrespeito às mais elementares leis de trânsito, dá para preencher a nossa televisão com programas diários, desses que gostam de espremer o sangue das vítimas da nossa selvageria ou até mesmo alguma produção com o intuito de conscientizar e sociabilizar, coisa raríssima de encontrar nas nossas emissoras ( mais preocupadas com os próprios interesses que com as obrigações perante o país que lhes deu a concessão), sem necessidade de reprise.

Quem é o culpado? O governo? O sistema de educação? A má distribuição de renda? Não. A culpa é do individualismo que rege a vida nacional. A culpa é da falta de sensibilidade pelos interesses do próximo, dessa lei da selva onde somente os fortes sobrevivem (no trânsito, a preferência nunca é do pedestre) e cada um visa apenas os seus próprios anseios. Aonde as nossas classes “A” e “B” enfiam toda a sua elegância, esclarecimento e sensibilidade quando a bordo de seus automóveis (muitos deles importados) cometem atrocidades dignas de deixar boquiaberto o exército de Átila?

É esse individualismo burro, que muitos gostam de intitular malandragem, a causa do nosso caos. É através dele que elegemos nossos governantes, que educamos nossos filhos, que parimos a guerra urbana que se instituiu em nossas metrópoles. E regidos pelos mesmos individualismos é que tentamos encontrar as soluções. Pra que buscar soluções? Pra que mostrar solidariedade com as crianças assassinadas quando desprezamos os vivos? Pra que tentar buscar soluções para a paz quando a nossa única preocupação é com a nossa própria segurança? Pra que discutir quando começa a vida se a partir do nascimento somos todos moldados segundo a doutrina do “cada um por si”? Pra que discutir política quando o nosso único interesse é pela nossa própria estabilidade em detrimento de qualquer tentativa de se construir uma nação de verdade? Será que as regras de respeito e convívio são tão desbaratadas para nós como eram as leis da cavalaria para os contemporâneos de Cervantes?

Não foi pensando nos pequenos interesses individuais, nem na mesquinharia dos oligarcas que os E.U.A. (que gostamos tanto de nos comparar) se tornou independente e firmou-se como nação. Mesmo com o egoísmo aguçado pelo capitalismo, o sentimento de coletividade, de patriotismo é o que impulsiona o País. Se Fidel deixa o governo de Cuba com a certeza de que sua Universidade-Ilha jamais voltará a ser um balneário é porque sabe que os ideais da revolução deixaram para a população a certeza de que o coletivo é mais forte que o individual.


Enquanto em nossas vias continuarem circulando a barbárie do nosso personalismo, nenhum partido, religião ou sistema nos livrará da realidade fabricada pelo nosso egoísmo e aqui será sempre, como bem disse Torquato Neto, o fim do mundo. O país dos heróis sem caráter de Mario de Andrade, do “sabe com quem está falando?” de Roberto da Matta, da corrupção, das brigas de torcida, da bala perdida, da dengue, do seqüestro relâmpago, do coronelismo, do legal-imoral, da “pilantropia”,dos engarrafamentos e de toda a sorte de catástrofes que o desrespeito ao próximo pode causar.

quarta-feira, 5 de março de 2008

DIAS DE LUZ

Neste ano de 2008 comemoraremos os cinqüenta anos de lançamento do Lp “Canção do amor demais” da divina Elizeth Cardoso, o primeiro Lp a registrar a batida do violão de João Gilberto e, portanto, o marco zero da bossa nova. Sendo assim, este é o ano de comemorarmos meio século da bossa sempre nova. Parabéns Brasil!

A bossa nova foi um sonho que o Brasil teve. Um sonho de sofisticação e simplicidade. Um sonho de popularização do refinamento em meio a um país que caminhava de encontro à realização dos ideais de uma geração sonhadora. Seu cenário era o Rio de Janeiro com peixinhos a nadar no mar e garotas com um balançar que era mais que um poema. O Rio de Orfeu, Garrincha e Niemeyer; sua pátria era o Brasil de Juscelino (o presidente bossa nova), da poesia de Drummond, das crônicas de Rubem Braga, da Gabriela de Jorge Amado e das telas de Portinari.

A bossa, com seu estilo muito natural, colocou o Brasil definitivamente entre os maiores produtores (quiçá o maior) de música popular de qualidade do planeta. Tinha na sua árvore genealógica um músico de talento ímpar chamado Tom Jobim, um poeta romântico de primeira grandeza chamado Vinícius de Moraes e um gênio chamado João Gilberto. Suas batidas, suas harmonias, suas letras coloquiais de amor e galhofa e sua miscigenação do samba da nossa terra com o jazz era a trilha sonora ideal para um país que se erguia como potência cultural e que acabava de gritar “o petróleo é nosso”.

Seus cantinhos e violões revelaram ao mundo, talentos inigualáveis como João Donato, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra, Astrud Gilberto e Johnny Alf, emocionaram o Carneggie Hall, fascinaram músicos como Miles Davis, Stan Getz , Frank Sinatra e Ella Fitzgerald e arrebataram inúmeros Grammys (Awards, não o genérico latino). Depois caiu na mão de charlatães sem talento que se aproveitando da popularidade que o gênero alcançava tentaram transforma-la em apenas mais um produto, como disse João Gilberto, em “jazz para débil mental.”.

Mas, como tristeza não tem fim, felicidade sim, o Brasil foi subjugado pelo medo e pela ganância e quem acreditou no amor, no sorriso e na flor depois chorou e perdeu a paz. João Goulart foi deposto, as reformas não aconteceram e JK não voltou em 65. A roda-viva de uma guerra estúpida e fria chegava ao Brasil tornando cinzas nossas tardes tão azuis. Os filhos da bossa nova surgiam então com uma preocupação maior que o refinamento musical: a de conscientizar uma população que começava a mergulhar na letargia de uma ditadura truculenta e alienante. Precisavam fazer a hora, caminhar contra o vento, lutar para que não perdêssemos a ternura.

Hoje, meio século depois que a onda da bossa nova se ergueu no nosso mar, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza. É preciso inventar de novo o amor.

* Publicado também nos jornais "Brasileiros e Brasileiras", "Página Dois" e no site "Direto da Redação".