Estrondo de avião. Explosão, fumaça e mortes. A imprensa quer culpados. O povo quer soluções. Chuva. Divulgação. Número de mortos. Apresentadores de TV ávidos por audiência. Corpos. Substantivos comuns. Arena Multiuso. Medalhas. Medalhas de bronze, de prata e de ouro. Ouro. Ouro para o bem do Brasil. Podium, lágrimas, bandeira hasteada e o Hino Nacional. O Hino.
Arnaldo Antunes grita: “Sou de lugar nenhum”.
Bandeira a meio-pau: luto. Mortos nas estadas. Falha Humana? Técnica? Problemas no asfalto? Falta de escape? Ônibus. Caminhões. Transportadoras. Resgate. Raios fúlgidos. Trilhos vazios. Sucatas. Oficinas de desmanche. Ônibus em chamas. Congestionamentos. Carros importados. Rios nunca navegados. Inavegáveis. Rios grandes. Rio organizado. Rio turbilhão. Portos ricos. Porto Alegre. Casais. Santos-Jundiaí. Terra da garoa. Levei um susto enorme nas asas da Panair. Alta dos combustíveis. Buraco. Metrô. Solução?
Rubem Braga escreveu: “Procura-se, e talvez não se queira achar”.
Atletas sem incentivo, mais medalhas. Atletas “Made in Brazil”, festa na torcida. O Cristo é nossa maravilha. Medalha de bronze. Berimbau metalizado. Mendigos. Farrapos. Bolsas. Transeuntes em pânico. Carros nas calçadas. Contramão. São São Paulo. Furtos. Falcões. Rapa. Rap. Rota. Sinais vermelhos. Mais medalhas. Amor e esperança. Trânsito caótico. Desrespeito. Exército. Bandeira. Cartões internacionais. Faixas de segurança. Balas perdidas. Delicadeza perdida.
Procura-se, e talvez não se queira achar...
Internet. Orkut, Blogs e Fotologs. Bate-papos sem papos. Fotos trágicas. Downloads. Bizarrices. Gerundismo. Estrangeirismos. Estréias. Filme americano. Manu Chao. Clandestinos. Desaparecidos. Panamérica. Bolívar. Gás. Gases. Al Gore. Multinacionais. Fumaça verde. Impressionismo. Presente Imperfeito. Paz no futuro. Aquele Abraço. Medalhas. Americanos. O uivo. A vaia. Florão da América. Concurso público. Um Brasil para todos. Saneamento Básico. Sem telas. Sem tetas. Sem terras.
Arnaldo: “Nenhuma pátria me pariu”.
Cristo Redentor. Negócios da China. Jogos de xadrez. Manchetes sensacionalistas. Orações subordinadas. Tropicanalhice. Mais um morto. Malvadeza. A Náusea. Lixo nas calçadas. Brasileiros-ianques. Cubanos-brasileiros. Bloqueio. Vôlei. Rio, eu gosto de você. Verbas. Impostos. Postos de gasolina. Hotéis de luxo. Aeroportos. Fome. Bandeiras. Entradas. Homens-peixes. Viadutos. Terminais. Arranha-Céu. Braços fortes. Peças presas. Ingressos caros. Quebra-quebra. Bispos. Xeques. Clava forte. Problemas solucionáveis, sem solução.
Procura-se, e talvez não se queira achar...
Inferno. Medalhas. Cristo. Carta. Capital. Provocações. Guanabara. Sorrisos. Falsos sorrisos. Pererê. Filhos ilegítimos. Bois. Argentina. Cambalache. Casa tomada. Prata. Ouro negro. Venezuela. Militares. Lábaro estrelado. Força aérea. Controladores. Descontrole. CPIs. Pedágios. Recessos. Outras mil. Platéia de costas. Classificados. Desclassificação. Ginástica. Ouro. Podium. Torres. Chamas. Medalhas. Crimes. Bancos. Propagandas. Cruzeiros. Lágrimas. Mate. Desordem. Derrida. Globalização. E o Hino.
Pau. Pedra. Caminho. Fim.
* Publicado também nos jornais Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3669) e Direto da Redação ( http://www.diretodaredacao.com/ )
segunda-feira, 23 de julho de 2007
sexta-feira, 20 de julho de 2007
COMENTAR NÃO É PECADO II
Fornicar não é pecado. Esse era o pensamento reinante no Brasil na época da colonização portuguesa ( Ler "Casa Grande e Senzala" de Gylberto Freyre), tenho pa mim que este "slogan" define muito mais nosso País que o contraditório "Ordem e Progresso"...
Aqui neste blog o que não é pecado é comentar. Por isso, mandem brasa. Vamos discutir os temas em questão...
Aqui neste blog o que não é pecado é comentar. Por isso, mandem brasa. Vamos discutir os temas em questão...
XENOFILIA (ESSE FILME EU JÁ VI...)
Independência ou morte!
O suposto grito dado pelo nosso libertador D.Pedro I às margens do rio Ipiranga e que serviu de inspiração para a fantasia do pintor Pedro Américo (eu também gostaria que tivesse acontecido como no quadro) não é a abertura de um artigo de reflexão sobre o que foi feito da nossa independência depois do brado retumbante, falaremos de arte. Mais precisamente sobre a sétima arte: o cinema.
O povo brasileiro sempre foi artista em potencial e mesmo com todas as dificuldades e imposições procurou um jeito (e neste caso o termo “jeitinho brasileiro” é bem vindo) de manifestar-se artisticamente. Jeito esse que obteve resultados que serviram de inspiração e respeito por toda a parte do mundo, como a bossa nova, as escolas de samba e seus desfiles, a arquitetura de Niemeyer, a literatura de Machado de Assis, o tropicalismo, entre outros inúmeros exemplos.
No caso do cinema, desde a década de 20, a produção brasileira sofre com a interferência dos distribuidores americanos que, como constatou Noel Rosa, “com mania de exibição não entendem que o samba (a cultura brasileira) não tem tradução”.
Nesses quase noventa anos seriam precisas laudas e laudas para listar todos os artifícios que os distribuidores imperialistas usaram para sufocar a produção local e hoje, mesmo com todo esse discurso de renascimento do nosso cinema, nossa produção continua dependente do comando imperial. Tem razão quem diz que nossa situação já foi pior (Existirá ameaça maior para a cultura do nosso País do que foram o AI-5 e a “Era Collor”?), mas mesmo assim estamos longe de um resultado satisfatório. Um filme brasileiro para ser exibido em grandes salas de cinema (no Brasil!) depende da caridade dos distribuidores e de ser feito em parceria com multinacionais, vide Columbia/Globo, e mesmo assim o tempo de permanência é muito menor que os ocupados pelos “donos das salas”. Ou seja, as salas de cinemas brasileiras estiveram sempre à disposição de combatentes estadunidenses, restringindo tempo e espaço para os nossos cangaceiros e inconfidentes. A dificuldade que um cineasta brasileiro, que não tenha nenhum tipo de associação com os cartéis, encontra para exibir o seu filme no grande circuito é semelhante à de Zé do Burro para pagar sua promessa.
A justificativa mais comum encontrada por colonizadores e entreguistas é de que a produção norte-americana é superior. Depende do ponto de vista. Mas, como por toda a história do cinema sempre se encontraram argumentos para depreciar a produção local em favor da colonização (o nosso idioma não fica bem nas telas, cinema brasileiro é só pornografia, entre outros absurdos) e esse esquema monopolizador não se restringe ao Brasil é melhor nem entrarmos neste mérito, até porque o objetivo é falar da nossa cultura e do país que queremos construir.
Como para as coisas boas também existe um jeitinho, enquanto emissoras, autoridades e a intelectualidade engajada brigam por seus interesses, refiro-me ao absurdo impasse sobre a Ancinav, complicando ainda mais a situação do nosso cinema, algumas pessoas encontram soluções inusitadas: é o caso de Hermano Figueiredo e Paulo Betti.
Hermano é o inspirador do Movimento dos Sem Tela, um projeto que busca outras formas de exibições para filmes verdadeiramente brasileiros que não sejam as salas/shoppings sempre ocupadas com seus homens-aranhas e Harry Porters. Seu projeto mais recente, que conta com o apoio do Ministério da Cultura e da ONG Ideário, chama-se “Acenda uma vela”(nome inspirado também na frase do chinês Confucio:”mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão”) e consiste em exibir filmes gratuitamente em velas de jangadas nas vilas de pescadores sob o céu estrelado e o marulho das praias alagoanas. O intuito, além de proporcionar à cineastas independentes um alcance maior de público, é o de prestar assistência artística às pessoas que não têm como pagar os ingressos cobrados pelas salas/shoppings e que, em muitos casos, para irem ao cinema precisam sair da cidade aonde vivem. Além da exibição dos filmes Hermano promove também um debate com as platéias de seus filmes, que já foram exibidos em redes de dormir (Projeto filmes em rede), barrigas de vaca, etc.
Paulo Betti, que fundou com recursos próprios e de outros atores a Casa da Gávea (que além de cursos de interpretação e formação de atores promove palestras e leituras de peças inéditas), desistiu de lutar com o cartel de distribuição e tratou de inserir o seu “Cafundó” no circuito por conta própria. Com uma Kombi e equipamentos de exibição, fez as exibições do filme em praças públicas de cidades do interior, muitas vezes acompanhado por atores do elenco, além de promover discussões sobre o conteúdo e o enredo em questão ( No caso de Cafundó, a discriminação racial e a liberdade de credo).
São trabalhos como esses e os realizados pelos cineclubes que visam construir uma nação de cidadãos, e não uma colônia alienada. O cinema, assim como todas as artes, serve como orientador da cidadania, por isso que lutar com todas as forças por uma consolidação, acima dos interesses pessoais e econômicos, de um cinema verdadeiramente brasileiro (sem xenofobia) é obrigação de todos nós. Enquanto continuarmos servindo de espectadores de produções ianque, de gosto duvidoso e objetivos colonizadores, deixando de lado o esforço, a competência e as superações dos nossos conterrâneos, continuaremos na contramão da construção de uma nação. Ou batalhamos pela solidificação da nossa cultura e educação social, ou ficaremos tropeçando sempre nos mesmos problemas, esperando que um messias nos salve de nós mesmos sem precisarmos abrir mão de nada.
Baseado na declaração da atriz Fernanda Torres na coletiva de lançamento do filme “Saneamento básico” de que o cinema é o saneamento básico da alma, será algum exagero concluir que caso continuemos dificultando a luta dos nossos Saturninos de Brito nos transformaremos em dejetos?
* Publicado também no Jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3658)
O suposto grito dado pelo nosso libertador D.Pedro I às margens do rio Ipiranga e que serviu de inspiração para a fantasia do pintor Pedro Américo (eu também gostaria que tivesse acontecido como no quadro) não é a abertura de um artigo de reflexão sobre o que foi feito da nossa independência depois do brado retumbante, falaremos de arte. Mais precisamente sobre a sétima arte: o cinema.
O povo brasileiro sempre foi artista em potencial e mesmo com todas as dificuldades e imposições procurou um jeito (e neste caso o termo “jeitinho brasileiro” é bem vindo) de manifestar-se artisticamente. Jeito esse que obteve resultados que serviram de inspiração e respeito por toda a parte do mundo, como a bossa nova, as escolas de samba e seus desfiles, a arquitetura de Niemeyer, a literatura de Machado de Assis, o tropicalismo, entre outros inúmeros exemplos.
No caso do cinema, desde a década de 20, a produção brasileira sofre com a interferência dos distribuidores americanos que, como constatou Noel Rosa, “com mania de exibição não entendem que o samba (a cultura brasileira) não tem tradução”.
Nesses quase noventa anos seriam precisas laudas e laudas para listar todos os artifícios que os distribuidores imperialistas usaram para sufocar a produção local e hoje, mesmo com todo esse discurso de renascimento do nosso cinema, nossa produção continua dependente do comando imperial. Tem razão quem diz que nossa situação já foi pior (Existirá ameaça maior para a cultura do nosso País do que foram o AI-5 e a “Era Collor”?), mas mesmo assim estamos longe de um resultado satisfatório. Um filme brasileiro para ser exibido em grandes salas de cinema (no Brasil!) depende da caridade dos distribuidores e de ser feito em parceria com multinacionais, vide Columbia/Globo, e mesmo assim o tempo de permanência é muito menor que os ocupados pelos “donos das salas”. Ou seja, as salas de cinemas brasileiras estiveram sempre à disposição de combatentes estadunidenses, restringindo tempo e espaço para os nossos cangaceiros e inconfidentes. A dificuldade que um cineasta brasileiro, que não tenha nenhum tipo de associação com os cartéis, encontra para exibir o seu filme no grande circuito é semelhante à de Zé do Burro para pagar sua promessa.
A justificativa mais comum encontrada por colonizadores e entreguistas é de que a produção norte-americana é superior. Depende do ponto de vista. Mas, como por toda a história do cinema sempre se encontraram argumentos para depreciar a produção local em favor da colonização (o nosso idioma não fica bem nas telas, cinema brasileiro é só pornografia, entre outros absurdos) e esse esquema monopolizador não se restringe ao Brasil é melhor nem entrarmos neste mérito, até porque o objetivo é falar da nossa cultura e do país que queremos construir.
Como para as coisas boas também existe um jeitinho, enquanto emissoras, autoridades e a intelectualidade engajada brigam por seus interesses, refiro-me ao absurdo impasse sobre a Ancinav, complicando ainda mais a situação do nosso cinema, algumas pessoas encontram soluções inusitadas: é o caso de Hermano Figueiredo e Paulo Betti.
Hermano é o inspirador do Movimento dos Sem Tela, um projeto que busca outras formas de exibições para filmes verdadeiramente brasileiros que não sejam as salas/shoppings sempre ocupadas com seus homens-aranhas e Harry Porters. Seu projeto mais recente, que conta com o apoio do Ministério da Cultura e da ONG Ideário, chama-se “Acenda uma vela”(nome inspirado também na frase do chinês Confucio:”mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão”) e consiste em exibir filmes gratuitamente em velas de jangadas nas vilas de pescadores sob o céu estrelado e o marulho das praias alagoanas. O intuito, além de proporcionar à cineastas independentes um alcance maior de público, é o de prestar assistência artística às pessoas que não têm como pagar os ingressos cobrados pelas salas/shoppings e que, em muitos casos, para irem ao cinema precisam sair da cidade aonde vivem. Além da exibição dos filmes Hermano promove também um debate com as platéias de seus filmes, que já foram exibidos em redes de dormir (Projeto filmes em rede), barrigas de vaca, etc.
Paulo Betti, que fundou com recursos próprios e de outros atores a Casa da Gávea (que além de cursos de interpretação e formação de atores promove palestras e leituras de peças inéditas), desistiu de lutar com o cartel de distribuição e tratou de inserir o seu “Cafundó” no circuito por conta própria. Com uma Kombi e equipamentos de exibição, fez as exibições do filme em praças públicas de cidades do interior, muitas vezes acompanhado por atores do elenco, além de promover discussões sobre o conteúdo e o enredo em questão ( No caso de Cafundó, a discriminação racial e a liberdade de credo).
São trabalhos como esses e os realizados pelos cineclubes que visam construir uma nação de cidadãos, e não uma colônia alienada. O cinema, assim como todas as artes, serve como orientador da cidadania, por isso que lutar com todas as forças por uma consolidação, acima dos interesses pessoais e econômicos, de um cinema verdadeiramente brasileiro (sem xenofobia) é obrigação de todos nós. Enquanto continuarmos servindo de espectadores de produções ianque, de gosto duvidoso e objetivos colonizadores, deixando de lado o esforço, a competência e as superações dos nossos conterrâneos, continuaremos na contramão da construção de uma nação. Ou batalhamos pela solidificação da nossa cultura e educação social, ou ficaremos tropeçando sempre nos mesmos problemas, esperando que um messias nos salve de nós mesmos sem precisarmos abrir mão de nada.
Baseado na declaração da atriz Fernanda Torres na coletiva de lançamento do filme “Saneamento básico” de que o cinema é o saneamento básico da alma, será algum exagero concluir que caso continuemos dificultando a luta dos nossos Saturninos de Brito nos transformaremos em dejetos?
* Publicado também no Jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3658)
OLAVO DÁDA
Quero indicar aos leitores deste blog,os textos do meu amigo e guerreiro cultural:Olava Dáda.
Sã textos cheios de percepção,conhecimento e senso análitico.
Enfim,textos de utilidade pública, coisa rara na nossa impren$a...
http://blog.teatrodope.com.br/2007/07/06/âeu-sou-neguinhaâ-ou-o-rockânâroll-contra-o-preconceito/
http://blog.teatrodope.com.br/2007/07/06/âweltschmerzâ-vol-terral-de-tristeza-e-melancolia-no-litoral/
Sã textos cheios de percepção,conhecimento e senso análitico.
Enfim,textos de utilidade pública, coisa rara na nossa impren$a...
http://blog.teatrodope.com.br/2007/07/06/âeu-sou-neguinhaâ-ou-o-rockânâroll-contra-o-preconceito/
http://blog.teatrodope.com.br/2007/07/06/âweltschmerzâ-vol-terral-de-tristeza-e-melancolia-no-litoral/
sexta-feira, 13 de julho de 2007
PRA FRENTE BRASIL
Vamos torcer pelo Brasil no Pan 2007.
Vamos torcer para que esta onda esportiva traga ao nosso País o respeito pelo esporte. Vamos torcer para que a Educação Física, matéria importante na constituição de um ser - humano de qualidade desde os tempos de Platão e Aristóteles, tão presente nos ideais de Rousseau e Pestalozzi e que até hoje tem destaque nos países que se preocupam com formação dos seus cidadãos, alcance, neste triste trópico, o respeito que merece. Quem sabe então, nossos jovens vejam algum sentido maior na vida do que morrer em tiroteios, espancarem empregadas domésticas ou agredirem uns aos outros nas arquibancadas dos estádios de futebol?
Vamos torcer para que o esporte seja para todos, como na Noruega, e as crianças das periferias de nossas cidades, diferente do que viu o ex-jogador de futebol Sócrates na Caravana do Esporte, consigam, através da atenção que, por enquanto, lhes é negada, sentir-se à vontade com as regras de convívio social, por mínimas que sejam.
Vamos torcer para que todas as camadas sociais tenham conjuntos poli esportivos e acesso a um ensino de qualidade.
Vamos torcer para que o País vença o sistema em que alguns ociosos sem nenhuma aptidão enriquecem à custa do talento alheio e o nosso esporte deixe de ser mercantilista.Vamos torcer para que nossos atletas possam viver aqui e deixem de ser produtos de exportação.
Vamos torcer para que assistir aos eventos esportivos deste porte passe a ser uma diversão para todos e não somente para uma elite.
Vamos torcer para que o dinheiro público gasto com o esporte atenda aos interesses da nação e não aos de uma minoria.
Vamos torcer para que os nossos medalhistas não sejam mais predominantemente de sobrenome alemão ou dinamarquês. Vamos torcer para que o atleta brasileiro não precise mais de atos heróicos para conseguir chegar nas Olimpíadas.
Vamos torcer para que um Renascimento esportista nos arranque da Idade Média na qual nos encontramos.
Vamos torcer para que o espírito esportivo de respeito ao próximo e suas potencialidades infiltre-se em nossa sociedade cessando assim a barbárie em que vivemos.
Vamos torcer pelo Brasil. Vamos torcer por nós.
* Publicado também no jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3634)
Vamos torcer para que esta onda esportiva traga ao nosso País o respeito pelo esporte. Vamos torcer para que a Educação Física, matéria importante na constituição de um ser - humano de qualidade desde os tempos de Platão e Aristóteles, tão presente nos ideais de Rousseau e Pestalozzi e que até hoje tem destaque nos países que se preocupam com formação dos seus cidadãos, alcance, neste triste trópico, o respeito que merece. Quem sabe então, nossos jovens vejam algum sentido maior na vida do que morrer em tiroteios, espancarem empregadas domésticas ou agredirem uns aos outros nas arquibancadas dos estádios de futebol?
Vamos torcer para que o esporte seja para todos, como na Noruega, e as crianças das periferias de nossas cidades, diferente do que viu o ex-jogador de futebol Sócrates na Caravana do Esporte, consigam, através da atenção que, por enquanto, lhes é negada, sentir-se à vontade com as regras de convívio social, por mínimas que sejam.
Vamos torcer para que todas as camadas sociais tenham conjuntos poli esportivos e acesso a um ensino de qualidade.
Vamos torcer para que o País vença o sistema em que alguns ociosos sem nenhuma aptidão enriquecem à custa do talento alheio e o nosso esporte deixe de ser mercantilista.Vamos torcer para que nossos atletas possam viver aqui e deixem de ser produtos de exportação.
Vamos torcer para que assistir aos eventos esportivos deste porte passe a ser uma diversão para todos e não somente para uma elite.
Vamos torcer para que o dinheiro público gasto com o esporte atenda aos interesses da nação e não aos de uma minoria.
Vamos torcer para que os nossos medalhistas não sejam mais predominantemente de sobrenome alemão ou dinamarquês. Vamos torcer para que o atleta brasileiro não precise mais de atos heróicos para conseguir chegar nas Olimpíadas.
Vamos torcer para que um Renascimento esportista nos arranque da Idade Média na qual nos encontramos.
Vamos torcer para que o espírito esportivo de respeito ao próximo e suas potencialidades infiltre-se em nossa sociedade cessando assim a barbárie em que vivemos.
Vamos torcer pelo Brasil. Vamos torcer por nós.
* Publicado também no jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3634)
COMENTAR NÃO É PECADO
Agradeço às pessoas que visitam com frequência este blog,mas gostaria de dizer que comentar não é pecado.
O intuito do blog,além de apresentar temas que sejam de interesse geral, é promover a discussão desses assuntos. Por isso, quanto mais diversidades de comentários,melhor.
Se há moderação é apenas para aqueles que têm como intuito avacalhar e desmontar a proposta do veículo.
Vamos comentar,pessoal...Mandem brasa!
Pelo menos aqui, nenhum tipo de visão é pecaminosa
O intuito do blog,além de apresentar temas que sejam de interesse geral, é promover a discussão desses assuntos. Por isso, quanto mais diversidades de comentários,melhor.
Se há moderação é apenas para aqueles que têm como intuito avacalhar e desmontar a proposta do veículo.
Vamos comentar,pessoal...Mandem brasa!
Pelo menos aqui, nenhum tipo de visão é pecaminosa
sexta-feira, 6 de julho de 2007
TESOUROS DA JUVENTUDE
Renan Calheiros, Joaquim Roriz, João Alves, Antonio Carlos Magalhães, Roberto Jefferson e tudo mais jogo num verso...
Esse seria o primeiro parágrafo de um texto que trataria dos escândalos envolvendo o legislativo mais caro do mundo; mas o resultado de uma pesquisa, dentre as dezenas que a imprensa brasileira apresenta todos os dias ( e que a meu ver, na sua maioria, não servem para nada), me pareceu mais grave que qualquer escândalo político: quinze por cento dos universitários (teóricos da classe média vejam bem: estou falando de universitários) do Rio e de São Paulo nunca leram um livro não-didático na vida e trinta e seis por cento leram de um a três; infelizmente, ou felizmente (depende do ponto de vista), a pesquisa à que me refiro, encomendada pelo C.I.E.E ao Instituto Toledo e Associados, não revelou o conteúdo dessa escassa leitura.
“Que País é este?”, sirvo-me da pergunta de Renato Russo ao constatar que as universidades são formadas basicamente por pessoas sem o menor interesse pelo mundo e os seres que os cercam. Afinal falar disto é falar dos nossos escândalos políticos e da apatia do nosso povo perante eles. Ou será que existe alguma outra forma de aprofundamento, seja em história, em política, no idioma pelo qual tenciona comunicar-se, ou em qualquer outro assunto, que não seja através dos livros? Que diferença há entre um analfabeto e um diplomado que não lê?
Tudo bem que para bradar bravatas em botecos ou organizar passeatas inúteis não é preciso nenhum aprofundamento. Mas, e para construir uma nação? A simples especialização pode até formar bons profissionais, no sentido robótico da palavra, e quanto ao cidadão?
Que reformas poderemos esperar de uma sociedade que se forma sem nenhum vínculo com a cidadania? As pessoas interessadas pelo seu papel como cidadão, como alguns estudantes da USP, são poucas perto daqueles que olham somente para os seus próprios anseios. Vivemos na sociedade do “cada um com seus problemas”, incapaz de abrir mão do mais ínfimo interesse a favor do bem-comum.
Como esperar uma política diferente? Como imaginar um quadro social que não seja o caos que vivemos? Como almejar ordem e progresso para um País que entrega diplomas na mão de semi-analfabetos? De uma sociedade que, como constatou Mino Carta, voltou à idade da pedra?
A classe-média discute o absurdo que lhe parece o sistema de cotas, mas o desinteresse pela leitura, e toda a desinformação decorrente, dominando o ensino superior não causa nenhum alarde.
Grande parte dos nossos futuros bacharéis, doutores e professores instruem-se bem longe da leitura, e como conseqüência, alheios a qualquer aprofundamento. Superficiais como as músicas que escutam, os filmes que assistem e os valores que cultivam. Superficiais como suas páginas de orkut e os fotologs que exibem. E o pior é que talvez esta superficialidade seja um reflexo da educação familiar e dos exemplos de vida que receberam.
Para se aproximar de uma juventude assumidamente hedonista, Tom Zé gravou um CD sem nenhuma letra. Será este o caminho? Ou a saída é emigrar? Seguir a ideologia governista dos anos 70, aquela que tinha como lema: “quem não estiver satisfeito que se retire”, abandonar o País na mão da ditadura da alienação e se banhar nas águas culturais do Sena e do Arno?
Tomando esses dados como referência e somando-os aos que revelam o número de analfabetos funcionais e dos que não tem acesso nem a essa educação superficial, o resultado só pode ser a violência, a corrupção, as injustiças e o consumo cego e desenfreado.
Quem tiver alguma boa perspectiva peço que me informe. Quando olho para o nosso presente e o futuro reservado para uma sociedade que se forma dessa maneira tudo o que consigo sentir é a náusea de Sartre. Após esses escândalos, outros virão. Mudarão alguns bailarinos, mas a música permanecerá sempre a mesma. O museu de grandes novidades, que tanto incomodou Cazuza, será por muito tempo o resultado da nossa democracia.
Enquanto tento encontrar uma luz, buscando auxílio em Hermann Hesse, Darcy Ribeiro e Rubem Braga; desculpo-me com o saudoso Wally Salomão por não mascarar minha dor e desperdiçar o seu “verso” jogando-o nesse mal público, num artigo natimorto que não resolverá nada e dificilmente, devido inclusive ao meio em que foi gerado, causará algum tipo de reflexão.
* Publicado também no jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/coluna.php?s=15 ) e no Jornal Brasileiros e Brasileiras (edição de outubro/07)
Posto abaixo o comentário do jornalista e meu amigo Fábio Lobo:
A evolução como escritor do nosso outrora Brizola (quem não foi pra escola com ele que me desculpe) é galopante. Fenômeno muito grato para as mentes dos que podem ter acesso permanente à produção desse jovem talento (que tem um espírito milenar, entretanto). Leandro está cada vez mais deitando e rolando nas palavras, com um cinismo bem-intencionado que nos coloca no olho desse furacão de lama que uns e outros chamam de sociedade. Como leitor de capacidade mental mediana, digo que o texto aparentemente é visto, mastigado e deglutido quase que ao mesmo tempo, mas quando chega o ponto final é que o espírito percebe estar diante de um material infindável, que vai sendo gravado nos confins do universo para, junto com a obra dos cada vez mais escassos artistas do Bem, explodir de maneira avassaladora na "cara dos caretas" e impor uma sociedade mais decente.Salve, irmão. O "TdJ" arrepiou. O B&B, o futuro e o herdeiro agradecem!FL
Esse seria o primeiro parágrafo de um texto que trataria dos escândalos envolvendo o legislativo mais caro do mundo; mas o resultado de uma pesquisa, dentre as dezenas que a imprensa brasileira apresenta todos os dias ( e que a meu ver, na sua maioria, não servem para nada), me pareceu mais grave que qualquer escândalo político: quinze por cento dos universitários (teóricos da classe média vejam bem: estou falando de universitários) do Rio e de São Paulo nunca leram um livro não-didático na vida e trinta e seis por cento leram de um a três; infelizmente, ou felizmente (depende do ponto de vista), a pesquisa à que me refiro, encomendada pelo C.I.E.E ao Instituto Toledo e Associados, não revelou o conteúdo dessa escassa leitura.
“Que País é este?”, sirvo-me da pergunta de Renato Russo ao constatar que as universidades são formadas basicamente por pessoas sem o menor interesse pelo mundo e os seres que os cercam. Afinal falar disto é falar dos nossos escândalos políticos e da apatia do nosso povo perante eles. Ou será que existe alguma outra forma de aprofundamento, seja em história, em política, no idioma pelo qual tenciona comunicar-se, ou em qualquer outro assunto, que não seja através dos livros? Que diferença há entre um analfabeto e um diplomado que não lê?
Tudo bem que para bradar bravatas em botecos ou organizar passeatas inúteis não é preciso nenhum aprofundamento. Mas, e para construir uma nação? A simples especialização pode até formar bons profissionais, no sentido robótico da palavra, e quanto ao cidadão?
Que reformas poderemos esperar de uma sociedade que se forma sem nenhum vínculo com a cidadania? As pessoas interessadas pelo seu papel como cidadão, como alguns estudantes da USP, são poucas perto daqueles que olham somente para os seus próprios anseios. Vivemos na sociedade do “cada um com seus problemas”, incapaz de abrir mão do mais ínfimo interesse a favor do bem-comum.
Como esperar uma política diferente? Como imaginar um quadro social que não seja o caos que vivemos? Como almejar ordem e progresso para um País que entrega diplomas na mão de semi-analfabetos? De uma sociedade que, como constatou Mino Carta, voltou à idade da pedra?
A classe-média discute o absurdo que lhe parece o sistema de cotas, mas o desinteresse pela leitura, e toda a desinformação decorrente, dominando o ensino superior não causa nenhum alarde.
Grande parte dos nossos futuros bacharéis, doutores e professores instruem-se bem longe da leitura, e como conseqüência, alheios a qualquer aprofundamento. Superficiais como as músicas que escutam, os filmes que assistem e os valores que cultivam. Superficiais como suas páginas de orkut e os fotologs que exibem. E o pior é que talvez esta superficialidade seja um reflexo da educação familiar e dos exemplos de vida que receberam.
Para se aproximar de uma juventude assumidamente hedonista, Tom Zé gravou um CD sem nenhuma letra. Será este o caminho? Ou a saída é emigrar? Seguir a ideologia governista dos anos 70, aquela que tinha como lema: “quem não estiver satisfeito que se retire”, abandonar o País na mão da ditadura da alienação e se banhar nas águas culturais do Sena e do Arno?
Tomando esses dados como referência e somando-os aos que revelam o número de analfabetos funcionais e dos que não tem acesso nem a essa educação superficial, o resultado só pode ser a violência, a corrupção, as injustiças e o consumo cego e desenfreado.
Quem tiver alguma boa perspectiva peço que me informe. Quando olho para o nosso presente e o futuro reservado para uma sociedade que se forma dessa maneira tudo o que consigo sentir é a náusea de Sartre. Após esses escândalos, outros virão. Mudarão alguns bailarinos, mas a música permanecerá sempre a mesma. O museu de grandes novidades, que tanto incomodou Cazuza, será por muito tempo o resultado da nossa democracia.
Enquanto tento encontrar uma luz, buscando auxílio em Hermann Hesse, Darcy Ribeiro e Rubem Braga; desculpo-me com o saudoso Wally Salomão por não mascarar minha dor e desperdiçar o seu “verso” jogando-o nesse mal público, num artigo natimorto que não resolverá nada e dificilmente, devido inclusive ao meio em que foi gerado, causará algum tipo de reflexão.
* Publicado também no jornal Página Dois ( http://www.paginadois.com/coluna.php?s=15 ) e no Jornal Brasileiros e Brasileiras (edição de outubro/07)
Posto abaixo o comentário do jornalista e meu amigo Fábio Lobo:
A evolução como escritor do nosso outrora Brizola (quem não foi pra escola com ele que me desculpe) é galopante. Fenômeno muito grato para as mentes dos que podem ter acesso permanente à produção desse jovem talento (que tem um espírito milenar, entretanto). Leandro está cada vez mais deitando e rolando nas palavras, com um cinismo bem-intencionado que nos coloca no olho desse furacão de lama que uns e outros chamam de sociedade. Como leitor de capacidade mental mediana, digo que o texto aparentemente é visto, mastigado e deglutido quase que ao mesmo tempo, mas quando chega o ponto final é que o espírito percebe estar diante de um material infindável, que vai sendo gravado nos confins do universo para, junto com a obra dos cada vez mais escassos artistas do Bem, explodir de maneira avassaladora na "cara dos caretas" e impor uma sociedade mais decente.Salve, irmão. O "TdJ" arrepiou. O B&B, o futuro e o herdeiro agradecem!FL
quinta-feira, 28 de junho de 2007
FORA DA ORDEM
A violência é o produto mais consumido no nosso tempo.
O ser - humano mais do que qualquer outro animal sempre cultivou a violência. Basta recordarmos o sangrento circo romano, as fogueiras inquisitórias e as guerras e extermínios que marcaram nossa história. O que acontece de peculiar nos “anos do consumismo” é que mesmo com todos os avanços da ciência e da tecnologia e os exemplos históricos de que a agressão é o caminho menos eficiente para se atingir qualquer objetivo, a violência continua sendo consumida avidamente.
É impossível circular pelas ruas, ou buscar informações seja lá por qual meio, e não perceber que o “culto à violência” invadiu o inconsciente coletivo do nosso planeta. A violência pop, muito pior que em qualquer filme de Quentin Tarantino, está tanto na pauta de assuntos e nas caras de malvados de nossos adolescentes como nas terríveis tragédias que ilustram nossos noticiários.
Se o culto à beleza povoou as obras e estudos dos renascentistas humanistas dos séculos XV e XVI e o iluminismo do século XVIII inspirou a filosofia do culto à inteligência, é a violência que inspira a arte, a moda e as relações sociais e sexuais do nosso tempo.
Ela não está somente nos jovens de classe média carioca que espancam uma doméstica no ponto de ônibus, nas chacinas, que de tempo em tempo apavoram a população norte-americana, nas lembranças de Hiroshima, nos conflitos intermináveis da faixa de Gaza ou nas guerras tribalistas da África. Figura tanto no “paizão” que educa seus filhos pregando a importância da pena de morte, como naquele que espanca a esposa ou penaliza os filhos com agressões. Está nos estádios de futebol (nos campos e arquibancadas) e nos rodeios, nas brincadeiras infantis e nas conversas dos adultos, nas escolas e na bolsa de valores, na literatura de ficção e não-ficção, nos classificados de jornais e nas filas de desempregados, nos anúncios publicitários e na falta de decoro, no despreparo da polícia e na organização do crime, nos latifúndios e nas milícias, nas depreciações e nas submoradias, na neurose e nos efeitos químicos.
Hoje, qualquer jovem, de qualquer sexo, vê beleza em adotar um estilo agressivo perante a vida. O violento capitalismo selvagem, onde o mais forte engole o mais fraco, transformou o mundo em uma selva globalizada em que o “perdão viril” de Gandhi e a doçura romântica de Vinícius de Moraes são vistos como sinais de fraqueza e a violência covarde é o troco à altura ao também covarde sistema de exclusão (que exclui não pela capacidade, mas por contatos e relações) ao mesmo tempo em que alimenta sua engrenagem.
Alimenta-se e repugna-se a violência simultaneamente. Qualquer atrocidade é rapidamente capturada e exibida pela internet ou pelas emissoras de TV saciando assim a sede de violência dos inúmeros consumidores do gênero que, como a “mãe coragem” de Brecht, consomem e são consumidos por ela. A violência vende: diante desse fator não interessa ao mercado elimina-la e sim, propaga-la cada vez mais. Enquanto cultuarmos a violência (mercadológica, física ou moral) ela não desaparecerá. Como no conto de Julio Cortázar, um dia a barbárie com um som impreciso e surdo tomará nossa fortaleza e nos arrastará com ela.
“Alguma coisa está fora da ordem!”, a frase de Caetano Veloso, ao constatar uma população formada por possíveis grupos de linchadores ao mesmo tempo em que via harmonias possíveis num juízo final, é o slogan dos espetáculos de massacres e balas perdidas de um tempo em que crianças cantam músicas que falam sobre armas e tiroteios, obras de arte são depreciadas com pichações e nações são submetidas à violência daquelas que dizem liberta-las. Cada vez mais distantes as mudanças clamadas por 2Pac, cada vez mais latente a desumanidade caótica (“As queer as a clockwork orange”/ “estranho como uma laranja mecânica”) do mundo imaginado por Burgess e retrato por Kubrick. A humanidade caminha para o auto-linchamento com a mesma avidez que consome todo tipo de lixo; enquanto a “Mãe Terra” cansada ser violentada prepara sua reação...
Será a violência o derradeiro sinal de vida do “homem cordial”, de Ribeiro Couto e Sergio Buarque, antes de transforma-se em uma máquina completa? Será a nossa era uma curva descendente na História, jamais imaginada por Charles Darwin? O início de um retrocesso, na contramão evolucionista, no qual Cristo ensinará o revide, Moisés escravizará o povo hebreu, Sidarta lutará pela opulência e Adão será o último macaco a queimar, seis dias antes de o Planeta Água voltar a ser uma bola de fogo?
* Publicado também nos jornais Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3585 ) e Direto da Redação ( http://www.diretodaredacao.com/ ).
O ser - humano mais do que qualquer outro animal sempre cultivou a violência. Basta recordarmos o sangrento circo romano, as fogueiras inquisitórias e as guerras e extermínios que marcaram nossa história. O que acontece de peculiar nos “anos do consumismo” é que mesmo com todos os avanços da ciência e da tecnologia e os exemplos históricos de que a agressão é o caminho menos eficiente para se atingir qualquer objetivo, a violência continua sendo consumida avidamente.
É impossível circular pelas ruas, ou buscar informações seja lá por qual meio, e não perceber que o “culto à violência” invadiu o inconsciente coletivo do nosso planeta. A violência pop, muito pior que em qualquer filme de Quentin Tarantino, está tanto na pauta de assuntos e nas caras de malvados de nossos adolescentes como nas terríveis tragédias que ilustram nossos noticiários.
Se o culto à beleza povoou as obras e estudos dos renascentistas humanistas dos séculos XV e XVI e o iluminismo do século XVIII inspirou a filosofia do culto à inteligência, é a violência que inspira a arte, a moda e as relações sociais e sexuais do nosso tempo.
Ela não está somente nos jovens de classe média carioca que espancam uma doméstica no ponto de ônibus, nas chacinas, que de tempo em tempo apavoram a população norte-americana, nas lembranças de Hiroshima, nos conflitos intermináveis da faixa de Gaza ou nas guerras tribalistas da África. Figura tanto no “paizão” que educa seus filhos pregando a importância da pena de morte, como naquele que espanca a esposa ou penaliza os filhos com agressões. Está nos estádios de futebol (nos campos e arquibancadas) e nos rodeios, nas brincadeiras infantis e nas conversas dos adultos, nas escolas e na bolsa de valores, na literatura de ficção e não-ficção, nos classificados de jornais e nas filas de desempregados, nos anúncios publicitários e na falta de decoro, no despreparo da polícia e na organização do crime, nos latifúndios e nas milícias, nas depreciações e nas submoradias, na neurose e nos efeitos químicos.
Hoje, qualquer jovem, de qualquer sexo, vê beleza em adotar um estilo agressivo perante a vida. O violento capitalismo selvagem, onde o mais forte engole o mais fraco, transformou o mundo em uma selva globalizada em que o “perdão viril” de Gandhi e a doçura romântica de Vinícius de Moraes são vistos como sinais de fraqueza e a violência covarde é o troco à altura ao também covarde sistema de exclusão (que exclui não pela capacidade, mas por contatos e relações) ao mesmo tempo em que alimenta sua engrenagem.
Alimenta-se e repugna-se a violência simultaneamente. Qualquer atrocidade é rapidamente capturada e exibida pela internet ou pelas emissoras de TV saciando assim a sede de violência dos inúmeros consumidores do gênero que, como a “mãe coragem” de Brecht, consomem e são consumidos por ela. A violência vende: diante desse fator não interessa ao mercado elimina-la e sim, propaga-la cada vez mais. Enquanto cultuarmos a violência (mercadológica, física ou moral) ela não desaparecerá. Como no conto de Julio Cortázar, um dia a barbárie com um som impreciso e surdo tomará nossa fortaleza e nos arrastará com ela.
“Alguma coisa está fora da ordem!”, a frase de Caetano Veloso, ao constatar uma população formada por possíveis grupos de linchadores ao mesmo tempo em que via harmonias possíveis num juízo final, é o slogan dos espetáculos de massacres e balas perdidas de um tempo em que crianças cantam músicas que falam sobre armas e tiroteios, obras de arte são depreciadas com pichações e nações são submetidas à violência daquelas que dizem liberta-las. Cada vez mais distantes as mudanças clamadas por 2Pac, cada vez mais latente a desumanidade caótica (“As queer as a clockwork orange”/ “estranho como uma laranja mecânica”) do mundo imaginado por Burgess e retrato por Kubrick. A humanidade caminha para o auto-linchamento com a mesma avidez que consome todo tipo de lixo; enquanto a “Mãe Terra” cansada ser violentada prepara sua reação...
Será a violência o derradeiro sinal de vida do “homem cordial”, de Ribeiro Couto e Sergio Buarque, antes de transforma-se em uma máquina completa? Será a nossa era uma curva descendente na História, jamais imaginada por Charles Darwin? O início de um retrocesso, na contramão evolucionista, no qual Cristo ensinará o revide, Moisés escravizará o povo hebreu, Sidarta lutará pela opulência e Adão será o último macaco a queimar, seis dias antes de o Planeta Água voltar a ser uma bola de fogo?
* Publicado também nos jornais Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3585 ) e Direto da Redação ( http://www.diretodaredacao.com/ ).
HUMORAL
Está postado abaixo o endeeço do blog Humoral que nos contemplou com um vídeo de Chico Cesar cantando "Odeio Rodeio", uma resposta a altura ao mercado...
http://humoral.blogspot.com/2007/02/odeio-rodeio-chico-csar.html
Parabéns ao Humoral!!! Parabéns à Chico César e à Rita Lee!!!
http://humoral.blogspot.com/2007/02/odeio-rodeio-chico-csar.html
Parabéns ao Humoral!!! Parabéns à Chico César e à Rita Lee!!!
sábado, 23 de junho de 2007
SONHO IMPOSSÍVEL
“Enquanto o Planeta Terra fica cada vez mais quente as pessoas vão ficando cada vez mais frias”; esta frase escrita por Gerald Thomas em um texto do seu “blog do Gerald” leva-nos a refletir sobre a situação interna dos habitantes e do nosso Planeta.
Os fatores estão interligados e o esquentamento é conseqüência da frieza dos seres-humanos. O consumo desenfreado leva ao esquentamento cada vez maior do globo, mas para haver consumo desenfreado precisa-se de uma humanidade fria. É a falta de calor, o gelo causado pelo distanciamento à sensibilidade artística, pelo desinteresse pela História, pela ausência de idéias e opiniões que leva as pessoas ao consumo frenético.
“Consumo, logo existo.”, a lógica contemporânea, distanciada em todo da análise reducionista de Descartes, generaliza o sentido da vida à conquista do poder de consumo e, a partir de então, tudo, inclusive a fé e a existência do Planeta, tem sua importância balizada pelas regras do mercado.
Vivemos na era da falta de utopia. Em qual ponto da evolução estaríamos sem as utopias que impulsionaram a nossa história, sem as grandes figuras que deram vazão aos sonhos ao invés de buscar aprovação do quase sempre equivocado senso comum? Qual a linha fina que separa a utopia do sonho e o sonho da realidade?
Se algumas utopias resultaram em desastres sociais com resultados catastróficos, foram também os sonhos utópicos que aqueceram a alma de nossos artistas e alavancaram o avanço, não só social e científico, mas também emocional, de inúmeras gerações.
“Eu tive um sonho”, foi através da fé de Martin Luther King em uma utopia
(chamemos os sonhos de difícil realização de utopias, pois assim eles sempre foram tratados), que os negros do Sul dos Estados Unidos conseguiram conquistar os direitos de igualdade que até então parecia impossível de serem concedidos. E como alimento de seu sonho Martin foi buscar as realizações utópicas de Ghandi, que por sua vez se inspirou em Thoureau, e por aí vai...
Não fosse pela utopia de transformar as fantasias de Júlio Verne em realidade e Santos Dumont jamais teria inventado o avião; Foi com a coragem utópica de Colombo que a construção de um novo mundo se tornou possível; Grande parte do pensamento filosófico e visão de mundo que temos hoje foi fundamentada nas utopias de Platão, Tomas More, Rousseau, Marx e tantas outras.
Sem a utopia que reinava na Florença renascentista, Michelangelo jamais teria esculpido a monumental estátua do também utópico Davi, essa sim uma maravilha do mundo moderno construída pelo homem, mas que ficou de fora da eleição das maravilhas contemporâneas, que na verdade é apenas um catálogo para os interessados em consumir turismo (o que é bem diferente de viajar), mas deixemos esse assunto de lado (fica para um próximo texto) e voltemos ao nosso “gelado mundo quente”.
Foram as utopias, e não a busca de riqueza e consumo, que sempre alimentaram as idéias dos grandes artistas do nosso planeta. De Camões à Niemeyer, de Van Gogh à Raul Seixas, a arte do nosso mundo foi sempre produzida à luz das utopias.
Tão distante de Cristo quanto de Nietzche, o homem contemporâneo isola-se com seus aparelhos. Cercado por laboratórios farmacêuticos, efeitos especiais, senhores da Guerra, tecnocratas neoliberais e sem ferramentas culturais e embasamento histórico com que possa defender-se, passa a colaborar, cada vez mais, com o sistema que o escraviza, elimina sua personalidade e congela sua essência.
Na ausência de uma utopia, que o distraia da morte inevitável para a qual caminha, passa a crer na ideologia de uma elite sem Deus e vê nas regras sociais de capital e consumo, o único sentido para a sua existência. Sem nada a dizer, a pensar e a ouvir busca nos aparelhos que o isolou, o conforto para o seu distanciamento da vida, relegando ao segundo plano qualquer ato que não alimente o seu desejo egoísta de realização aparente.
Cada vez mais difícil de tentar imaginar o mundo de John Lennon, cada vez mais presente a cegueira antevista por Saramago. Sem a utópica monarquia das abelhas ( adeus polinização!) e com cada vez menos flores brotando do impossível chão, a concretização do assassinato do Planeta talvez transforme nosso tempo na realização da mais terrível utopia: o Apocalipse.
* Publicado também nos jornais Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3555) e Brasileiros e Brasileiras(edição de agosto/2007)
Os fatores estão interligados e o esquentamento é conseqüência da frieza dos seres-humanos. O consumo desenfreado leva ao esquentamento cada vez maior do globo, mas para haver consumo desenfreado precisa-se de uma humanidade fria. É a falta de calor, o gelo causado pelo distanciamento à sensibilidade artística, pelo desinteresse pela História, pela ausência de idéias e opiniões que leva as pessoas ao consumo frenético.
“Consumo, logo existo.”, a lógica contemporânea, distanciada em todo da análise reducionista de Descartes, generaliza o sentido da vida à conquista do poder de consumo e, a partir de então, tudo, inclusive a fé e a existência do Planeta, tem sua importância balizada pelas regras do mercado.
Vivemos na era da falta de utopia. Em qual ponto da evolução estaríamos sem as utopias que impulsionaram a nossa história, sem as grandes figuras que deram vazão aos sonhos ao invés de buscar aprovação do quase sempre equivocado senso comum? Qual a linha fina que separa a utopia do sonho e o sonho da realidade?
Se algumas utopias resultaram em desastres sociais com resultados catastróficos, foram também os sonhos utópicos que aqueceram a alma de nossos artistas e alavancaram o avanço, não só social e científico, mas também emocional, de inúmeras gerações.
“Eu tive um sonho”, foi através da fé de Martin Luther King em uma utopia
(chamemos os sonhos de difícil realização de utopias, pois assim eles sempre foram tratados), que os negros do Sul dos Estados Unidos conseguiram conquistar os direitos de igualdade que até então parecia impossível de serem concedidos. E como alimento de seu sonho Martin foi buscar as realizações utópicas de Ghandi, que por sua vez se inspirou em Thoureau, e por aí vai...
Não fosse pela utopia de transformar as fantasias de Júlio Verne em realidade e Santos Dumont jamais teria inventado o avião; Foi com a coragem utópica de Colombo que a construção de um novo mundo se tornou possível; Grande parte do pensamento filosófico e visão de mundo que temos hoje foi fundamentada nas utopias de Platão, Tomas More, Rousseau, Marx e tantas outras.
Sem a utopia que reinava na Florença renascentista, Michelangelo jamais teria esculpido a monumental estátua do também utópico Davi, essa sim uma maravilha do mundo moderno construída pelo homem, mas que ficou de fora da eleição das maravilhas contemporâneas, que na verdade é apenas um catálogo para os interessados em consumir turismo (o que é bem diferente de viajar), mas deixemos esse assunto de lado (fica para um próximo texto) e voltemos ao nosso “gelado mundo quente”.
Foram as utopias, e não a busca de riqueza e consumo, que sempre alimentaram as idéias dos grandes artistas do nosso planeta. De Camões à Niemeyer, de Van Gogh à Raul Seixas, a arte do nosso mundo foi sempre produzida à luz das utopias.
Tão distante de Cristo quanto de Nietzche, o homem contemporâneo isola-se com seus aparelhos. Cercado por laboratórios farmacêuticos, efeitos especiais, senhores da Guerra, tecnocratas neoliberais e sem ferramentas culturais e embasamento histórico com que possa defender-se, passa a colaborar, cada vez mais, com o sistema que o escraviza, elimina sua personalidade e congela sua essência.
Na ausência de uma utopia, que o distraia da morte inevitável para a qual caminha, passa a crer na ideologia de uma elite sem Deus e vê nas regras sociais de capital e consumo, o único sentido para a sua existência. Sem nada a dizer, a pensar e a ouvir busca nos aparelhos que o isolou, o conforto para o seu distanciamento da vida, relegando ao segundo plano qualquer ato que não alimente o seu desejo egoísta de realização aparente.
Cada vez mais difícil de tentar imaginar o mundo de John Lennon, cada vez mais presente a cegueira antevista por Saramago. Sem a utópica monarquia das abelhas ( adeus polinização!) e com cada vez menos flores brotando do impossível chão, a concretização do assassinato do Planeta talvez transforme nosso tempo na realização da mais terrível utopia: o Apocalipse.
* Publicado também nos jornais Página Dois ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=3555) e Brasileiros e Brasileiras(edição de agosto/2007)
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