Robério tinha pouco mais de cinqüenta anos de idade quando se deu o acontecido. Passaram-se mais de meses sem que a cidade falasse em outra coisa. Hoje, anos depois do fato ocorrido, sua estória é apenas um caso corriqueiro que apenas os bem idosos se lembram como digna de prosa.
Para falarmos do fato que tanto mexeu com a cabeça da cidade (cujo nome não revelarei, com o intuito de evitar dissabores e não tirar o privilégio do leitor de imaginar, visto que a imaginação é um dos maiores prazeres da leitura), é necessário tratarmos antes da vida do homem.
Robério viveu na tal cidade desde que nasceu. Bom menino, sempre se aplicou nos estudos e quando rapaz nunca foi de extravagâncias, prova disso é que após dois anos de relacionamento casou com Eugênia, sua primeira namorada. Quanto à profissão, nunca teve problemas em escolher: seu pai, o tenaz comerciante Álvaro Tostão era dono do “Empório Espartano” e Tostãozinho sabia desde tenra idade que seria o sucessor e prosseguidor dos feitos do valoroso pai. Portanto, a vida correu-lhe sempre de forma previsível, linear como um domingo chuvoso. Até que um dia, por volta de seus vinte e dois anos, ele descobriu a tal máquina.
Ninguém sabe explicar ao certo como foi. O que se sabe é que um belo dia (talvez não estivesse nem tão belo assim, mas sabe como é a mania do povo de adjetivar tudo), o, já então, dono do empório apareceu transbordando de alegria com a tal máquina. Passou o dia admirando o encantador objeto e mostrando aos amigos (sempre teve poucos) que apareceram por lá, fazendo questão de realçar suas qualidades e utilidades. Chegou a dizer que aquilo equivalia ao retorno de D.Sebastião. Em casa não falou de outra coisa com Eugênia e chamou o filho para apresentar-lhe o novo membro da família. Dizem as más línguas, que sua alegria naquele dia foi tanta a ponto dos gêmeos, David e Golias, terem sido gerados durante a noite, num espasmo de alegria que acordou três vizinhos e um galo.
Daí em diante a vida de Robério Tostão mudou. Como que hipnotizado, ele não largou mais a máquina um só minuto. Passava o dia inteiro cultuando-a, a ponto de negligenciar completamente os afazeres do empório e esquecer a família. Não foram poucas vezes em que foi surpreendido, nas primeiras horas do dia, ainda com a mesma roupa do dia anterior e vidrado na tal .
Quando os gêmeos nasceram, seis meses depois de gerados, ele recebeu a notícia sem tirar os olhos da dita cuja. E quando eles morreram, Golias viveu quatro dias e David seis, ele chorou abraçado na sua companheira extraconjugal. Eugênia, em um primeiro momento tentou trazer-lhe de volta pela razão. Esgotados os argumentos, partiu para a fé: fez promessas para todas as qualidades de Nossa Senhora, fez vigílias em templos evangélicos, consultou búzios e dois meses após um despacho nos trilhos do trem, decidiu pedir a separação. Não podia mais conviver com um homem que relegava a família a um segundo plano e vivia exclusivamente para a bendita máquina.
O marido aceitou de pronto a idéia e ainda colocou o empório à venda. Pediu à esposa que o deixasse morar na garagem, com a sua máquina, e dividiu o dinheiro do empório entre ela e os filhos. Eugênia aceitou servir-lhe duas refeições por dia, de modo que a parte dele na venda seria usada apenas para a conservação de sua relíquia.
Os anos passaram-se e Robério Tostão quase nunca foi visto longe de sua preciosidade. Quando Eugênia, monofóbica como tantas, casou com Charles (dizem por aí que os dois já andavam de caso quando ela ainda estava casada) e decidiu-se mudar para uma casa mais ampla e melhor localizada, ele não se moveu do seu refúgio.
Sua vida resumia-se a máquina. Era ela a emoção de seus prantos, a causa de seus risos, a fonte de suas preocupações, a razão de suas noites mal-dormidas. As crianças da vizinhança puseram-lhe o apelido de ”homem da máquina”, nome pelo qual certamente ouviam os pais se referir ao antigo dono do empório, e sempre que alguém o encontrava pela rua tratava de fazer algum comentário relativo ao alvo de sua adoração.
Foi na época do casamento de seu filho Juscelino que se deu o acontecido:
Robério não respondia mais aos amigos que lhe visitavam. Seus movimentos e reações eram sempre obedecendo aos comandos da máquina. Quem percebeu isso com mais astúcia foi Teodoro, amigo que morara muitos anos em Frankfurt, dizendo que a tal máquina havia absolvido totalmente a alma do pobre homem. Na época todos disseram que o “alemão” estava exagerando e que o comerciante apenas valorizava aquilo que conseguira adquirir como fruto de seu trabalho suado. Porém, as “rabugices” se concretizaram: só quem movimentava Tostãozinho era a máquina que ele julgava ser dono.
Foi nesse estado que o filho o deixou depois de entregar o convite de seu casamento. Pai e filho mal conversaram durante a visita. O pai totalmente submerso no mundo da máquina que naquele momento era o dele também e o filho tentando encontrar uma forma de se integrar ao “mundo-máquina”, apostando que assim poderiam se entender. Que nada! Juscelino saiu abatido, como se a sua raiz, a pessoa que lhe trouxe ao mundo nunca tivesse existido, como se a família Tostão fosse apenas um veículo para viabilizar a missão da máquina na Terra.
Dois meses depois, quando voltou à garagem, encontrou tudo como deixara. Exceto o pai. Abriu a porta e viu a máquina que jazia solitária no seu lugar de sempre. Em nenhum canto da tal garagem havia indícios da existência de seu progenitor. Quem entrasse ali naquele momento juraria que apenas a máquina vivera naquele lugar. Robério fora engolido, apagado de sua existência. Desaparecera para sempre e ninguém sabe como. O homem havia sucumbido aos delírios. Partiu de vez para o falso mundo prometido pela sua musa. O filho, perplexo, olhava para a Melpómene do seu criador, sem saber qual era o papel de quem naquela confusa trindade. Atônito, riu e chorou o destino dos Tostões.
Hoje em dia, nenhum membro da família Tostão reside na cidade. Juscelino emigrou, fazendo assim o caminho de volta do velho Álvaro. No endereço do empório existe uma franquia de lanchonete internacional e a casa, onde na tal garagem deu-se o misterioso sumiço, deu lugar a uma loja de departamentos.
Algumas entidades religiosas tentaram transformar o sumido em mártir, outros chegaram a psicografar mensagens com a sua assinatura e houve até vigílias para que o demônio que se apossou do desaparecido não tomasse conta do local. Estudantes levantaram teses e sociólogos escreveram artigos, à luz de teses que lhe garantissem notoriedade (muitos que pregaram o quão pernicioso era a relação do homem com a máquina, hoje a defendem sob o argumento de que os tempos são outros).
Se o homem ainda é lembrado deve-se a máquina. Quem for a tal localidade, constatará que a tal, hoje popularizada, exerce o mesmo fascínio em quase todos os moradores e o acontecido com a família Tostão é, quando muito, um assunto pueril.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
CANTO
Sexta-feira, manhã de sol, mês de novembro. Nos jardins da praia, um pássaro canta nas imediações do canal 3. Seu som é alto, não é preciso dinheiro para ouvi-lo cantar. Pode ser ouvido da avenida. Os carros, sempre imersos em seus CD Players e atormentados pelo trânsito infernal, permanecem indiferentes, mas os transeuntes demonstram interesse em conhecer o autor do surpreendente assobio.
O pássaro está em pé na areia. Tem o peito nu, a barba por fazer, o dorso bronzeado e as calças frouxas revelam os pêlos pubianos. Um homem cordial tentando restituir à natureza a alegria subtraída pela humanidade. Não dará autógrafos nem será assediado. Sua música é orgânica, contemplativa. Sua sensualidade não é fabricada por publicitários. Seu desleixo é rude, não arquitetado.
Rapidamente, o canto multiplica-se. Outros, atraídos pelo som do irmão solitário, respondem-lhe alegres e solidários. A resposta não vem da areia, nem do mar, tampouco das árvores do jardim. Vem do outro lado da avenida. De um prédio em construção. Um ninho de joões-de-barro, ou joões-de-cimento (construtores da moradia alheia), que se não prenunciam bons tempos com seus cantos ao menos nos trazem à lembrança um tempo onde as manhãs eram animadas pelos pássaros.
É um espetáculo alegre e harmônico. Da areia, o flaneur inicia o canto que encontra eco na obra. Cada qual do seu posto, um por vez, os pássaros em serviço respondem ao contato do maestro. A princípio alguns e em instantes dezenas de outros cantos são construídos paralelo ao prédio. Quando cessam, o nosso Orfeu, na areia, entoa um novo número que, como numa torcida organizada, rapidamente se propaga. Um instante fugaz de espontaneidade. Uma breve vitória da Santos sobre a $anto$, do Brasil sobre o Bra$il.
Os cantores seguem até saciarem-se. Não há jornalistas no local. A apresentação não estará nos informativos regionais, muito mais interessados em divulgar a violência e polarizar eleições do que procurar a ternura que não está perdida. O canto é deles para eles. Solidários na exclusão, na alegria e na autenticidade. A voz da massa.
Dois turistas estrangeiros divertem-se com o show. As árvores que aqui gorjeiam em nada se parecem com as de lá. Não há flashs. O espetáculo não cabe nas lentes. Os bebês que passeiam pelos jardins com avós, mães, pais e babás entram em contato com mais um canto da natureza. Ficará no subconsciente. Até quando haverá pássaros para embelezar suas manhãs?
O canário embriagado pára o canto, Baudelaire iletrado, com seus paraísos artificiais, segue cambaleante pela areia para juntar-se ao bando e deitar-se nos bancos próximos à Concha Acústica (vista como mau agouro pelos moradores dos prédios vizinhos na ocasião de sua inauguração).
Os joões-de-barro também cessam. Precisam dedicar-se à construção dos lares que nunca serão deles. Talvez tenham até sido repreendidos pelo chefe por causa da “bagunça”. Os olhos embotados de cimento e lágrimas seguem a construção cuja porta está voltada para o leste. Não tardará o dia que o alegre ninho dará lugar a um prédio cínico e silencioso na sua aparência embora cheio de alegrias, inseguranças e angústias represadas em seu interior. Imagem e semelhança de seus futuros moradores. Representante fiel de sua vizinhança.
Ao fim da tarde, nosso Ulisses ainda flanava pela cidade. Não mais cantava, falava sozinho e comia um pão despedaçado, como convém aos pássaros. Indiferente ao mundo indiferente, dirigia-se aos bares da Pompéia para molhar o bico com água que dizem que passarinhos não bebem. E, cantarolando um samba qualquer, seguiu sua odisséia. De homem e pássaro. De deus e espermatozóide.
* Publicado também no jornal "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4341)
O pássaro está em pé na areia. Tem o peito nu, a barba por fazer, o dorso bronzeado e as calças frouxas revelam os pêlos pubianos. Um homem cordial tentando restituir à natureza a alegria subtraída pela humanidade. Não dará autógrafos nem será assediado. Sua música é orgânica, contemplativa. Sua sensualidade não é fabricada por publicitários. Seu desleixo é rude, não arquitetado.
Rapidamente, o canto multiplica-se. Outros, atraídos pelo som do irmão solitário, respondem-lhe alegres e solidários. A resposta não vem da areia, nem do mar, tampouco das árvores do jardim. Vem do outro lado da avenida. De um prédio em construção. Um ninho de joões-de-barro, ou joões-de-cimento (construtores da moradia alheia), que se não prenunciam bons tempos com seus cantos ao menos nos trazem à lembrança um tempo onde as manhãs eram animadas pelos pássaros.
É um espetáculo alegre e harmônico. Da areia, o flaneur inicia o canto que encontra eco na obra. Cada qual do seu posto, um por vez, os pássaros em serviço respondem ao contato do maestro. A princípio alguns e em instantes dezenas de outros cantos são construídos paralelo ao prédio. Quando cessam, o nosso Orfeu, na areia, entoa um novo número que, como numa torcida organizada, rapidamente se propaga. Um instante fugaz de espontaneidade. Uma breve vitória da Santos sobre a $anto$, do Brasil sobre o Bra$il.
Os cantores seguem até saciarem-se. Não há jornalistas no local. A apresentação não estará nos informativos regionais, muito mais interessados em divulgar a violência e polarizar eleições do que procurar a ternura que não está perdida. O canto é deles para eles. Solidários na exclusão, na alegria e na autenticidade. A voz da massa.
Dois turistas estrangeiros divertem-se com o show. As árvores que aqui gorjeiam em nada se parecem com as de lá. Não há flashs. O espetáculo não cabe nas lentes. Os bebês que passeiam pelos jardins com avós, mães, pais e babás entram em contato com mais um canto da natureza. Ficará no subconsciente. Até quando haverá pássaros para embelezar suas manhãs?
O canário embriagado pára o canto, Baudelaire iletrado, com seus paraísos artificiais, segue cambaleante pela areia para juntar-se ao bando e deitar-se nos bancos próximos à Concha Acústica (vista como mau agouro pelos moradores dos prédios vizinhos na ocasião de sua inauguração).
Os joões-de-barro também cessam. Precisam dedicar-se à construção dos lares que nunca serão deles. Talvez tenham até sido repreendidos pelo chefe por causa da “bagunça”. Os olhos embotados de cimento e lágrimas seguem a construção cuja porta está voltada para o leste. Não tardará o dia que o alegre ninho dará lugar a um prédio cínico e silencioso na sua aparência embora cheio de alegrias, inseguranças e angústias represadas em seu interior. Imagem e semelhança de seus futuros moradores. Representante fiel de sua vizinhança.
Ao fim da tarde, nosso Ulisses ainda flanava pela cidade. Não mais cantava, falava sozinho e comia um pão despedaçado, como convém aos pássaros. Indiferente ao mundo indiferente, dirigia-se aos bares da Pompéia para molhar o bico com água que dizem que passarinhos não bebem. E, cantarolando um samba qualquer, seguiu sua odisséia. De homem e pássaro. De deus e espermatozóide.
* Publicado também no jornal "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4341)
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
POETIZANDO (DEZEMBRO/07)
A edição de verão da revista literária POETIZANDO nº. 27, terá seu lançamento no dia 14 de dezembro de 2007, das 20 às 22 horas, com sarau poético aberto ao público, na sede da Aliança Francesa de Santos.
A revista POETIZANDO é editada pelos poetas santistas Eunice Mendes e Walmor Colmenero e apresenta poemas, contos, crônicas, biografias, lendas, letras, folclore, etc. Entre outros nomes da literatura universal, figuram nesta edição: Fernando Pessoa, Euclides da Cunha, Victor Hugo, Catulle Mendés, Quevedo, Oscar Wilde, Marquesa D'Alorna, Júlio Herrera Y Reissig, Antero de Quental, Lima Barreto, Luciano de Samosata, etc. A seção dos autores contemporâneos apresenta: Carlos Cassel, Madô Martins, Anderson Braga Horta, Sérgio Bernardo, Nina Rodrigues, Glauco Mattoso, Cleberton Santos, Benilson Toniolo, Marcelo Lopes, Rogério Salgado, Leandro Rodrigues, etc. No sarau serão lançadas também as folhas poéticas O POETA e A POETISA e haverá sorteio de kits com material literário. A entrada é franca.
A Aliança Francesa fica na Rua Rio Grande do Norte 98 – Pompéia – Santos/SP – Fone: 3237-2403
Maiores informações:
http://www.revistapoetizando.blogspot.com/
Aproveito a ocasião para relançar o texto METAMORFOSES, de minha autoria, que estará na edição de dezembro da Poetizando.
Um humilde aperitivo.
A revista POETIZANDO é editada pelos poetas santistas Eunice Mendes e Walmor Colmenero e apresenta poemas, contos, crônicas, biografias, lendas, letras, folclore, etc. Entre outros nomes da literatura universal, figuram nesta edição: Fernando Pessoa, Euclides da Cunha, Victor Hugo, Catulle Mendés, Quevedo, Oscar Wilde, Marquesa D'Alorna, Júlio Herrera Y Reissig, Antero de Quental, Lima Barreto, Luciano de Samosata, etc. A seção dos autores contemporâneos apresenta: Carlos Cassel, Madô Martins, Anderson Braga Horta, Sérgio Bernardo, Nina Rodrigues, Glauco Mattoso, Cleberton Santos, Benilson Toniolo, Marcelo Lopes, Rogério Salgado, Leandro Rodrigues, etc. No sarau serão lançadas também as folhas poéticas O POETA e A POETISA e haverá sorteio de kits com material literário. A entrada é franca.
A Aliança Francesa fica na Rua Rio Grande do Norte 98 – Pompéia – Santos/SP – Fone: 3237-2403
Maiores informações:
http://www.revistapoetizando.blogspot.com/
Aproveito a ocasião para relançar o texto METAMORFOSES, de minha autoria, que estará na edição de dezembro da Poetizando.
Um humilde aperitivo.
METAMORFOSES
Semi analfabeto em país de analfabetos vira professor;
Curioso em país de ignorantes vira doutor;
Bandido em país de criminosos ganha cem anos de perdão;
Política no país dos mensalões vira profissão;
Vendedora no país do consumo vira rainha;
Drogas em país sem lei é farinha;
Travesti no país da mentira vira mulher;
Espoliação em país sem governo vira imposto;
Emprego no país da informalidade vira exploração;
Favela no país do turismo sexual vira ponto turístico;
Assentamento no país do latifúndio vira invasão;
Alimentação em país de esfomeados vira plano de governo;
Esporte no país do despreparo vira comércio;
Violência no país da injustiça vira espetáculo;
Teatro no país das concessões vira shopping center;
Seção de senado em país de espectadores vira programa de auditório;
Jornalismo no país da alienação vira fuxico;
Malha ferroviária no país das transportadoras vira sucata;
Música em país sem harmonia vira batuque;
Impunidade no país do jeitinho vira imunidade;
Habitação no país dos sem teto vira sonho;
Lixo no país do desperdício vira comida;
Cesta básica em país de desempregados vira prêmio;
Férias anuais no país das terceirizações viram privilegio;
Rio em país de merda vira esgoto;
Quer mais? Leia os jornais...
Curioso em país de ignorantes vira doutor;
Bandido em país de criminosos ganha cem anos de perdão;
Política no país dos mensalões vira profissão;
Vendedora no país do consumo vira rainha;
Drogas em país sem lei é farinha;
Travesti no país da mentira vira mulher;
Espoliação em país sem governo vira imposto;
Emprego no país da informalidade vira exploração;
Favela no país do turismo sexual vira ponto turístico;
Assentamento no país do latifúndio vira invasão;
Alimentação em país de esfomeados vira plano de governo;
Esporte no país do despreparo vira comércio;
Violência no país da injustiça vira espetáculo;
Teatro no país das concessões vira shopping center;
Seção de senado em país de espectadores vira programa de auditório;
Jornalismo no país da alienação vira fuxico;
Malha ferroviária no país das transportadoras vira sucata;
Música em país sem harmonia vira batuque;
Impunidade no país do jeitinho vira imunidade;
Habitação no país dos sem teto vira sonho;
Lixo no país do desperdício vira comida;
Cesta básica em país de desempregados vira prêmio;
Férias anuais no país das terceirizações viram privilegio;
Rio em país de merda vira esgoto;
Quer mais? Leia os jornais...
terça-feira, 6 de novembro de 2007
IDADE MÍDIA
“A mídia é o nosso aiatolá.”
A frase de Raul Seixas, presente no seu derradeiro álbum “A panela do Diabo”, define as relações de comunicação no nosso planeta. O mesmo poder divino creditado ao aiatolá, é dado aos meios de comunicação. São eles que decidem as músicas que serão apreciadas, os escritores que merecerão crédito, os artistas que terão o talento (ou a falta dele) reconhecido e qual parcela da população terá acesso a determinada informação.
A mídia “pensa” pela massa. Armados de microfones e câmeras, os cavaleiros televisivos decretam o que é bom e o que é ruim. Nas revistas e jornais, escrevem verdadeiras doutrinas de pensamento que levam o leitor não ao raciocínio, mas a aceitação da verdade fabricada.
Ou seja, se seguirmos uma linha de raciocínio próxima de Proudhon, constataremos que a mídia assassina os indivíduos que compõem a massa. Rouba-lhes o raciocínio, a liberdade de escolha e o senso de crítica e monopoliza os meios de informação e cultura ao sabor de seus próprios interesses. Aonde interessa o racismo, ela prega o apartheid; aonde interessa o corporativismo, ela prega a adaptação às mudanças; aonde interessa vender segurança, ela propaga a violência; e por aí vai.
Como definiu meu conterrâneo Plínio Marcos: “A cultura nas mãos dos poderosos constrangemais dos que as armas”. E a mídia é a bomba atômica do imperialismo. É através de suas verdades inventadas, de seus supérfluos vendidos como indispensáveis e da indução de ambições, que eles moldam os interesses da população aos interesses das corporações.
E é neste feudo que vivemos. Totalmente manuseados pelos dogmas e doutrinas de meios que visam perpetuar a servidão, insuflando o sonho da ascensão.
Porém, como sempre há uma brecha e é através dela que os cavalos atravessam as muralhas, a globalização corporativista também tem seu calcanhar: chama-se internet.
Se a invenção da imprensa no século XV gerou uma série de reavaliações, inclusive religiosa, devido ao maior número de pessoas que teria acesso à documentos e escritos, a anarquia (no bom sentido) de informações promovida pela internet pode alcançar os mesmos efeitos.
A vinte (talvez até dez) anos atrás, seria impensável para qualquer profissional, principalmente da área artística, lançar sua obra com um relativo alcance se estivesse fora da “panela midiática”. Hoje a coisa é diferente. Com seus blogs e sites, sua comunicação em rede, sua escala mundial, a internet é a democratização da informação. Escritores que não fazem o jogo das editoras conseguem publicar suas obras on line, músicos que não têm acesso aos esquemas das gravadoras podem lançar suas músicas sem interferências e atravessadores. O banda inglesa Radiohead gostou tanto da fórmula que decidiu lançar seu novo trabalho “In Rainbows” só pela internet (o interessado entra no site da banda e faz o download das músicas pelo preço que quiser; inclusive de graça, se assim quiser).
Novo Renascimento? Talvez. As mudanças causadas pela democratização de idéias e talentos promovida pela web já podem ser vistas a "olho nu". Provavelmente, ela será o mecenas que viabilizará as criações dos novos Dantes, Maquiavels e Michelângelos. A diversidade de textos e pontos de vista torna a internet uma fonte de informação e estudo, por vezes, muito mais eficaz que as cadeiras das univer$idade$ particulares. “O diploma universitário seria mais honesto se fosse vendido em papelaria.” (Paulo César Peréio).
O quarto poder está em xeque. Os meios de informação não podem mais serem controlados, as notícias não têm mais como serem negociadas. Qualquer pessoa com acesso à rede pode ler desde grandes obras da literatura até blogs independentes de autores não conhecidos. O acesso à cultura e à informação está democratizado. Quanto a separar o joio do trigo, cabe ao nosso sistema educacional preocupar-se menos com lucros e mais com ensino e mostrar aos nossos jovens que ser internauta é muito mais que acessar “chats” e exibir “fotinhas” com a “galerinha”.
O mundo mudou e muda a cada dia. Se a revolução causada pela internet apenas transformará o excesso de informação em um ruído ensurdecedor incapaz de transmitir algum tipo de mensagem ou será realmente uma renascença de idéias que proporcionará uma reavaliação comportamental, caberá a nós decidirmos o caminho. De qualquer forma, o monopólio da imprensa sobre a opinião pública está com os dias contados.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”
* Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4182)
A frase de Raul Seixas, presente no seu derradeiro álbum “A panela do Diabo”, define as relações de comunicação no nosso planeta. O mesmo poder divino creditado ao aiatolá, é dado aos meios de comunicação. São eles que decidem as músicas que serão apreciadas, os escritores que merecerão crédito, os artistas que terão o talento (ou a falta dele) reconhecido e qual parcela da população terá acesso a determinada informação.
A mídia “pensa” pela massa. Armados de microfones e câmeras, os cavaleiros televisivos decretam o que é bom e o que é ruim. Nas revistas e jornais, escrevem verdadeiras doutrinas de pensamento que levam o leitor não ao raciocínio, mas a aceitação da verdade fabricada.
Ou seja, se seguirmos uma linha de raciocínio próxima de Proudhon, constataremos que a mídia assassina os indivíduos que compõem a massa. Rouba-lhes o raciocínio, a liberdade de escolha e o senso de crítica e monopoliza os meios de informação e cultura ao sabor de seus próprios interesses. Aonde interessa o racismo, ela prega o apartheid; aonde interessa o corporativismo, ela prega a adaptação às mudanças; aonde interessa vender segurança, ela propaga a violência; e por aí vai.
Como definiu meu conterrâneo Plínio Marcos: “A cultura nas mãos dos poderosos constrangemais dos que as armas”. E a mídia é a bomba atômica do imperialismo. É através de suas verdades inventadas, de seus supérfluos vendidos como indispensáveis e da indução de ambições, que eles moldam os interesses da população aos interesses das corporações.
E é neste feudo que vivemos. Totalmente manuseados pelos dogmas e doutrinas de meios que visam perpetuar a servidão, insuflando o sonho da ascensão.
Porém, como sempre há uma brecha e é através dela que os cavalos atravessam as muralhas, a globalização corporativista também tem seu calcanhar: chama-se internet.
Se a invenção da imprensa no século XV gerou uma série de reavaliações, inclusive religiosa, devido ao maior número de pessoas que teria acesso à documentos e escritos, a anarquia (no bom sentido) de informações promovida pela internet pode alcançar os mesmos efeitos.
A vinte (talvez até dez) anos atrás, seria impensável para qualquer profissional, principalmente da área artística, lançar sua obra com um relativo alcance se estivesse fora da “panela midiática”. Hoje a coisa é diferente. Com seus blogs e sites, sua comunicação em rede, sua escala mundial, a internet é a democratização da informação. Escritores que não fazem o jogo das editoras conseguem publicar suas obras on line, músicos que não têm acesso aos esquemas das gravadoras podem lançar suas músicas sem interferências e atravessadores. O banda inglesa Radiohead gostou tanto da fórmula que decidiu lançar seu novo trabalho “In Rainbows” só pela internet (o interessado entra no site da banda e faz o download das músicas pelo preço que quiser; inclusive de graça, se assim quiser).
Novo Renascimento? Talvez. As mudanças causadas pela democratização de idéias e talentos promovida pela web já podem ser vistas a "olho nu". Provavelmente, ela será o mecenas que viabilizará as criações dos novos Dantes, Maquiavels e Michelângelos. A diversidade de textos e pontos de vista torna a internet uma fonte de informação e estudo, por vezes, muito mais eficaz que as cadeiras das univer$idade$ particulares. “O diploma universitário seria mais honesto se fosse vendido em papelaria.” (Paulo César Peréio).
O quarto poder está em xeque. Os meios de informação não podem mais serem controlados, as notícias não têm mais como serem negociadas. Qualquer pessoa com acesso à rede pode ler desde grandes obras da literatura até blogs independentes de autores não conhecidos. O acesso à cultura e à informação está democratizado. Quanto a separar o joio do trigo, cabe ao nosso sistema educacional preocupar-se menos com lucros e mais com ensino e mostrar aos nossos jovens que ser internauta é muito mais que acessar “chats” e exibir “fotinhas” com a “galerinha”.
O mundo mudou e muda a cada dia. Se a revolução causada pela internet apenas transformará o excesso de informação em um ruído ensurdecedor incapaz de transmitir algum tipo de mensagem ou será realmente uma renascença de idéias que proporcionará uma reavaliação comportamental, caberá a nós decidirmos o caminho. De qualquer forma, o monopólio da imprensa sobre a opinião pública está com os dias contados.
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”
* Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4182)
O ÚLTIMO OUTSIDER
Uma verdadeira aula de humanidade e resistencia. Assim eu defino a entrevista do médico Patch Adams (aquele mesmo que foi estereotipado por Hollywood) exibida ontem (05.11.07) no programa Roda Viva da Tv Cultura.
Sem nenhum vínculo com a hipocrisia reinante, por alguns chamada de atitude politicamente correta, o Dr. Adams não fez questão nenhuma de esconder sua repugnância pelo sistema capitalista, pelos laboratórios farmacêuticos e pelo "American way'. Faltou apenas alguma pergunta sobre o sistema de saúde cubana. Infelizmente nenhum jornalista perguntou sobre, ou se perguntou foi cortado pela edição, e nós imaginamos o porquê.
Algumas idéias transmitidas na entrevista foram:
- "90% da população não pensam uma vez sequer durante os 365 dias do ano.";
- " Tenho vergonha de ser americano. Os E.U.A. é um país terrorista.";
- " Todo pensamento é positivo. Negativo é não pensar.";
- "A industria farmacêutica está comprando a Amazônia e vocês estão deixando.";
- "Enquanto as pessoas pensarem que qualidade de vida é ter uma casa confortável e um carro de último tipo, o mundo não terá salvação.";
- "O sistema capitalista levará nossa espécie à extinção.";
Vale a pena ressaltar que as frases acima não foram proferidas por nenhum "jovem inexperiente que não sabe como a vida funciona" ou por algum "excluído que por despeito critica o sistema"; elas saíram da boca de um homem com mais de setenta anos de idade, médico reconhecido internacionalmente e residente nos E.U.A., embora se envergonhe de ter nascido lá.
Parabéns ao Dr.Patch Adams. Não sei se o último, mas o outsider mais ativo da atualidade.
Sem nenhum vínculo com a hipocrisia reinante, por alguns chamada de atitude politicamente correta, o Dr. Adams não fez questão nenhuma de esconder sua repugnância pelo sistema capitalista, pelos laboratórios farmacêuticos e pelo "American way'. Faltou apenas alguma pergunta sobre o sistema de saúde cubana. Infelizmente nenhum jornalista perguntou sobre, ou se perguntou foi cortado pela edição, e nós imaginamos o porquê.
Algumas idéias transmitidas na entrevista foram:
- "90% da população não pensam uma vez sequer durante os 365 dias do ano.";
- " Tenho vergonha de ser americano. Os E.U.A. é um país terrorista.";
- " Todo pensamento é positivo. Negativo é não pensar.";
- "A industria farmacêutica está comprando a Amazônia e vocês estão deixando.";
- "Enquanto as pessoas pensarem que qualidade de vida é ter uma casa confortável e um carro de último tipo, o mundo não terá salvação.";
- "O sistema capitalista levará nossa espécie à extinção.";
Vale a pena ressaltar que as frases acima não foram proferidas por nenhum "jovem inexperiente que não sabe como a vida funciona" ou por algum "excluído que por despeito critica o sistema"; elas saíram da boca de um homem com mais de setenta anos de idade, médico reconhecido internacionalmente e residente nos E.U.A., embora se envergonhe de ter nascido lá.
Parabéns ao Dr.Patch Adams. Não sei se o último, mas o outsider mais ativo da atualidade.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
COMENTÁRIOS
Indico aos leitores interessados nos dois textos abaixo ("CHECK UP" e "LIBERTAS QUAE SERA TAMEN") que leiam também os comentários. Eles complementam o texto.
Não, que os comentários estejam de acordo com a visão do autor (eu) do texto, mas servem como complemento por mostrarem diferentes sentimentos em relação aos temas. E, na minha opinião, são todos bem feitos e de grande força argumentativa. EU RECOMENDO.
Portanto leiam os textos, leiam os comentários e comentem. Afinal, comentar, pelo menos aqui, não é pecado.
Não, que os comentários estejam de acordo com a visão do autor (eu) do texto, mas servem como complemento por mostrarem diferentes sentimentos em relação aos temas. E, na minha opinião, são todos bem feitos e de grande força argumentativa. EU RECOMENDO.
Portanto leiam os textos, leiam os comentários e comentem. Afinal, comentar, pelo menos aqui, não é pecado.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
CHECK UP
Mais um edifício entulha a paisagem. A cada dia um novo andar, um novo plano, um novo financiamento. Adeus cheiro de grama , adeus árvores, adeus casas baixas e conversas no portão. Adeus paisagem na janela.
Os pedreiros correm. A construtora tem pressa, os novos proprietários têm pressa. Quadras, saunas, academias, cinemas, portões, sistema de monitoramento e shoppings. Segurança total. Muros altos cercarão o condomínio. Bem vindos à nova Idade Média.
Lembro-me de Lennon e sua imaginação: “é fácil, se você tentar.”. Se tentarmos, jovem John, não teremos dificuldades em construir um mundo justo. Um mundo sem portões e sem medo. Porém eu me pergunto: e quando esse mundo estiver construído, quem limpará os chãos da Europa? Quem se equilibrará nos andaimes para construir arranha-céus? Quem limpará a imundice dos banheiros públicos? Quem aumentará a porcentagem de desempregados (de fundamental importância para que os empregados se submetam às explorações para não perder o disputado emprego)? Não basta imaginar, meu poeta. Será preciso uma reforma de ideais.
Talvez Marcuse estivesse com a razão. Talvez a redenção venha dos “outsiders”, dos renegados, dos países periféricos do terceiro mundo. Mas, olhemos o nosso País:
Onde estão os “outsiders”? O que vemos é uma correria rumo ao sistema. Quem está dentro não sai de jeito nenhum e quem está fora quer entrar de qualquer jeito, mesmo que para isso seja necessário matar, morrer ou emigrar. Mesmo que seja necessário colaborar com o sistema imbecilizante. Mesmo que vencer signifique perder. Não Marcuse, não há mais lugar para os “outsiders”, eles são figuras do passado. Maio de 1968 está longe demais. Hoje quem sai às ruas, sai para reclamar sua fatia no bolo do consumo. O sonho de explorar faz com que se aceite a exploração. Como constatou Nabuco de Araújo, o senhor está no escravo e o escravo está no senhor.
Ray Simith (Kerouac) e Japhy Rider distantes da civilização e sem vontade de voltar. ”Enfiem o progresso no rabo”. Vagabundos iluminados. “Toda montanha é um Buda”. Milhares de rapazes latino-americanos, com dinheiro no banco, vivem ilegalmente nos Estados Unidos da América. Sonham com o green card, com o american way. Enquanto no Brasil, o delírio é o regime. A mídia atordoante prega o conformismo, a adaptação às mudanças do mundo corporativista. Filhos sucedem pais nas artes, nas administrações, na política e na miséria. Nada de novo no front.
O sonho cubano está embargado. O negócio é consumir bugigangas da China, usar nossos eletrodomésticos à exaustão, engarrafarmo-nos em congestionamentos, nos entupir com as químicas dos laboratórios e enlouquecer em academias e shoppings. E foda-se o Planeta! Fodam-se os escravos! A luta pelo conforto é a busca do ócio legitimado.
Não há mais espaço para a grande recusa. Adeus Guevara. Adeus Francisco de Assis. A cada esquina um novo edifício aumenta um andar. Em cada lar o sonho de consumo corrói um cérebro indefeso. A cada dia a vida se esvai. A cada hora a máquina aumenta suas cifras, seu poder de destruição e sedução. A cada minuto uma nova armadilha. Uma nova guerra, um novo medo, um novo vício.
Pois saibam que ainda estão rolando os dados. A palavra cantada de Paulo Tatit dissemina a sensibilidade nos corações férteis e Carlinhos Brown nos mostra que ainda não sonhamos e que tudo recomeça. Quem sabe, os jovens, sem clubes e sem esquinas, acordem de um sonho estranho e os pedreiros sigam o conselho de Rubem Braga trocando as obras e o parco salário por dias inteiros de jogo de petecas nas praias. E dos corações atarantados poderá ressurgir o amor; dos cérebros anestesiados, as grandes idéias; do ócio, a criação e dos sonhos destroçados se fará a utopia.
"You may say I’m a dreamer but I’m not the only one... "
* Publicado também no jornal "Página Dois" (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4146) e no site "Templo XV" (http://temploxv.pro.br/obraxv.aspx?idObra=339&Entidade=4&idAutor=6901).
Os pedreiros correm. A construtora tem pressa, os novos proprietários têm pressa. Quadras, saunas, academias, cinemas, portões, sistema de monitoramento e shoppings. Segurança total. Muros altos cercarão o condomínio. Bem vindos à nova Idade Média.
Lembro-me de Lennon e sua imaginação: “é fácil, se você tentar.”. Se tentarmos, jovem John, não teremos dificuldades em construir um mundo justo. Um mundo sem portões e sem medo. Porém eu me pergunto: e quando esse mundo estiver construído, quem limpará os chãos da Europa? Quem se equilibrará nos andaimes para construir arranha-céus? Quem limpará a imundice dos banheiros públicos? Quem aumentará a porcentagem de desempregados (de fundamental importância para que os empregados se submetam às explorações para não perder o disputado emprego)? Não basta imaginar, meu poeta. Será preciso uma reforma de ideais.
Talvez Marcuse estivesse com a razão. Talvez a redenção venha dos “outsiders”, dos renegados, dos países periféricos do terceiro mundo. Mas, olhemos o nosso País:
Onde estão os “outsiders”? O que vemos é uma correria rumo ao sistema. Quem está dentro não sai de jeito nenhum e quem está fora quer entrar de qualquer jeito, mesmo que para isso seja necessário matar, morrer ou emigrar. Mesmo que seja necessário colaborar com o sistema imbecilizante. Mesmo que vencer signifique perder. Não Marcuse, não há mais lugar para os “outsiders”, eles são figuras do passado. Maio de 1968 está longe demais. Hoje quem sai às ruas, sai para reclamar sua fatia no bolo do consumo. O sonho de explorar faz com que se aceite a exploração. Como constatou Nabuco de Araújo, o senhor está no escravo e o escravo está no senhor.
Ray Simith (Kerouac) e Japhy Rider distantes da civilização e sem vontade de voltar. ”Enfiem o progresso no rabo”. Vagabundos iluminados. “Toda montanha é um Buda”. Milhares de rapazes latino-americanos, com dinheiro no banco, vivem ilegalmente nos Estados Unidos da América. Sonham com o green card, com o american way. Enquanto no Brasil, o delírio é o regime. A mídia atordoante prega o conformismo, a adaptação às mudanças do mundo corporativista. Filhos sucedem pais nas artes, nas administrações, na política e na miséria. Nada de novo no front.
O sonho cubano está embargado. O negócio é consumir bugigangas da China, usar nossos eletrodomésticos à exaustão, engarrafarmo-nos em congestionamentos, nos entupir com as químicas dos laboratórios e enlouquecer em academias e shoppings. E foda-se o Planeta! Fodam-se os escravos! A luta pelo conforto é a busca do ócio legitimado.
Não há mais espaço para a grande recusa. Adeus Guevara. Adeus Francisco de Assis. A cada esquina um novo edifício aumenta um andar. Em cada lar o sonho de consumo corrói um cérebro indefeso. A cada dia a vida se esvai. A cada hora a máquina aumenta suas cifras, seu poder de destruição e sedução. A cada minuto uma nova armadilha. Uma nova guerra, um novo medo, um novo vício.
Pois saibam que ainda estão rolando os dados. A palavra cantada de Paulo Tatit dissemina a sensibilidade nos corações férteis e Carlinhos Brown nos mostra que ainda não sonhamos e que tudo recomeça. Quem sabe, os jovens, sem clubes e sem esquinas, acordem de um sonho estranho e os pedreiros sigam o conselho de Rubem Braga trocando as obras e o parco salário por dias inteiros de jogo de petecas nas praias. E dos corações atarantados poderá ressurgir o amor; dos cérebros anestesiados, as grandes idéias; do ócio, a criação e dos sonhos destroçados se fará a utopia.
"You may say I’m a dreamer but I’m not the only one... "
* Publicado também no jornal "Página Dois" (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4146) e no site "Templo XV" (http://temploxv.pro.br/obraxv.aspx?idObra=339&Entidade=4&idAutor=6901).
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
LIBERTAS QUAE SERA TAMEN
Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós!
Onde está a tão sonhada liberdade? Não a liberdade, sem pão e sem poesia, prometida pelos liberais capitalistas nem a liberdade cara-de-pau do rapaz que, acorrentado ao estigma de bad boy, gritava: "I’m free to do what I want...” e muito menos aquela que alguns viram raiar no horizonte do Brasil.
A pergunta é: Onde está a liberdade do ser - humano de ser humano? A liberdade das contradições e enganos. A liberdade de viver.
Vivemos no mundo-máquina do homem de negócios, do homem-negócio, do ser-produto. Cada um com seus rótulos e problemas. Perseguindo títulos para aprisionarmo-nos neles. E ali vivermos, falsificados e tranqüilos.
“O ser – humano está condenado à liberdade.” Engano seu, Sartre. O ser – humano condenou a liberdade. Ela está fora do nosso cardápio. Nascemos e crescemos procurando uma embalagem que nos acalente, que nos dê uma identidade, um grupo, um gueto. Um rótulo que pense por nós.
E nessa selva de clichês, nesse emaranhado de pensamentos pré-concebidos e raciocínios fabricados é que nos reproduzimos. Assim perpetuamos o nosso vazio existencial, transmitimos o legado de nossa miséria, a nossa aglomerada solidão, é verdade Tom Zé, ou o nosso defeito de fabricação.
Não, não queremos a liberdade, Bilac. Queremos que as asas dela fiquem bem distantes de nós. O que buscamos é espaço no mercado. Queremos nos vender. Queremos uma prateleira que nos aceite e que nos qualifique. Somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida.
Queremos rotular e sermos rotulados. Morrer de tédio e vício. Assim nos mataremos. “A liberdade é a lei humana”, sentenciou Victor Hugo. É uma pena, pensador, estamos cumprindo pena. Perdemos a lei e estamos em leilão. Somos produtos no mercado. No mercado de trabalho, no mercado de consumo, no mercado do sexo.
Nossa única necessidade é consumir o mercado que nos consome. Adeus fogo. Adeus poetas. São demais os perigos desta vida para quem tem paixão. Descartes cartesianos. Nunca mais o humano, apenas o super-homem, a super-máquina. O politicamente correto.
Tempo de homens partidos. De futebolistas robôs. De workaholics. De música eletrônica. De namoros virtuais. De substantivos subtraídos. Nosso mundo é o dos adjetivos. Das propagandas. Dos meios-mensagens.
Tempos modernos de Carlitos mecanizados e vencedores perdidos. Tempo do homem morto, da ternura perdida. Andy Warhol triunfa. Em cada esquina uma pop star estilizada busca seus quinze minutos. Tempo de formigas disfarçadas de cigarras.
Tempo de choro e ranger de dentes. De estereótipos e arquétipos. De signos e números. Tempo de solidão. Tempo de prisões e propriedades. Tempo de cobiça. De tropas e elites. Tempo, tempo, tempo, tempo...
Lutemos pelo planeta. O mundo vai acabar. Não, o mundo não acabará. O ser – humano é que irá desaparecer. Ou já desapareceu. Ou ainda não floresceu.
Liberdade, Liberdade. Paulo Autran viverá para sempre. “A canção está morta” (Chico). Não é bem assim, meu caro Buarque. As canções serão eternas nos corações resistentes dos homens cordiais.
Libertemo-nos! Liberdade ainda que tardia. Descubramos nossa missão. O tempo é curto. Na Oficina há uma vela. Ouçamos o som do sim. Somos os únicos seres capazes de comoção. Tira, põe, deixa ficar...
Humanizemos nossas vidas. Enxerguemos o mundo. Os mundos no mundo. Cultivemos nossas contradições e metamorfoses, nossas diferenças. Sem rótulos. Sem raças. Sem religiões. Sem profissões e sem classes. Sem governos e sem fronteiras. Somente o ser, o humano. O demasiado humano.
* Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4109)
Onde está a tão sonhada liberdade? Não a liberdade, sem pão e sem poesia, prometida pelos liberais capitalistas nem a liberdade cara-de-pau do rapaz que, acorrentado ao estigma de bad boy, gritava: "I’m free to do what I want...” e muito menos aquela que alguns viram raiar no horizonte do Brasil.
A pergunta é: Onde está a liberdade do ser - humano de ser humano? A liberdade das contradições e enganos. A liberdade de viver.
Vivemos no mundo-máquina do homem de negócios, do homem-negócio, do ser-produto. Cada um com seus rótulos e problemas. Perseguindo títulos para aprisionarmo-nos neles. E ali vivermos, falsificados e tranqüilos.
“O ser – humano está condenado à liberdade.” Engano seu, Sartre. O ser – humano condenou a liberdade. Ela está fora do nosso cardápio. Nascemos e crescemos procurando uma embalagem que nos acalente, que nos dê uma identidade, um grupo, um gueto. Um rótulo que pense por nós.
E nessa selva de clichês, nesse emaranhado de pensamentos pré-concebidos e raciocínios fabricados é que nos reproduzimos. Assim perpetuamos o nosso vazio existencial, transmitimos o legado de nossa miséria, a nossa aglomerada solidão, é verdade Tom Zé, ou o nosso defeito de fabricação.
Não, não queremos a liberdade, Bilac. Queremos que as asas dela fiquem bem distantes de nós. O que buscamos é espaço no mercado. Queremos nos vender. Queremos uma prateleira que nos aceite e que nos qualifique. Somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida.
Queremos rotular e sermos rotulados. Morrer de tédio e vício. Assim nos mataremos. “A liberdade é a lei humana”, sentenciou Victor Hugo. É uma pena, pensador, estamos cumprindo pena. Perdemos a lei e estamos em leilão. Somos produtos no mercado. No mercado de trabalho, no mercado de consumo, no mercado do sexo.
Nossa única necessidade é consumir o mercado que nos consome. Adeus fogo. Adeus poetas. São demais os perigos desta vida para quem tem paixão. Descartes cartesianos. Nunca mais o humano, apenas o super-homem, a super-máquina. O politicamente correto.
Tempo de homens partidos. De futebolistas robôs. De workaholics. De música eletrônica. De namoros virtuais. De substantivos subtraídos. Nosso mundo é o dos adjetivos. Das propagandas. Dos meios-mensagens.
Tempos modernos de Carlitos mecanizados e vencedores perdidos. Tempo do homem morto, da ternura perdida. Andy Warhol triunfa. Em cada esquina uma pop star estilizada busca seus quinze minutos. Tempo de formigas disfarçadas de cigarras.
Tempo de choro e ranger de dentes. De estereótipos e arquétipos. De signos e números. Tempo de solidão. Tempo de prisões e propriedades. Tempo de cobiça. De tropas e elites. Tempo, tempo, tempo, tempo...
Lutemos pelo planeta. O mundo vai acabar. Não, o mundo não acabará. O ser – humano é que irá desaparecer. Ou já desapareceu. Ou ainda não floresceu.
Liberdade, Liberdade. Paulo Autran viverá para sempre. “A canção está morta” (Chico). Não é bem assim, meu caro Buarque. As canções serão eternas nos corações resistentes dos homens cordiais.
Libertemo-nos! Liberdade ainda que tardia. Descubramos nossa missão. O tempo é curto. Na Oficina há uma vela. Ouçamos o som do sim. Somos os únicos seres capazes de comoção. Tira, põe, deixa ficar...
Humanizemos nossas vidas. Enxerguemos o mundo. Os mundos no mundo. Cultivemos nossas contradições e metamorfoses, nossas diferenças. Sem rótulos. Sem raças. Sem religiões. Sem profissões e sem classes. Sem governos e sem fronteiras. Somente o ser, o humano. O demasiado humano.
* Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4109)
terça-feira, 9 de outubro de 2007
UNAM-SE, MOBILIZEM-SE, LUTEM!
O que é a nossa democracia?
Se pensarmos no significado da palavra (do grego, demos=povo + krato=governo) entenderemos que é um governo, como definiu Abrahan Lincoln, do povo para o povo. Porém segundo Nelson Mandela, uma democracia com fome, sem saúde e educação para a maioria, é uma concha vazia. Essas definições servem como ponto de partida para analisarmos alguns acontecimentos e tentarmos encontrar possibilidades de melhora.
O editorial do dia 07 de outubro de um jornal de Santos deu o pontapé inicial para polarizar as eleições municipais do próximo ano. Como é de costume, a argumentação veio recheada de meias palavras, mas deixando claro o propósito: sentenciar quais os candidatos que poderão ganhar as eleições.
Pensemos: Quais seriam os resultados das eleições caso não houvesse pesquisas? As pesquisas estão a serviço da população ou servindo a outros interesses? Como teremos uma mudança estrutural no nosso País se a melhor forma de mudarmos isso, o voto, também está corrompida?
Já é mais do que sabido que os grandes meios de comunicação brasileiros não atendem aos interesses da população e sim aos de uma minoria que busca se manter eternamente no poder. Sendo assim, não são democráticos, embora preguem a democracia quando lhes é conveniente. No dia 5 de outubro venceram as concessões de grandes emissoras de rádio e televisão, algumas manifestações reivindicando maior transparência nas concessões ocorreram em várias cidades, mas a grande massa nem sequer ficou sabendo. E por quê?
Elementar, meus caros Watsons! Porque os meios de comunicação, os Kanes dos trópicos, jamais levariam ao conhecimento do povo uma proposta de reavaliação de suas próprias condutas. A renovação automática, é isso o que acontece quando vencem as concessões, é perfeita para seus interesses. E para os interesses do povo?
Será que uma concessão pública, ou seja, do povo, não deveria ter a obrigação de colaborar na educação, exercício da cidadania e esclarecimento da maioria? Será que ao invés de tratar dos próprios interesses, a obrigação desses meios não seria o de tratar dos interesses do País (não do governo, do País!) que lhes deu a concessão? Onde está a democracia?
Um “Recordações do escrivão Isaías caminha” escrito em 2007 traria uma imprensa menos repugnante que aquela retratada por Lima Barreto em 1908? Ou será que para nós o tempo está parado?
Como esperar que um país que tem Educação mais como uma fonte inesgotável de demagogia (e lucro!!!) que como uma forma de progresso, que tem os meios de comunicação mais a serviço de interesses manipuladores que de informação ao povo, seja democrático?
De que adianta pregar-se uma reforma política se a última palavra é sempre dada pelo poder econômico?
Como cobrar voto consciente de uma população que quanto mais tenta informar-se mais desinformada fica? Como esperar ensino de qualidade de empresários que abrem escolas e universidades visando o lucro, de um Estado mais preocupado com suas brigas partidárias que com o esclarecimento de seu povo?
Como esperar que a violência social seja sanada se os interesses econômicos estão acima do bem estar da população? Como esperar uma melhora do sistema de saúde pública quando a saúde privada virou fonte de renda para corporações?
Como buscar saída na arte se os produtores de cinema, os escritores e dramaturgos, para atingir um público significativo têm que buscar apoio no opressor poder econômico?
Como esperar um interesse social e uma atitude revolucionária de uma juventude que foi educada por uma vendedora via-satélite e entretenimentos importados de conteúdo colonialista?
Com uma democracia baseada em campanhas milionárias que partido consegue chegar ao governo sem entrar em conchavo com o tal poder?
Há quinhentos anos é assim! Quando deixamos de ser colônia foi porque era do interesse das oligarquias que deixássemos; se nos transformamos em Republica foi mais para atender a interesses elitistas que para beneficiar a nação. E assim as coisas sempre aconteceram, salvo raríssimas exceções.
Nossos amigos da América do Sul (vide Venezuela, Bolívia e Equador) já despertaram e estão cuidando dos seus interesses. E nós? Perderemos mais uma vez o “trem da História” e continuaremos servindo de fantoches para os interesses imperialistas, votando com base em pesquisas tendenciosas e buscando informações em meios manipuladores?
Não foi se curvando ao mercado ou classificando a situação como imutável que Gandhi conseguiu livrar a Índia da opressão inglesa. E nós? O que faremos? Continuaremos confundindo passividade com pacifismo?
Se as pessoas que tencionam construir um Brasil mais justo e verdadeiramente democrático (se é que a democracia não é uma piada como sentenciou Saramago) não começarem a agir já, através de atitudes esclarecedoras, de um exercício mais eficaz da cidadania e de um pensamento mais global e não voltado ao egoísmo (a sociedade alternativa está dentro de cada um de nós), a situação se prolongara por mais quinhentos anos.
Porque no que depender dos grandes meios de comunicação e do poder econômico que os patrocinam o objetivo será sempre o lucro da minoria, nem que para isso seja necessário inventar guerras e epidemias.
*Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4069)
Se pensarmos no significado da palavra (do grego, demos=povo + krato=governo) entenderemos que é um governo, como definiu Abrahan Lincoln, do povo para o povo. Porém segundo Nelson Mandela, uma democracia com fome, sem saúde e educação para a maioria, é uma concha vazia. Essas definições servem como ponto de partida para analisarmos alguns acontecimentos e tentarmos encontrar possibilidades de melhora.
O editorial do dia 07 de outubro de um jornal de Santos deu o pontapé inicial para polarizar as eleições municipais do próximo ano. Como é de costume, a argumentação veio recheada de meias palavras, mas deixando claro o propósito: sentenciar quais os candidatos que poderão ganhar as eleições.
Pensemos: Quais seriam os resultados das eleições caso não houvesse pesquisas? As pesquisas estão a serviço da população ou servindo a outros interesses? Como teremos uma mudança estrutural no nosso País se a melhor forma de mudarmos isso, o voto, também está corrompida?
Já é mais do que sabido que os grandes meios de comunicação brasileiros não atendem aos interesses da população e sim aos de uma minoria que busca se manter eternamente no poder. Sendo assim, não são democráticos, embora preguem a democracia quando lhes é conveniente. No dia 5 de outubro venceram as concessões de grandes emissoras de rádio e televisão, algumas manifestações reivindicando maior transparência nas concessões ocorreram em várias cidades, mas a grande massa nem sequer ficou sabendo. E por quê?
Elementar, meus caros Watsons! Porque os meios de comunicação, os Kanes dos trópicos, jamais levariam ao conhecimento do povo uma proposta de reavaliação de suas próprias condutas. A renovação automática, é isso o que acontece quando vencem as concessões, é perfeita para seus interesses. E para os interesses do povo?
Será que uma concessão pública, ou seja, do povo, não deveria ter a obrigação de colaborar na educação, exercício da cidadania e esclarecimento da maioria? Será que ao invés de tratar dos próprios interesses, a obrigação desses meios não seria o de tratar dos interesses do País (não do governo, do País!) que lhes deu a concessão? Onde está a democracia?
Um “Recordações do escrivão Isaías caminha” escrito em 2007 traria uma imprensa menos repugnante que aquela retratada por Lima Barreto em 1908? Ou será que para nós o tempo está parado?
Como esperar que um país que tem Educação mais como uma fonte inesgotável de demagogia (e lucro!!!) que como uma forma de progresso, que tem os meios de comunicação mais a serviço de interesses manipuladores que de informação ao povo, seja democrático?
De que adianta pregar-se uma reforma política se a última palavra é sempre dada pelo poder econômico?
Como cobrar voto consciente de uma população que quanto mais tenta informar-se mais desinformada fica? Como esperar ensino de qualidade de empresários que abrem escolas e universidades visando o lucro, de um Estado mais preocupado com suas brigas partidárias que com o esclarecimento de seu povo?
Como esperar que a violência social seja sanada se os interesses econômicos estão acima do bem estar da população? Como esperar uma melhora do sistema de saúde pública quando a saúde privada virou fonte de renda para corporações?
Como buscar saída na arte se os produtores de cinema, os escritores e dramaturgos, para atingir um público significativo têm que buscar apoio no opressor poder econômico?
Como esperar um interesse social e uma atitude revolucionária de uma juventude que foi educada por uma vendedora via-satélite e entretenimentos importados de conteúdo colonialista?
Com uma democracia baseada em campanhas milionárias que partido consegue chegar ao governo sem entrar em conchavo com o tal poder?
Há quinhentos anos é assim! Quando deixamos de ser colônia foi porque era do interesse das oligarquias que deixássemos; se nos transformamos em Republica foi mais para atender a interesses elitistas que para beneficiar a nação. E assim as coisas sempre aconteceram, salvo raríssimas exceções.
Nossos amigos da América do Sul (vide Venezuela, Bolívia e Equador) já despertaram e estão cuidando dos seus interesses. E nós? Perderemos mais uma vez o “trem da História” e continuaremos servindo de fantoches para os interesses imperialistas, votando com base em pesquisas tendenciosas e buscando informações em meios manipuladores?
Não foi se curvando ao mercado ou classificando a situação como imutável que Gandhi conseguiu livrar a Índia da opressão inglesa. E nós? O que faremos? Continuaremos confundindo passividade com pacifismo?
Se as pessoas que tencionam construir um Brasil mais justo e verdadeiramente democrático (se é que a democracia não é uma piada como sentenciou Saramago) não começarem a agir já, através de atitudes esclarecedoras, de um exercício mais eficaz da cidadania e de um pensamento mais global e não voltado ao egoísmo (a sociedade alternativa está dentro de cada um de nós), a situação se prolongara por mais quinhentos anos.
Porque no que depender dos grandes meios de comunicação e do poder econômico que os patrocinam o objetivo será sempre o lucro da minoria, nem que para isso seja necessário inventar guerras e epidemias.
*Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4069)
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