Neste ano de 2008 comemoraremos os cinqüenta anos de lançamento do Lp “Canção do amor demais” da divina Elizeth Cardoso, o primeiro Lp a registrar a batida do violão de João Gilberto e, portanto, o marco zero da bossa nova. Sendo assim, este é o ano de comemorarmos meio século da bossa sempre nova. Parabéns Brasil!
A bossa nova foi um sonho que o Brasil teve. Um sonho de sofisticação e simplicidade. Um sonho de popularização do refinamento em meio a um país que caminhava de encontro à realização dos ideais de uma geração sonhadora. Seu cenário era o Rio de Janeiro com peixinhos a nadar no mar e garotas com um balançar que era mais que um poema. O Rio de Orfeu, Garrincha e Niemeyer; sua pátria era o Brasil de Juscelino (o presidente bossa nova), da poesia de Drummond, das crônicas de Rubem Braga, da Gabriela de Jorge Amado e das telas de Portinari.
A bossa, com seu estilo muito natural, colocou o Brasil definitivamente entre os maiores produtores (quiçá o maior) de música popular de qualidade do planeta. Tinha na sua árvore genealógica um músico de talento ímpar chamado Tom Jobim, um poeta romântico de primeira grandeza chamado Vinícius de Moraes e um gênio chamado João Gilberto. Suas batidas, suas harmonias, suas letras coloquiais de amor e galhofa e sua miscigenação do samba da nossa terra com o jazz era a trilha sonora ideal para um país que se erguia como potência cultural e que acabava de gritar “o petróleo é nosso”.
Seus cantinhos e violões revelaram ao mundo, talentos inigualáveis como João Donato, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra, Astrud Gilberto e Johnny Alf, emocionaram o Carneggie Hall, fascinaram músicos como Miles Davis, Stan Getz , Frank Sinatra e Ella Fitzgerald e arrebataram inúmeros Grammys (Awards, não o genérico latino). Depois caiu na mão de charlatães sem talento que se aproveitando da popularidade que o gênero alcançava tentaram transforma-la em apenas mais um produto, como disse João Gilberto, em “jazz para débil mental.”.
Mas, como tristeza não tem fim, felicidade sim, o Brasil foi subjugado pelo medo e pela ganância e quem acreditou no amor, no sorriso e na flor depois chorou e perdeu a paz. João Goulart foi deposto, as reformas não aconteceram e JK não voltou em 65. A roda-viva de uma guerra estúpida e fria chegava ao Brasil tornando cinzas nossas tardes tão azuis. Os filhos da bossa nova surgiam então com uma preocupação maior que o refinamento musical: a de conscientizar uma população que começava a mergulhar na letargia de uma ditadura truculenta e alienante. Precisavam fazer a hora, caminhar contra o vento, lutar para que não perdêssemos a ternura.
Hoje, meio século depois que a onda da bossa nova se ergueu no nosso mar, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza. É preciso inventar de novo o amor.
* Publicado também nos jornais "Brasileiros e Brasileiras", "Página Dois" e no site "Direto da Redação".
quarta-feira, 5 de março de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
O CANDIDATO ROCK N' ROLL
Uma nova esperança paira no ar, cada vez mais quente, do nosso mundo: seu nome é Barack Obama.
Depois dos violentos, e pouco inteligentes, anos Bush, grande parte da população estadunidense vê no negro havaiano uma luz no fim do túnel de trevas desse mundo cada vez mais corporativista. E como a paz e a liberdade do mundo, principalmente dos países ditos em desenvolvimento, estão sujeitas às decisões tomadas pela Casa Branca o assunto passa a ser de interesse mundial. Inclusive, chega a ser razoável pensar que eleitores do mundo inteiro deveriam votar nessas eleições.
Barack Obama é o candidato rock n’ roll. Assim como a música de Little Richard e Chuck Berry representava a ânsia de liberação e expressão da geração do Pós-Guerra (se bem que a guerra não acabou, apenas esfriou. E se observamos os acontecimentos geopolíticos não será absurdo concluir que ela continua até hoje), dos negros do sul dos E.U.A., o senador democrata representa o sonho das minorias (?) esmagadas por uma política voltada aos intere$$es excludentes do poder multinacional.
Ao som de U2 (os trovadores da luta religiosa da Irlanda), promete um “Beautiful day” após a longa noite “bushiana”. É o porta-voz de uma juventude emudecida pelo esvaziamento ideológico. Promete o fim das guerras burras e uma universalização no sistema de saúde cuja precariedade Michael Moore retratou no seu mais recente filme, “Sicko”. Quer um Estados Unidos realmente unido e propõe uma mudança nas relações internacionais e ambientais.
No mundo hipocritamente correto, onde a preocupação individualista é quase uma lei no pensamento corrente, Obama é um sinal de mudança. Uma mudança bem parecida com a transformação nas relações ambicionada pelos pais do rock n’roll e sonhada por Luther King.
Com a indústria cultural preocupada em fabricar uma música fácil, cada vez mais parecida com jingles, e pseudo-artistas cuja única preocupação é engordar suas contas bancárias colhendo os frutos de uma fama conquistada com 99% de promoção e 1% (quando muito) de inspiração, sem Jimmy Hendrix e sem John Lennon, o outrora anárquico rock n’roll é hoje uma monarquia mais a serviço dos interesses corporativistas alienantes do que das massas oprimidas que o originaram.
Se Obama também mudará a postura ao chegar ao topo, no caso, à Casa Branca, não se sabe. Não sabemos ao menos se conseguirá eleger-se candidato. Porém, o democrata miscigenado, cujos jantares de família "são sempre uma mini-O.N.U.", é uma via alternativa ao marasmo ideológico e traz de volta o sonho de um mundo mais tolerante e diverso.
Infeliz é o povo que precisa de heróis, dizia Brecht. Portanto, Obama reflete a infelicidade daqueles que são cada vez mais esmagados pela truculenta política corporativista, assim como o rock foi durante anos a música eleita por aqueles que sonhavam mudar o mundo.
Depois dos violentos, e pouco inteligentes, anos Bush, grande parte da população estadunidense vê no negro havaiano uma luz no fim do túnel de trevas desse mundo cada vez mais corporativista. E como a paz e a liberdade do mundo, principalmente dos países ditos em desenvolvimento, estão sujeitas às decisões tomadas pela Casa Branca o assunto passa a ser de interesse mundial. Inclusive, chega a ser razoável pensar que eleitores do mundo inteiro deveriam votar nessas eleições.
Barack Obama é o candidato rock n’ roll. Assim como a música de Little Richard e Chuck Berry representava a ânsia de liberação e expressão da geração do Pós-Guerra (se bem que a guerra não acabou, apenas esfriou. E se observamos os acontecimentos geopolíticos não será absurdo concluir que ela continua até hoje), dos negros do sul dos E.U.A., o senador democrata representa o sonho das minorias (?) esmagadas por uma política voltada aos intere$$es excludentes do poder multinacional.
Ao som de U2 (os trovadores da luta religiosa da Irlanda), promete um “Beautiful day” após a longa noite “bushiana”. É o porta-voz de uma juventude emudecida pelo esvaziamento ideológico. Promete o fim das guerras burras e uma universalização no sistema de saúde cuja precariedade Michael Moore retratou no seu mais recente filme, “Sicko”. Quer um Estados Unidos realmente unido e propõe uma mudança nas relações internacionais e ambientais.
No mundo hipocritamente correto, onde a preocupação individualista é quase uma lei no pensamento corrente, Obama é um sinal de mudança. Uma mudança bem parecida com a transformação nas relações ambicionada pelos pais do rock n’roll e sonhada por Luther King.
Com a indústria cultural preocupada em fabricar uma música fácil, cada vez mais parecida com jingles, e pseudo-artistas cuja única preocupação é engordar suas contas bancárias colhendo os frutos de uma fama conquistada com 99% de promoção e 1% (quando muito) de inspiração, sem Jimmy Hendrix e sem John Lennon, o outrora anárquico rock n’roll é hoje uma monarquia mais a serviço dos interesses corporativistas alienantes do que das massas oprimidas que o originaram.
Se Obama também mudará a postura ao chegar ao topo, no caso, à Casa Branca, não se sabe. Não sabemos ao menos se conseguirá eleger-se candidato. Porém, o democrata miscigenado, cujos jantares de família "são sempre uma mini-O.N.U.", é uma via alternativa ao marasmo ideológico e traz de volta o sonho de um mundo mais tolerante e diverso.
Infeliz é o povo que precisa de heróis, dizia Brecht. Portanto, Obama reflete a infelicidade daqueles que são cada vez mais esmagados pela truculenta política corporativista, assim como o rock foi durante anos a música eleita por aqueles que sonhavam mudar o mundo.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
CAMINHOS
Todos os dias havia debate na senzala.
Reunidos na mesa do jantar - ruim e insuficiente, como diria Graciliano Ramos – os escravos discutiam suas vidas, seus planos, suas funções e, principalmente, o futuro.
Toninho era sempre o mais apaixonado em suas teses. Sempre eloqüente e esperançoso, seus olhos brilhavam quando defendia seus princípios. Ele realmente acreditava no que sonhava. Mas, para a maioria dos seus companheiros de senzala, não passava de um maluco, de um baderneiro com sérios problemas de caráter. Ele queria a liberdade.
- Será que você não percebe que isso é uma loucura, rapaz? – dizia-lhe Neto, um senhor de respeito, antigo na labuta e respeitado por todos – Esse papo de liberdade é muito bonito na teoria, mas na prática não funciona. Se fosse realmente possível, Palmares não teria sido destruída...
- Palmares caiu por uma série de fatores e nenhum deles aponta para a inviabilidade da liberdade...
- Não? Você precisa informar-se mais. Sonhar é muito bonito, eu concordo, mas o trabalho é que dignifica o homem. Nós precisamos de alguém que nos direcione, o problema de Palmares foi exatamente esse, não haviam pessoas esclarecidas para governar...
- Esclarecidos para o senhor são esses vagabundos que escravizam a gente?
- Olha o respeito, rapaz. Como é que você pode chamar nossos senhores de vagabundos? Chega a ser até ingrato da sua parte...
- Ingrato? E por que eu deveria ser grato a quem vive do luxo proporcionado pelo meu suor e em troca me devolve esta vida de merda?
- Você devia era levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus: você tem comida na mesa, tem saúde e tem um teto. Você já parou pra pensar em quantas pessoas gostariam de estar no seu lugar? Ter a oportunidade que você tem?
- Oportunidade?!?!? De que? De enriquecer ainda mais quem sempre foi rico? De esperar os minutos de folga para fazer o que eu realmente gosto? Oportunidade de estragar a minha saúde enriquecendo essas sanguessugas?
Enquanto Neto e Toninho, ou Antonio de Ogum, discutiam, os demais escravos acompanhavam com atenção e pensavam em suas vidas. No fundo, lá no escaninho da alma, todos concordavam com Toninho. Porém, os argumentos de Neto pareciam-lhes mais sensatos, sobretudo porque enquanto um era um jovem sonhador o outro era um senhor experiente. Além do mais, já estava provado que a liberdade era para quem tinha capacidade de gestão, o que não era o caso deles.
Toninho, na verdade, pouco se importava com a desaprovação dos outros, sabia que os recursos que dispunham para livrar-se da lavagem cerebral que receberam eram escassos e enquanto a subserviência de Neto fosse tomada como exemplo, as coisas permaneceriam como estavam.
- Escute o que eu vou te dizer, garoto. Eu tenho idade quase de ser seu avô, aliás fui muito amigo dele, e me sinto na obrigação de te aconselhar: esse papo de igualdade não existe. É desculpa de vagabundo que não quer pegar no batente. E te digo mais: agradeço todos os dias da minha vida por trabalhar para um senhor que raramente nos chicoteia, e quando o faz é porque o merecemos, e tudo o que eu tenho hoje na minha vida eu devo a ele.
- E o que o senhor tem na vida? – Toninho não conseguia esconder o desprezo que sentia pelo comodismo e ignorância do respeitado conselheiro.
- Tenho respeito, uma estória linda e, dentro em breve, terei direito a um merecido descanso. Aposentar-me-ei como chefe. E sabe por quê? Porque eu lutei pra isso. Porque ao invés de sonhar eu construí minha vida.
- E foi isso que o senhor sempre quis? Quando olhava para sua velhice, era essa bela estória que sonhava construir? Não acredito.
- As besteiras da mocidade morrem com a mocidade.
- Será que a sua vida é tão desprezível que valeu a pena trocá-la por essas porcarias que o senhor julga imprescindível?
- Chega! Já falou besteira demais. – Branco e Gegê interferiram no debate enquanto Neto, com um sinal de desdém, desaprovava o comportamento de Toninho.
- A vida vai ensiná-lo. – profetizava o respeitável trabalhador.
A cada dia a situação dos escravos tornava-se mais sacrificantes. Apoiados pelos governantes, os senhores cada vez davam menos direitos aos pobres trabalhadores, além de exigirem cada vez mais dedicação. As obrigações aumentavam na mesma proporção que os direitos eram suprimidos.
Cada direito suprimido dava origem a um novo debate e paradoxalmente quanto mais eram explorados mais os trabalhadores tomavam partido do senhor.
Incomodado com as conversas abordadas por Toninho durante as refeições, Neto sugeriu aos administradores uma forma de acabar com os debates. Um mês depois, uma televisão foi instalada na senzala. O aparelho foi recebido com festa, Neto fez um discurso exaltando a benevolência dos diretores em proporcionar diversão e cultura aos trabalhadores.
Desse dia em diante, os debates foram substituídos pelos programas de auditório, novela e telejornais cujos conteúdos deixavam bem claro que qualquer sugestão de uma vida diferente daquela era um disparate.
Somente Toninho não via mais sentido em permanecer naquela situação. Desde criança nunca vira perspectiva de felicidade dentro do regime que viviam. Nunca sonhou o sonho que lhe implantavam e nem se deixou levar por congratulações e promoções. Isolado, desistiu do levante, da tomada da empresa por todos os escravos, de uma república igualitária, que tinha em mente e decidiu sair dali sozinho.
- A gente ainda não sonhou. A vida não é só isso. Nós estamos entregando nossas vidas aos interesses alheios. Eles dependem de tudo isso, nós não... Os escravos são eles e nós sustentamos com os nossos desejos a liberdade deles. Pra mim chega! Como disse meu mestre Rousseau, é preciso ter olhos pra ver e coração pra sentir. – falou o rapaz a alguns amigos poucos minutos antes de demitir-se – O que faz o forte é o medo do fraco. Eu quero ser feliz e para isso é necessário que eu seja livre. A liberdade precede a felicidade, até isso eles subverteram. E nem isso, vocês percebem. – falou o rapaz aos companheiros de cruz na última noite que passou na senzala.
Depois dessa noite Toninho nunca mais foi visto. Neto foi promovido e tratou de redobrar a vigilância e impedir que o nome de Toninho fosse proferido pelos amigos. Patrocinado pela direção, organizou palestras de motivação e exibiu documentários que mostravam o contraste da verdadeira liberdade que eles tinham naquela senzala em comparação a repressão e a miséria dos quilombos.
A liberdade até hoje não chegou àquela senzala, se bem que todos acreditam viver no modelo mais liberal do planeta. Muitos dos que ouviram o debate ainda repetem confiantes as palavras do velho Neto outros se arrependem de não terem saído com Toninho, de temerem não haver felicidade fora da escravidão e do sonho de se tornar senhor.
Neto morreu alguns anos depois de uma doença causada pelo trabalho. No enterro, muitos amigos comentaram a sabedoria e a vida correta do respeitável chefe. Os patrões não foram despedir-se, no entanto mandaram uma linda coroa de flores com um emocionante cartão que realçava a importância da obstinação e da perseverança daquela personalidade única.
Quanto a Toninho, as notícias que chegaram dele na senzala nunca foram comprovadas. Ninguém sabe ao certo como foi sua vida fora da senzala. A informação oficial, transmitida pelos meios de comunicação e palestrantes é de que ele morreu de fome nas imediações da senzala.
Alguns afirmam que ele foi morto traiçoeiramente pelas tropas dos empresários (perdão, do governo) enquanto pregava a liberdade (e a igualdade) em outras senzalas.
A única certeza que se tem é a de que ele nunca mais foi escravo.
O resto é silêncio.
Reunidos na mesa do jantar - ruim e insuficiente, como diria Graciliano Ramos – os escravos discutiam suas vidas, seus planos, suas funções e, principalmente, o futuro.
Toninho era sempre o mais apaixonado em suas teses. Sempre eloqüente e esperançoso, seus olhos brilhavam quando defendia seus princípios. Ele realmente acreditava no que sonhava. Mas, para a maioria dos seus companheiros de senzala, não passava de um maluco, de um baderneiro com sérios problemas de caráter. Ele queria a liberdade.
- Será que você não percebe que isso é uma loucura, rapaz? – dizia-lhe Neto, um senhor de respeito, antigo na labuta e respeitado por todos – Esse papo de liberdade é muito bonito na teoria, mas na prática não funciona. Se fosse realmente possível, Palmares não teria sido destruída...
- Palmares caiu por uma série de fatores e nenhum deles aponta para a inviabilidade da liberdade...
- Não? Você precisa informar-se mais. Sonhar é muito bonito, eu concordo, mas o trabalho é que dignifica o homem. Nós precisamos de alguém que nos direcione, o problema de Palmares foi exatamente esse, não haviam pessoas esclarecidas para governar...
- Esclarecidos para o senhor são esses vagabundos que escravizam a gente?
- Olha o respeito, rapaz. Como é que você pode chamar nossos senhores de vagabundos? Chega a ser até ingrato da sua parte...
- Ingrato? E por que eu deveria ser grato a quem vive do luxo proporcionado pelo meu suor e em troca me devolve esta vida de merda?
- Você devia era levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus: você tem comida na mesa, tem saúde e tem um teto. Você já parou pra pensar em quantas pessoas gostariam de estar no seu lugar? Ter a oportunidade que você tem?
- Oportunidade?!?!? De que? De enriquecer ainda mais quem sempre foi rico? De esperar os minutos de folga para fazer o que eu realmente gosto? Oportunidade de estragar a minha saúde enriquecendo essas sanguessugas?
Enquanto Neto e Toninho, ou Antonio de Ogum, discutiam, os demais escravos acompanhavam com atenção e pensavam em suas vidas. No fundo, lá no escaninho da alma, todos concordavam com Toninho. Porém, os argumentos de Neto pareciam-lhes mais sensatos, sobretudo porque enquanto um era um jovem sonhador o outro era um senhor experiente. Além do mais, já estava provado que a liberdade era para quem tinha capacidade de gestão, o que não era o caso deles.
Toninho, na verdade, pouco se importava com a desaprovação dos outros, sabia que os recursos que dispunham para livrar-se da lavagem cerebral que receberam eram escassos e enquanto a subserviência de Neto fosse tomada como exemplo, as coisas permaneceriam como estavam.
- Escute o que eu vou te dizer, garoto. Eu tenho idade quase de ser seu avô, aliás fui muito amigo dele, e me sinto na obrigação de te aconselhar: esse papo de igualdade não existe. É desculpa de vagabundo que não quer pegar no batente. E te digo mais: agradeço todos os dias da minha vida por trabalhar para um senhor que raramente nos chicoteia, e quando o faz é porque o merecemos, e tudo o que eu tenho hoje na minha vida eu devo a ele.
- E o que o senhor tem na vida? – Toninho não conseguia esconder o desprezo que sentia pelo comodismo e ignorância do respeitado conselheiro.
- Tenho respeito, uma estória linda e, dentro em breve, terei direito a um merecido descanso. Aposentar-me-ei como chefe. E sabe por quê? Porque eu lutei pra isso. Porque ao invés de sonhar eu construí minha vida.
- E foi isso que o senhor sempre quis? Quando olhava para sua velhice, era essa bela estória que sonhava construir? Não acredito.
- As besteiras da mocidade morrem com a mocidade.
- Será que a sua vida é tão desprezível que valeu a pena trocá-la por essas porcarias que o senhor julga imprescindível?
- Chega! Já falou besteira demais. – Branco e Gegê interferiram no debate enquanto Neto, com um sinal de desdém, desaprovava o comportamento de Toninho.
- A vida vai ensiná-lo. – profetizava o respeitável trabalhador.
A cada dia a situação dos escravos tornava-se mais sacrificantes. Apoiados pelos governantes, os senhores cada vez davam menos direitos aos pobres trabalhadores, além de exigirem cada vez mais dedicação. As obrigações aumentavam na mesma proporção que os direitos eram suprimidos.
Cada direito suprimido dava origem a um novo debate e paradoxalmente quanto mais eram explorados mais os trabalhadores tomavam partido do senhor.
Incomodado com as conversas abordadas por Toninho durante as refeições, Neto sugeriu aos administradores uma forma de acabar com os debates. Um mês depois, uma televisão foi instalada na senzala. O aparelho foi recebido com festa, Neto fez um discurso exaltando a benevolência dos diretores em proporcionar diversão e cultura aos trabalhadores.
Desse dia em diante, os debates foram substituídos pelos programas de auditório, novela e telejornais cujos conteúdos deixavam bem claro que qualquer sugestão de uma vida diferente daquela era um disparate.
Somente Toninho não via mais sentido em permanecer naquela situação. Desde criança nunca vira perspectiva de felicidade dentro do regime que viviam. Nunca sonhou o sonho que lhe implantavam e nem se deixou levar por congratulações e promoções. Isolado, desistiu do levante, da tomada da empresa por todos os escravos, de uma república igualitária, que tinha em mente e decidiu sair dali sozinho.
- A gente ainda não sonhou. A vida não é só isso. Nós estamos entregando nossas vidas aos interesses alheios. Eles dependem de tudo isso, nós não... Os escravos são eles e nós sustentamos com os nossos desejos a liberdade deles. Pra mim chega! Como disse meu mestre Rousseau, é preciso ter olhos pra ver e coração pra sentir. – falou o rapaz a alguns amigos poucos minutos antes de demitir-se – O que faz o forte é o medo do fraco. Eu quero ser feliz e para isso é necessário que eu seja livre. A liberdade precede a felicidade, até isso eles subverteram. E nem isso, vocês percebem. – falou o rapaz aos companheiros de cruz na última noite que passou na senzala.
Depois dessa noite Toninho nunca mais foi visto. Neto foi promovido e tratou de redobrar a vigilância e impedir que o nome de Toninho fosse proferido pelos amigos. Patrocinado pela direção, organizou palestras de motivação e exibiu documentários que mostravam o contraste da verdadeira liberdade que eles tinham naquela senzala em comparação a repressão e a miséria dos quilombos.
A liberdade até hoje não chegou àquela senzala, se bem que todos acreditam viver no modelo mais liberal do planeta. Muitos dos que ouviram o debate ainda repetem confiantes as palavras do velho Neto outros se arrependem de não terem saído com Toninho, de temerem não haver felicidade fora da escravidão e do sonho de se tornar senhor.
Neto morreu alguns anos depois de uma doença causada pelo trabalho. No enterro, muitos amigos comentaram a sabedoria e a vida correta do respeitável chefe. Os patrões não foram despedir-se, no entanto mandaram uma linda coroa de flores com um emocionante cartão que realçava a importância da obstinação e da perseverança daquela personalidade única.
Quanto a Toninho, as notícias que chegaram dele na senzala nunca foram comprovadas. Ninguém sabe ao certo como foi sua vida fora da senzala. A informação oficial, transmitida pelos meios de comunicação e palestrantes é de que ele morreu de fome nas imediações da senzala.
Alguns afirmam que ele foi morto traiçoeiramente pelas tropas dos empresários (perdão, do governo) enquanto pregava a liberdade (e a igualdade) em outras senzalas.
A única certeza que se tem é a de que ele nunca mais foi escravo.
O resto é silêncio.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
A ENGRENAGEM
Augusto Boal foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz!
Não falaremos aqui sobre o quão curioso será teatrólogo vir a ser o único vencedor do tão cultuado prêmio em um país onde o teatro tem sua penetração restrita e nem sobre a grande contradição do Nobel da paz ser pago com o dinheiro da venda de dinamites, já que Alfred Nobel foi também o inventor do explosivo.
Acima de tudo isso está a obra de Boal e tudo o que ela engloba: o teatro do oprimido, o teatro legislativo (uma miscigenação de teatro com política bem ao estilo da cultura brasileira), a Libertação de D.Helder Câmara, a luta de Zumbi e do povo de Palmares, os ideais de Tiradentes e Bolívar, a pedagogia de Paulo Freire, a antropofagia modernista, o teatro instrutivo de Brecht e a paz. A paz...
Com a história contada pelos vencedores, a cultura da guerra e das revoluções é, para muitos, a mola que a impulsiona. É a guerra que propaga a opressão. É ela que mantém o governo, a educação e as informações sob controle. E como nos ensinou Cristo, o homem que disse nos trazer a espada: não devemos combater o mal com o mal. Ou seja, a paz só pode ser fruto da paz. Portanto, o teatro do oprimido do nosso curinga carioca é um grande passo rumo a uma sociedade pacífica e verdadeiramente cristã (no bom sentido da palavra).
Ou será que alguém é capaz de vislumbrar alguma possibilidade de paz entre a raça humana com a nossa sociedade dividida em opressor, opressor-oprimido, oprimido-opressor e oprimido? Será que alguém ainda é capaz de crer na paz pela força? Na liberdade vigiada? Nas invasões pela liberdade? Será que alguma esperança ainda pode ser alimentada com o avanço da política excludente das corporações?
A criação de Boal, sua visão de fazer um teatro fora da lógica separatista artista X público, de dar voz àqueles cujos papéis sempre foram assistir e aplaudir ganhou o mundo e hoje é praticado em mais de 70 países. Mais que um prêmio Nobel ao Brasil, um prato cheio para propagandas ufanistas, a sua importância está na proposta: a idéia de uma sociedade sem opressão (moral, física, financeira, intelectual, criativa, religiosa e todas as outras) onde todos são melhores do que se imaginam. Um mundo onde todos têm voz. Não a voz pedinte, a voz de que os ouvidos “superiores” se servem para exercer suas filantropias e exibir sua benevolência. E sim a voz criativa, a voz realizadora, aquela que grita que somos todos capazes e que nossa sociedade não é feita de minorias, líderes e elites, a voz que grita que nossa sociedade é feita de plenos-cidadãos. A voz de um mundo onde todos podem “sentir-se gente com a alma à solta”. Sem opressores nem oprimidos. Um mundo livre.
Com o Nobel ou não, fica a mensagem do filho do padeiro de que enquanto a nossa engrenagem depender da opressão, a palavra paz será apenas uma fala na boca dos canastrões que representam o triste teatro do bem e do mal, há séculos em cartaz na nossa arena social.
Parar de dar murro em ponta de faca e pôr um fim a esse tempo de guerra e opressão é a maior premiação de paz que daremos ao nosso caro amigo Boal, ao teatro do oprimido e a todos nós.
E o Brasil agradecerá.
Não falaremos aqui sobre o quão curioso será teatrólogo vir a ser o único vencedor do tão cultuado prêmio em um país onde o teatro tem sua penetração restrita e nem sobre a grande contradição do Nobel da paz ser pago com o dinheiro da venda de dinamites, já que Alfred Nobel foi também o inventor do explosivo.
Acima de tudo isso está a obra de Boal e tudo o que ela engloba: o teatro do oprimido, o teatro legislativo (uma miscigenação de teatro com política bem ao estilo da cultura brasileira), a Libertação de D.Helder Câmara, a luta de Zumbi e do povo de Palmares, os ideais de Tiradentes e Bolívar, a pedagogia de Paulo Freire, a antropofagia modernista, o teatro instrutivo de Brecht e a paz. A paz...
Com a história contada pelos vencedores, a cultura da guerra e das revoluções é, para muitos, a mola que a impulsiona. É a guerra que propaga a opressão. É ela que mantém o governo, a educação e as informações sob controle. E como nos ensinou Cristo, o homem que disse nos trazer a espada: não devemos combater o mal com o mal. Ou seja, a paz só pode ser fruto da paz. Portanto, o teatro do oprimido do nosso curinga carioca é um grande passo rumo a uma sociedade pacífica e verdadeiramente cristã (no bom sentido da palavra).
Ou será que alguém é capaz de vislumbrar alguma possibilidade de paz entre a raça humana com a nossa sociedade dividida em opressor, opressor-oprimido, oprimido-opressor e oprimido? Será que alguém ainda é capaz de crer na paz pela força? Na liberdade vigiada? Nas invasões pela liberdade? Será que alguma esperança ainda pode ser alimentada com o avanço da política excludente das corporações?
A criação de Boal, sua visão de fazer um teatro fora da lógica separatista artista X público, de dar voz àqueles cujos papéis sempre foram assistir e aplaudir ganhou o mundo e hoje é praticado em mais de 70 países. Mais que um prêmio Nobel ao Brasil, um prato cheio para propagandas ufanistas, a sua importância está na proposta: a idéia de uma sociedade sem opressão (moral, física, financeira, intelectual, criativa, religiosa e todas as outras) onde todos são melhores do que se imaginam. Um mundo onde todos têm voz. Não a voz pedinte, a voz de que os ouvidos “superiores” se servem para exercer suas filantropias e exibir sua benevolência. E sim a voz criativa, a voz realizadora, aquela que grita que somos todos capazes e que nossa sociedade não é feita de minorias, líderes e elites, a voz que grita que nossa sociedade é feita de plenos-cidadãos. A voz de um mundo onde todos podem “sentir-se gente com a alma à solta”. Sem opressores nem oprimidos. Um mundo livre.
Com o Nobel ou não, fica a mensagem do filho do padeiro de que enquanto a nossa engrenagem depender da opressão, a palavra paz será apenas uma fala na boca dos canastrões que representam o triste teatro do bem e do mal, há séculos em cartaz na nossa arena social.
Parar de dar murro em ponta de faca e pôr um fim a esse tempo de guerra e opressão é a maior premiação de paz que daremos ao nosso caro amigo Boal, ao teatro do oprimido e a todos nós.
E o Brasil agradecerá.
ESCRITOS
Gostaria de indicar mais um projeto do agitador (no bom sentido,é claro) Walmor Dario. Trata-se do fanzine "Escritos", uma agradável opção para os que gostam de leitura e de conhecer talentos que não têm espaço no mundo das corporações.
Divirtam-se:
http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
Divirtam-se:
http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
NÃO PASSOU
Os paralelepípedos da cidade não se arrepiaram.
A cada ano mais distante da ofegante epidemia que o jovem Buarque queria ver passar na avenida, o carnaval mais uma vez ficou bem distante do povo.
Povo que trabalhou, e muito, nos quatro dias de folias. Nos hipermercados, shopping centers, praias, hotéis e restaurantes estavam a postos todos os caixas, empacotadores, balconistas, recepcionistas, recreacionistas, garçons, ambulantes (os que ainda resistem) e funcionários temporários (dando tudo de si para conseguirem a graça de serem efetivados) que ao invés da folia labutaram com resignação e cansaço para melhor atenderem aos clientes de seus patrões.
Nos bairros e nas cidades pequenas, alguns populares tiveram a oportunidade de cair na folia. Seguindo a risca os mandamentos (não sei como alguma editora ainda não lançou o “Manual do folião”!), os pobres trios tocavam as músicas instituídas como sendo de carnaval e os foliões se divertiam conforme a regra: pulando, com as mãos para cima e tirando o pezinho do chão.
Enquanto isso, as emissoras de TV apresentavam os milionários trios da Bahia e as fantásticas escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo com suas celebridades (?) exibindo os padrões de beleza e conduta adequados à festa. E, como não poderia deixar de ser, ensinando ao povo que o carnaval “de verdade”, como tudo no nosso País, é um privilegio que cabe aos escolhidos e que o lugar do povo é nas pipocas, nos fundos das arquibancadas ou assistindo-os via satélite.
Nos sambódromos e nos trios, nos telejornais e nas revistas, o povo, a música e a folia serviram de coadjuvantes para o exibicionismo de celebridades vazias na forma e no conteúdo. E o samba das escolas, cada vez menos melódico, agoniza na avenida do luxo e dos efeitos especiais. Adeus batucada! Adeus Cartola e Ismael! O rio que passou na vida de Paulinho da Viola desaguou no mar da felicidade artificial e da alegria padronizada poluído pelo lixo da indústria cultural.
Resumindo: o carnaval foi igual ao resto do ano. Opressores, exibindo seus status, suas marcas e produtos, sua falsa cultura e seu vazio, de um lado e oprimidos, sonhando ocupar o lugar dos opressores e figurar lado a lado com eles (até quando?) de outro. Pelas ruas o que se viu foi uma gente que nem se viu, que nem se sorriu, se beijou e se abraçou. Com seus preceitos apolíneos, o carnaval pouco se parece com as festas dionisíacas (festas em louvor ao libertário (e banido) deus Dionísio) que lhe deram origem.
A kizomba de Martinho não é a nossa constituição, atrás do trio elétrico só vai quem paga caro pelo abadá e as mulatas hoje negam seus cabelos. Quando rola a festa, o povo do gueto fica de fora. No grande latifúndio chamado Brasil, o carnaval é uma festa para o povo assistir.
Entretanto, nas ruas de Pernambuco, a embriaguez do frevo, os maracatus e os palcos de seu carnaval plurirítmico varreram com suas vassourinhas os cordões de isolamento, camarotes e lobbys, sob a benção de Naná Vasconcelos e Alceu Valença, mantendo um facho de esperança (“ mais que nunca é preciso sonhar”) de que a vida ainda pode ser bem melhor. Resta saber por quanto tempo essa folia democrática resistirá aos apelos do status quo...
A cada ano mais distante da ofegante epidemia que o jovem Buarque queria ver passar na avenida, o carnaval mais uma vez ficou bem distante do povo.
Povo que trabalhou, e muito, nos quatro dias de folias. Nos hipermercados, shopping centers, praias, hotéis e restaurantes estavam a postos todos os caixas, empacotadores, balconistas, recepcionistas, recreacionistas, garçons, ambulantes (os que ainda resistem) e funcionários temporários (dando tudo de si para conseguirem a graça de serem efetivados) que ao invés da folia labutaram com resignação e cansaço para melhor atenderem aos clientes de seus patrões.
Nos bairros e nas cidades pequenas, alguns populares tiveram a oportunidade de cair na folia. Seguindo a risca os mandamentos (não sei como alguma editora ainda não lançou o “Manual do folião”!), os pobres trios tocavam as músicas instituídas como sendo de carnaval e os foliões se divertiam conforme a regra: pulando, com as mãos para cima e tirando o pezinho do chão.
Enquanto isso, as emissoras de TV apresentavam os milionários trios da Bahia e as fantásticas escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo com suas celebridades (?) exibindo os padrões de beleza e conduta adequados à festa. E, como não poderia deixar de ser, ensinando ao povo que o carnaval “de verdade”, como tudo no nosso País, é um privilegio que cabe aos escolhidos e que o lugar do povo é nas pipocas, nos fundos das arquibancadas ou assistindo-os via satélite.
Nos sambódromos e nos trios, nos telejornais e nas revistas, o povo, a música e a folia serviram de coadjuvantes para o exibicionismo de celebridades vazias na forma e no conteúdo. E o samba das escolas, cada vez menos melódico, agoniza na avenida do luxo e dos efeitos especiais. Adeus batucada! Adeus Cartola e Ismael! O rio que passou na vida de Paulinho da Viola desaguou no mar da felicidade artificial e da alegria padronizada poluído pelo lixo da indústria cultural.
Resumindo: o carnaval foi igual ao resto do ano. Opressores, exibindo seus status, suas marcas e produtos, sua falsa cultura e seu vazio, de um lado e oprimidos, sonhando ocupar o lugar dos opressores e figurar lado a lado com eles (até quando?) de outro. Pelas ruas o que se viu foi uma gente que nem se viu, que nem se sorriu, se beijou e se abraçou. Com seus preceitos apolíneos, o carnaval pouco se parece com as festas dionisíacas (festas em louvor ao libertário (e banido) deus Dionísio) que lhe deram origem.
A kizomba de Martinho não é a nossa constituição, atrás do trio elétrico só vai quem paga caro pelo abadá e as mulatas hoje negam seus cabelos. Quando rola a festa, o povo do gueto fica de fora. No grande latifúndio chamado Brasil, o carnaval é uma festa para o povo assistir.
Entretanto, nas ruas de Pernambuco, a embriaguez do frevo, os maracatus e os palcos de seu carnaval plurirítmico varreram com suas vassourinhas os cordões de isolamento, camarotes e lobbys, sob a benção de Naná Vasconcelos e Alceu Valença, mantendo um facho de esperança (“ mais que nunca é preciso sonhar”) de que a vida ainda pode ser bem melhor. Resta saber por quanto tempo essa folia democrática resistirá aos apelos do status quo...
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
PASSAGEM
O homem passou sozinho. Eu nunca soube seu nome e nem sua história. Tudo que sei é que os seus cabelos são brancos, não me perguntem por quais caminhos eles embranqueceram, há mais de dez anos e que todas as tardes ele passeava com a filha.
O homem e a menina passeavam juntos todas as tardes. Um oásis de amor nos tempos da glacial corrida neoliberal. Quando a menina estava uniformizada, o homem carregava sua mochila e ouvia com atenção suas estórias colegiais, de vez em quando opinava sobre algo, mas na maioria das vezes a palavra estava com a filha. Durante a noite, provavelmente, faziam lições, nas quais o pai ensinava e aprendia com a criança.
Nos dias chuvosos, dividiam o mesmo guarda-chuva, depois ela apareceu com um, menor e mais colorido que o do pai ; nas tardes ensolaradas tomavam sorvete ou um refrigerante na padaria. Quase sempre o refrigerante era o mais barato, desses que alguns classificam de refrigereco, mas para a menina não fazia diferença, mais importante que qualquer marca era a companhia do pai. Nas tardes de outono e primavera, os dois podiam ser vistos comprando sonhos do vendedor ambulante (Ah! Os carrinhos de sonho! Suas buzinas, seus vendedores. Até quando irão resistir ao domínio das corporações?). A menina saboreava e se lambuzava de açúcar e creme enquanto o pai trocava algumas palavras com o vendedor – o resultado do futebol, a beleza da tarde, o aroma dos doces ou coisas do tipo – e depois voltavam aos seus assuntos, suas observações sobre o bairro, as flores (Perdoem-me a inverossimilhança, mas no bairro, ainda havia algumas casas com jardins e flores naquele tempo), a vida dos animais e os acontecimentos da aula.
E agora, o homem passa sozinho. Onde estará a filha? É isso que me inquieta. O homem passou sozinho e se eu não o tivesse visto talvez eles ficassem guardados em um canto da minha memória e o meu consciente julgá-los-ia esquecidos. Mas, eu o vi. E sozinho.
Será que a menina hoje amamenta uma outra menina que caminhará com ela pelas tardes ensinando-lhe a vida do mesmo jeito que ela um dia ensinou ao pai de cabelos brancos? Será que está numa maternidade esperando apenas o pai chegar para dar a luz a um menino com o nome do avô?
Quem vê o homem passar não enxerga as esperanças e satisfações que ele carrega.
Ou terá a filha engravidado contra a vontade paterna e ele ao encontrar um conhecido em qualquer esquina maldirá a filha, esquecendo-se de toda a ternura daquelas tardes? Ou será a filha, que tendo crescido por caminhos contraditórios, hoje maldiz o pai? Talvez estejam brigados e o pequeno motivo (uma vaga na garagem, uma festa fora de hora ou uma palavra mal colocada) tem, hoje, mais peso que a lembrança dos dias de sonhos e lições. Talvez ela em casa cuide da mãe, sempre doente, enquanto o pai corre à farmácia em busca do mesmo medicamento que há anos mantém viva a trindade.
Quem vê o homem passando não enxerga o destino que o contorna.
Talvez o homem caminhe enquanto a filha amarga a falta de oportunidade nas filas de emprego ou, quem sabe, esteja recebendo uma promoção no emprego que o pai conseguiu pra ela pela indicação de um velho amigo. Estará a jovem moça a alguns anos de revolucionar as artes, a engenharia genética, a arquitetura ou a geopolítica com idéias que nasceram das inocentes conversas dos passeios vespertinos com o pai? Ou, esquecida dos sonhos da infância, desperdiça sua beleza e ternura, se esbaldando na artificialidade dos supérfluos globais? Ou será que, cansada da falta de oportunidades e sem enxergar uma perspectiva socialmente digna, decidiu emigrar e tudo que o velho pai tem como companhia são cartas (provavelmente, e-mails) em que ela reafirma o seu amor e jura que volta assim que o pé-de-meia garantir o futuro? Ou terá sido vítima da violência urbana e hoje more só no pensamento ou então no firmamento ("pode ser a Estrela D'Alva que daqui se olha") e assim todas as tardes têm para o homem o cheiro de uma vida que passou?
Quem vê o homem passando não enxerga as saudades que ele cultiva.
Tudo pode ter corrido simples e a moça está na mesma casa dormindo na mesma cama e só não veio com o pai porque preferiu ficar na sua janela virtual esperando um príncipe que tecle para ela. Pode ser que apaixonada passeie de mãos dadas com um rapaz de cabelos negros com quem divide sonhos e compartilha seu entardecer. Os dois namorados caminham, ternos como a simplicidade que exalam, e ela conta-lhe coisas da sua vida, segredos que seu pai não alcançou e delírios que são só deles dois.
E quem vê a mulher passando não enxerga a menina que um dia ela foi.
O homem e a menina passeavam juntos todas as tardes. Um oásis de amor nos tempos da glacial corrida neoliberal. Quando a menina estava uniformizada, o homem carregava sua mochila e ouvia com atenção suas estórias colegiais, de vez em quando opinava sobre algo, mas na maioria das vezes a palavra estava com a filha. Durante a noite, provavelmente, faziam lições, nas quais o pai ensinava e aprendia com a criança.
Nos dias chuvosos, dividiam o mesmo guarda-chuva, depois ela apareceu com um, menor e mais colorido que o do pai ; nas tardes ensolaradas tomavam sorvete ou um refrigerante na padaria. Quase sempre o refrigerante era o mais barato, desses que alguns classificam de refrigereco, mas para a menina não fazia diferença, mais importante que qualquer marca era a companhia do pai. Nas tardes de outono e primavera, os dois podiam ser vistos comprando sonhos do vendedor ambulante (Ah! Os carrinhos de sonho! Suas buzinas, seus vendedores. Até quando irão resistir ao domínio das corporações?). A menina saboreava e se lambuzava de açúcar e creme enquanto o pai trocava algumas palavras com o vendedor – o resultado do futebol, a beleza da tarde, o aroma dos doces ou coisas do tipo – e depois voltavam aos seus assuntos, suas observações sobre o bairro, as flores (Perdoem-me a inverossimilhança, mas no bairro, ainda havia algumas casas com jardins e flores naquele tempo), a vida dos animais e os acontecimentos da aula.
E agora, o homem passa sozinho. Onde estará a filha? É isso que me inquieta. O homem passou sozinho e se eu não o tivesse visto talvez eles ficassem guardados em um canto da minha memória e o meu consciente julgá-los-ia esquecidos. Mas, eu o vi. E sozinho.
Será que a menina hoje amamenta uma outra menina que caminhará com ela pelas tardes ensinando-lhe a vida do mesmo jeito que ela um dia ensinou ao pai de cabelos brancos? Será que está numa maternidade esperando apenas o pai chegar para dar a luz a um menino com o nome do avô?
Quem vê o homem passar não enxerga as esperanças e satisfações que ele carrega.
Ou terá a filha engravidado contra a vontade paterna e ele ao encontrar um conhecido em qualquer esquina maldirá a filha, esquecendo-se de toda a ternura daquelas tardes? Ou será a filha, que tendo crescido por caminhos contraditórios, hoje maldiz o pai? Talvez estejam brigados e o pequeno motivo (uma vaga na garagem, uma festa fora de hora ou uma palavra mal colocada) tem, hoje, mais peso que a lembrança dos dias de sonhos e lições. Talvez ela em casa cuide da mãe, sempre doente, enquanto o pai corre à farmácia em busca do mesmo medicamento que há anos mantém viva a trindade.
Quem vê o homem passando não enxerga o destino que o contorna.
Talvez o homem caminhe enquanto a filha amarga a falta de oportunidade nas filas de emprego ou, quem sabe, esteja recebendo uma promoção no emprego que o pai conseguiu pra ela pela indicação de um velho amigo. Estará a jovem moça a alguns anos de revolucionar as artes, a engenharia genética, a arquitetura ou a geopolítica com idéias que nasceram das inocentes conversas dos passeios vespertinos com o pai? Ou, esquecida dos sonhos da infância, desperdiça sua beleza e ternura, se esbaldando na artificialidade dos supérfluos globais? Ou será que, cansada da falta de oportunidades e sem enxergar uma perspectiva socialmente digna, decidiu emigrar e tudo que o velho pai tem como companhia são cartas (provavelmente, e-mails) em que ela reafirma o seu amor e jura que volta assim que o pé-de-meia garantir o futuro? Ou terá sido vítima da violência urbana e hoje more só no pensamento ou então no firmamento ("pode ser a Estrela D'Alva que daqui se olha") e assim todas as tardes têm para o homem o cheiro de uma vida que passou?
Quem vê o homem passando não enxerga as saudades que ele cultiva.
Tudo pode ter corrido simples e a moça está na mesma casa dormindo na mesma cama e só não veio com o pai porque preferiu ficar na sua janela virtual esperando um príncipe que tecle para ela. Pode ser que apaixonada passeie de mãos dadas com um rapaz de cabelos negros com quem divide sonhos e compartilha seu entardecer. Os dois namorados caminham, ternos como a simplicidade que exalam, e ela conta-lhe coisas da sua vida, segredos que seu pai não alcançou e delírios que são só deles dois.
E quem vê a mulher passando não enxerga a menina que um dia ela foi.
OUTRAS PALAVRAS
"A brincadeira acabou" e "A Madonna lavou minhas meias" são dois blogs de jovens pensadores que apesar de toda a propaganda contra o pensamento e a reflexão insistem neste cultivo.
Vale a pena!
http://abrincadeiraacabou.blogspot.com/
http://www.a-madonna-lavou-minhas-meias.blogspot.com/
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
DÍVIDA
O enterro foi triste à medida que todos são. Alguns choram o morto, e esses não eram muitos, e outros (no caso a maioria) choram o fim cada vez mais próximo de si mesmos. É nos enterros que a vida desnuda-se, nesses momentos a contagem regressiva vem à mente daqueles que não sofrem a perda. Aos sofredores, ela revela-se absurda: “Pra que tanto?”, perguntam-se ao perceberem que Deus, ou a própria vida, não respeita planos. O consolo dos crédulos é uma outra existência, uma felicidade eterna, uma punição merecida, um encontro futuro, um céu, uma colônia, um paraíso, um juízo final ou coisa que os valha.Mas, deixemos de lado as elucubrações e vamos aos fatos:
O enterro tratado aqui é do milionário Orlando Stewart. Filho do respeitável George Stewart, alto funcionário da indústria ferroviária que fez fortuna na compra e venda de terras. Corre pelas ruas de Lotolândia, cidade onde a família Stewart se estabeleceu e que a viu enriquecer, que o velho George, possuidor do segredo da localidade da construção das linhas ferroviárias, comprava terras por uma bagatela para vender, depois dos trilhos colocados, por uma quantia muito maior; dizem até que ele não agia sozinho e que muita gente participava dos lucros e que o negócio das terras era apenas um dos vários em que a família se envolveu, mas como em Lotolândia ninguém sabe o que é verdade e o que é intriga da oposição, oficialmente o Sr. George Stewart é o grande empreendedor que a lápide de seu busto na praça central da cidade diz ser. O certo é que o jovem Orlando recebeu de herança uma quantia muito maior que seu pai possuía quando chegou ao país.
Assim que se viu milionário com pouco mais de vinte anos de idade, o rapaz decidiu “ganhar o mundo”. Proferiu impropérios contra a cidade, chamou os habitantes de provincianos e declarou que aquele lugar não dava futuro e quem ficasse ali não sairia nunca do buraco. No que dependesse das possibilidades dos habitantes, principalmente os nativos da terra, fazerem transações como as do pai dele com certeza eles continuariam no buraco. Afinal, os privilégios assim como os infortúnios são hereditários em Lotolândia, mas o que importa é que, poucos meses depois do enterro do pai, o jovem se mandou para a Europa. Não sem antes deixar um filho dele na barriga da professora primária Lívia.
Enquanto Orlando assistia, totalmente chapado de L.S.D e maconha., aos shows dos Yarbirds, The Who, David Bowie e outros no Marquee Club em Londres e montava uma banda de rock em Oxford e bebia até cair nas festas no Bairro Latino e passava as tardes fumando e planejando a festa da próxima noite sentado no Café de Flore em Paris e pensava em suicídio ao ser trocado por uma namorada em Amsterdã e quase acabava com o estoque de heroína de Liverpool e fazia sexo com todas as prostitutas de Hamburgo, Lívia educava seu filho Cláudio com todo o sacrifício e força que requer uma ação desse tipo num lugar como Lotolândia. Com o parco salário da profissão as dificuldades tornavam-se cada vez maiores. O pouco de ajuda que recebiam era da irmã Lúcia, com quem morou até esta casar e mudar para São Paulo e de alguns ardilosos cujo interesse era apenas garantir uma fatia do bolo de uma possível herança.
Quando Orlando soube da existência do filho estava morando em Nova York e faziam mais de quinze anos que ele deixara Lotolandia; quem contou foi Evelyn, filha de um proprietário amigo do velho George e que fora sua colega de classe na faculdade, “na nossa distante juventude no terceiro mundo”, assim definiram a época, que ele encontrou em um bar no East Village. Em meio a doses de Whisk e alguns picos, ela contou sobre a professora e o filho dele. Na época Orlando nem deu atenção ao assunto, tanto que quando acordaram no seu apartamento, ele já não tinha mais certeza do que conversaram na noite anterior. Foi só quando a doença (um tumor numa região delicada do cérebro) se mostrou irreversível, “apenas mais dois anos de vida, no máximo”- decretou o Dr. Waltz, que ele sentiu o significado da paternidade.
Para Cláudio, a vida pesava como um caminho mal escolhido. Ao invés de gratidão e carinho, nutria pela mãe certa aversão, culpava-a pelo seu infortúnio, por ela cair no conto de um playboy, por não saber segura-lo. Revezava os sentimentos de amor e ódio de acordo com as dificuldades apresentadas pela vida. Chegou a dizer que ela não tinha sido nem mulher para reparar o erro enquanto era tempo. Lívia, que nunca fora apaixonada por Orlando e quando engravidou propositalmente foi pensando que a fortuna do rapaz seria a alforria da sua vida de professora, às vezes também era arrastada pela raiva de ver no filho a personificação do seu fracasso. Mas, mesmo com toda a revolta, o rapaz jamais saiu de perto da mãe e nem da odiada Lotolândia. Quando Lívia faleceu, vítima de um surto de dengue, o filho, então com quase trinta anos, era secretário de Roberto do Trilho, ex-funcionário da ferrovia e, na ocasião, vereador e presidente da câmara.
Foi nessa época que Orlando decidiu voltar para a terra natal. Passado o tempo da revolta, do “por que comigo?” e da auto-piedade, a vida começou a cobrar-lhe por aquilo que ele não foi. A primeira crise, ou o início do despertar, foi quando leu sobre um jovem brasileiro que passara anos na cadeia, acusado de um crime que não cometeu porque não tinha um advogado que o defendesse. Nesse momento o Dr. Orlando, o advogado que ele negara-se a ser quando recebeu a herança, pulou da tela do computador para cobrar-lhe as causas que ele não defendeu e as injustiças que ele não impediu. O Dr. falava com uma severidade e um realismo que o deixaram atônito. Desse dia em diante, Orlando passou a ser perseguido por todos os tipos que ele negara-se a ser.
Certa vez após conversar com seu administrador (Atílio Figueira, cunhado de George que multiplicava a fortuna em especulações), Orlando se viu entrando pela porta com um ar de desprezo. Enquanto seu negativo olhava a decoração do apartamento, se apresentava como Orlando Stewart “o revolucionário de Lotolândia”. Contou-lhe que com a herança que recebera, subvertera o poder local; criara centros de educação e auxiliara e investira nas causas da população. Contou-lhe ainda que sua filha Geórgia e seu filho Cláudio davam continuidade à revolução, que ele dizia ser permanente e que estava satisfeito em saber que após sua morte, ainda permaneceria vivo nos seus filhos e na sociedade que ajudou a criar. Orlando viu o noticiário mudar e ao invés de um documentário sobre a fome no terceiro mundo, a emissora exibia a história da revolução em Lotolândia e seus exemplos por todo o mundo, além de uma biografia do corajoso e heróico Orlando Stewart. Desligou a TV e foi dormir sobressaltado.
No dia seguinte, enquanto esperava para ser atendido pelo Dr. Waltz, viu-se vestido de médico. Desviou o olhar para a revista para evitar mais uma alucinação e se deparou com uma matéria sobre o médico brasileiro que aplicou quase toda a fortuna da família na colaboração de pesquisas e estudos para o avanço da medicina. O texto ainda revelava que, ironicamente, uma das descobertas feitas pelo Dr. Traria a cura de sua própria doença. O nome do tão aclamado médico era Orlando Stewart.
E foi nesse estado de colapso que ele, que sempre se disse inglês, assumiu Lotolândia como sua terra natal e decidiu resgatar o que restava da sua essência.
O encontro com Cláudio não foi nada fácil. Apesar de sonhar com o pai como os conquistadores espanhóis sonhavam com o reino da Traplanada na Argentina, o rapaz cobrou-lhe todo o sofrimento e privação de todos aqueles anos. Trocaram poucas palavras durante os dois meses que Orlando viveu por ali depois de sua volta. Sabendo que sua herança estava garantida, não via razões para um contato com o pai moribundo.
Contudo, o que mais incomodou o magnata na sua volta à cidade natal foi percebê-la exatamente igual ao dia em que ele foi embora. Ela em nada se parecia com aquela que o seu “negativo revolucionário” lhe narrara e que ele viu no tal documentário. As terras continuavam nas mãos da meia-dúzia de herdeiros dos parceiros do velho George, enquanto a população ou era obrigada a subsistir ou tinha que migrar em busca de oportunidades. Aquele cenário provocava a presença quase que constante do revolucionário ao seu lado lembrando-lhe como poderiam ser as coisas. Contando-lhe como a sua morte poderia ser gloriosa e o quanto ele poderia ter sido importante àquela cidade e feliz. Sobretudo, o quanto ele poderia ter sido feliz.
O enterro de Orlando, que acompanhávamos no início, deu-se oito meses depois do diagnóstico, talvez o Dr.Waltz não contasse com a carga de remorso que aquele corpo doente ainda acarretaria ou então quis deixar seu paciente morrer com alguma perspectiva de futuro, e, como sabemos, numeroso foi o cortejo, mas poucas as lágrimas pelo falecido. Digo poucas para não dizer nenhuma, afinal alguém deveria estar sendo sincero.
Durante a leitura do testamento, além de quase toda a sua fortuna (Orlando doou um dinheiro para a prefeitura construir um colégio e um hospital e comprou algumas terras para distribuir para famílias sem-terra), o pai deixou uma carta para o herdeiro:
“Dear Cláudio,
Esta carta chegara às suas mãos quando eu estiver sendo jantado pela terra. Não quero fazer aqui um relatório de meus erros nem falar sobre o quanto você se tornou importante para mim. Seria mentira.
Desde que soube que morreria logo, acredite, eu sempre achei que morreria bem velho, bem depois, houve épocas da minha vida que eu talvez tivesse até deixado de acreditar na morte ou esquecido dela, sei lá. Mas desde que eu soube que morreria breve, eu não consigo andar pelas ruas sem me deparar comigo mesmo às avessas. Na época da faculdade, ou do vestibular, ou antes, lembro-me de ter lido em um jornal, ou será que alguém me contou?, um texto em que o autor andando nas ruas se deparava com ele mais moço nos mesmos lugares, pois comigo acontece o contrário. Cada vez que passo pelas ruas vejo o advogado que poderia ter sido e em cada pessoa que me cumprimenta vislumbro uma causa que poderia ter ganho. Ele me diz que poderia ter sido brilhante, pois diferentemente de muitos, não precisaria se sustentar do ofício. Vejo os empregos que não gerei, as aulas que não dei, o ensino que não propaguei e as possibilidades que eu tive de circular um dinheiro e que decidi concentrar somente comigo e com os poucos que se aproveitaram dele em causa própria. Pra que? Pra terminar escrevendo uma carta como esta? Sei que no meu velório você vai ouvir frases do tipo, esse aí viveu! Absurdité. Muito pior que o mal que eu fiz é o bem que eu não causei.
Cada vez que um amigo de juventude vem me visitar, vejo na felicidade dele a vida que eu não soube construir. Quando vejo nos noticiários toda essa desgraça, eu sei e não adiante ninguém tentar me dizer o contrário, que eu poderia ter amenizado tudo isso. E eu assisto aos filmes que eu não produzi, percebo a arte que eu não propaguei. Quando eu olho o lixo que é alguns bairros da Lotolândia, cada pessoa que vive naquele esgoto deve a mim, e eu espero que você reverta esta dívida, boa parte da sua miséria.
Não quero compaixão nem piedade. Quero apenas evitar que o mal prossiga. É a última coisa que eu tenho a oferecer ao mundo que me levou consigo e do qual eu só gozei.
Eu estive por toda a Europa e por toda a América e hoje me sinto como se nunca tivesse saído de Lotolândia. And why? Porque eu nunca olhei o mundo. Eu só fui descobrir que o mundo não era a minha cabeça há pouco tempo. O que eu vi foram ruas, pontos turísticos e possibilidades de romances, sexo, diversões e bate-papos, mas as pessoas eu não vi. Vejo-as agora quando me encaro no negativo, neste espelho às avessas que só reflete os tipos que eu não fui.
Mais do que este dinheiro, eu te deixo a minha triste experiência e talvez seja só por ela, na esperança de que as tuas privações anteriores te façam dar um melhor destino a esse dinheiro que nunca foi nosso, que eu tenha voltado para te dar essa herança.
Orlando Stewart”
Hoje, anos depois de receber a carta (e a herança), Cláudio S. Stewart é sócio de uma indústria química, que vem sendo acusada de arrasar ainda mais a modesta qualidade de vida da região. Também é dono de uma emissora de TV, um canal de rádio e um jornal impresso, cuja maior utilidade é eleger os candidatos que trabalham para o empresário, que segundo o senso comum, tem o espírito empreendedor do avô. Seu próximo projeto é a construção de um grande shopping center no coração da Lotolândia.
Caso um dia, atormentado, ele decida escrever uma carta-testamento para seu herdeiro, prometo transcrevê-la com a mesma fidelidade.
O enterro tratado aqui é do milionário Orlando Stewart. Filho do respeitável George Stewart, alto funcionário da indústria ferroviária que fez fortuna na compra e venda de terras. Corre pelas ruas de Lotolândia, cidade onde a família Stewart se estabeleceu e que a viu enriquecer, que o velho George, possuidor do segredo da localidade da construção das linhas ferroviárias, comprava terras por uma bagatela para vender, depois dos trilhos colocados, por uma quantia muito maior; dizem até que ele não agia sozinho e que muita gente participava dos lucros e que o negócio das terras era apenas um dos vários em que a família se envolveu, mas como em Lotolândia ninguém sabe o que é verdade e o que é intriga da oposição, oficialmente o Sr. George Stewart é o grande empreendedor que a lápide de seu busto na praça central da cidade diz ser. O certo é que o jovem Orlando recebeu de herança uma quantia muito maior que seu pai possuía quando chegou ao país.
Assim que se viu milionário com pouco mais de vinte anos de idade, o rapaz decidiu “ganhar o mundo”. Proferiu impropérios contra a cidade, chamou os habitantes de provincianos e declarou que aquele lugar não dava futuro e quem ficasse ali não sairia nunca do buraco. No que dependesse das possibilidades dos habitantes, principalmente os nativos da terra, fazerem transações como as do pai dele com certeza eles continuariam no buraco. Afinal, os privilégios assim como os infortúnios são hereditários em Lotolândia, mas o que importa é que, poucos meses depois do enterro do pai, o jovem se mandou para a Europa. Não sem antes deixar um filho dele na barriga da professora primária Lívia.
Enquanto Orlando assistia, totalmente chapado de L.S.D e maconha., aos shows dos Yarbirds, The Who, David Bowie e outros no Marquee Club em Londres e montava uma banda de rock em Oxford e bebia até cair nas festas no Bairro Latino e passava as tardes fumando e planejando a festa da próxima noite sentado no Café de Flore em Paris e pensava em suicídio ao ser trocado por uma namorada em Amsterdã e quase acabava com o estoque de heroína de Liverpool e fazia sexo com todas as prostitutas de Hamburgo, Lívia educava seu filho Cláudio com todo o sacrifício e força que requer uma ação desse tipo num lugar como Lotolândia. Com o parco salário da profissão as dificuldades tornavam-se cada vez maiores. O pouco de ajuda que recebiam era da irmã Lúcia, com quem morou até esta casar e mudar para São Paulo e de alguns ardilosos cujo interesse era apenas garantir uma fatia do bolo de uma possível herança.
Quando Orlando soube da existência do filho estava morando em Nova York e faziam mais de quinze anos que ele deixara Lotolandia; quem contou foi Evelyn, filha de um proprietário amigo do velho George e que fora sua colega de classe na faculdade, “na nossa distante juventude no terceiro mundo”, assim definiram a época, que ele encontrou em um bar no East Village. Em meio a doses de Whisk e alguns picos, ela contou sobre a professora e o filho dele. Na época Orlando nem deu atenção ao assunto, tanto que quando acordaram no seu apartamento, ele já não tinha mais certeza do que conversaram na noite anterior. Foi só quando a doença (um tumor numa região delicada do cérebro) se mostrou irreversível, “apenas mais dois anos de vida, no máximo”- decretou o Dr. Waltz, que ele sentiu o significado da paternidade.
Para Cláudio, a vida pesava como um caminho mal escolhido. Ao invés de gratidão e carinho, nutria pela mãe certa aversão, culpava-a pelo seu infortúnio, por ela cair no conto de um playboy, por não saber segura-lo. Revezava os sentimentos de amor e ódio de acordo com as dificuldades apresentadas pela vida. Chegou a dizer que ela não tinha sido nem mulher para reparar o erro enquanto era tempo. Lívia, que nunca fora apaixonada por Orlando e quando engravidou propositalmente foi pensando que a fortuna do rapaz seria a alforria da sua vida de professora, às vezes também era arrastada pela raiva de ver no filho a personificação do seu fracasso. Mas, mesmo com toda a revolta, o rapaz jamais saiu de perto da mãe e nem da odiada Lotolândia. Quando Lívia faleceu, vítima de um surto de dengue, o filho, então com quase trinta anos, era secretário de Roberto do Trilho, ex-funcionário da ferrovia e, na ocasião, vereador e presidente da câmara.
Foi nessa época que Orlando decidiu voltar para a terra natal. Passado o tempo da revolta, do “por que comigo?” e da auto-piedade, a vida começou a cobrar-lhe por aquilo que ele não foi. A primeira crise, ou o início do despertar, foi quando leu sobre um jovem brasileiro que passara anos na cadeia, acusado de um crime que não cometeu porque não tinha um advogado que o defendesse. Nesse momento o Dr. Orlando, o advogado que ele negara-se a ser quando recebeu a herança, pulou da tela do computador para cobrar-lhe as causas que ele não defendeu e as injustiças que ele não impediu. O Dr. falava com uma severidade e um realismo que o deixaram atônito. Desse dia em diante, Orlando passou a ser perseguido por todos os tipos que ele negara-se a ser.
Certa vez após conversar com seu administrador (Atílio Figueira, cunhado de George que multiplicava a fortuna em especulações), Orlando se viu entrando pela porta com um ar de desprezo. Enquanto seu negativo olhava a decoração do apartamento, se apresentava como Orlando Stewart “o revolucionário de Lotolândia”. Contou-lhe que com a herança que recebera, subvertera o poder local; criara centros de educação e auxiliara e investira nas causas da população. Contou-lhe ainda que sua filha Geórgia e seu filho Cláudio davam continuidade à revolução, que ele dizia ser permanente e que estava satisfeito em saber que após sua morte, ainda permaneceria vivo nos seus filhos e na sociedade que ajudou a criar. Orlando viu o noticiário mudar e ao invés de um documentário sobre a fome no terceiro mundo, a emissora exibia a história da revolução em Lotolândia e seus exemplos por todo o mundo, além de uma biografia do corajoso e heróico Orlando Stewart. Desligou a TV e foi dormir sobressaltado.
No dia seguinte, enquanto esperava para ser atendido pelo Dr. Waltz, viu-se vestido de médico. Desviou o olhar para a revista para evitar mais uma alucinação e se deparou com uma matéria sobre o médico brasileiro que aplicou quase toda a fortuna da família na colaboração de pesquisas e estudos para o avanço da medicina. O texto ainda revelava que, ironicamente, uma das descobertas feitas pelo Dr. Traria a cura de sua própria doença. O nome do tão aclamado médico era Orlando Stewart.
E foi nesse estado de colapso que ele, que sempre se disse inglês, assumiu Lotolândia como sua terra natal e decidiu resgatar o que restava da sua essência.
O encontro com Cláudio não foi nada fácil. Apesar de sonhar com o pai como os conquistadores espanhóis sonhavam com o reino da Traplanada na Argentina, o rapaz cobrou-lhe todo o sofrimento e privação de todos aqueles anos. Trocaram poucas palavras durante os dois meses que Orlando viveu por ali depois de sua volta. Sabendo que sua herança estava garantida, não via razões para um contato com o pai moribundo.
Contudo, o que mais incomodou o magnata na sua volta à cidade natal foi percebê-la exatamente igual ao dia em que ele foi embora. Ela em nada se parecia com aquela que o seu “negativo revolucionário” lhe narrara e que ele viu no tal documentário. As terras continuavam nas mãos da meia-dúzia de herdeiros dos parceiros do velho George, enquanto a população ou era obrigada a subsistir ou tinha que migrar em busca de oportunidades. Aquele cenário provocava a presença quase que constante do revolucionário ao seu lado lembrando-lhe como poderiam ser as coisas. Contando-lhe como a sua morte poderia ser gloriosa e o quanto ele poderia ter sido importante àquela cidade e feliz. Sobretudo, o quanto ele poderia ter sido feliz.
O enterro de Orlando, que acompanhávamos no início, deu-se oito meses depois do diagnóstico, talvez o Dr.Waltz não contasse com a carga de remorso que aquele corpo doente ainda acarretaria ou então quis deixar seu paciente morrer com alguma perspectiva de futuro, e, como sabemos, numeroso foi o cortejo, mas poucas as lágrimas pelo falecido. Digo poucas para não dizer nenhuma, afinal alguém deveria estar sendo sincero.
Durante a leitura do testamento, além de quase toda a sua fortuna (Orlando doou um dinheiro para a prefeitura construir um colégio e um hospital e comprou algumas terras para distribuir para famílias sem-terra), o pai deixou uma carta para o herdeiro:
“Dear Cláudio,
Esta carta chegara às suas mãos quando eu estiver sendo jantado pela terra. Não quero fazer aqui um relatório de meus erros nem falar sobre o quanto você se tornou importante para mim. Seria mentira.
Desde que soube que morreria logo, acredite, eu sempre achei que morreria bem velho, bem depois, houve épocas da minha vida que eu talvez tivesse até deixado de acreditar na morte ou esquecido dela, sei lá. Mas desde que eu soube que morreria breve, eu não consigo andar pelas ruas sem me deparar comigo mesmo às avessas. Na época da faculdade, ou do vestibular, ou antes, lembro-me de ter lido em um jornal, ou será que alguém me contou?, um texto em que o autor andando nas ruas se deparava com ele mais moço nos mesmos lugares, pois comigo acontece o contrário. Cada vez que passo pelas ruas vejo o advogado que poderia ter sido e em cada pessoa que me cumprimenta vislumbro uma causa que poderia ter ganho. Ele me diz que poderia ter sido brilhante, pois diferentemente de muitos, não precisaria se sustentar do ofício. Vejo os empregos que não gerei, as aulas que não dei, o ensino que não propaguei e as possibilidades que eu tive de circular um dinheiro e que decidi concentrar somente comigo e com os poucos que se aproveitaram dele em causa própria. Pra que? Pra terminar escrevendo uma carta como esta? Sei que no meu velório você vai ouvir frases do tipo, esse aí viveu! Absurdité. Muito pior que o mal que eu fiz é o bem que eu não causei.
Cada vez que um amigo de juventude vem me visitar, vejo na felicidade dele a vida que eu não soube construir. Quando vejo nos noticiários toda essa desgraça, eu sei e não adiante ninguém tentar me dizer o contrário, que eu poderia ter amenizado tudo isso. E eu assisto aos filmes que eu não produzi, percebo a arte que eu não propaguei. Quando eu olho o lixo que é alguns bairros da Lotolândia, cada pessoa que vive naquele esgoto deve a mim, e eu espero que você reverta esta dívida, boa parte da sua miséria.
Não quero compaixão nem piedade. Quero apenas evitar que o mal prossiga. É a última coisa que eu tenho a oferecer ao mundo que me levou consigo e do qual eu só gozei.
Eu estive por toda a Europa e por toda a América e hoje me sinto como se nunca tivesse saído de Lotolândia. And why? Porque eu nunca olhei o mundo. Eu só fui descobrir que o mundo não era a minha cabeça há pouco tempo. O que eu vi foram ruas, pontos turísticos e possibilidades de romances, sexo, diversões e bate-papos, mas as pessoas eu não vi. Vejo-as agora quando me encaro no negativo, neste espelho às avessas que só reflete os tipos que eu não fui.
Mais do que este dinheiro, eu te deixo a minha triste experiência e talvez seja só por ela, na esperança de que as tuas privações anteriores te façam dar um melhor destino a esse dinheiro que nunca foi nosso, que eu tenha voltado para te dar essa herança.
Orlando Stewart”
Hoje, anos depois de receber a carta (e a herança), Cláudio S. Stewart é sócio de uma indústria química, que vem sendo acusada de arrasar ainda mais a modesta qualidade de vida da região. Também é dono de uma emissora de TV, um canal de rádio e um jornal impresso, cuja maior utilidade é eleger os candidatos que trabalham para o empresário, que segundo o senso comum, tem o espírito empreendedor do avô. Seu próximo projeto é a construção de um grande shopping center no coração da Lotolândia.
Caso um dia, atormentado, ele decida escrever uma carta-testamento para seu herdeiro, prometo transcrevê-la com a mesma fidelidade.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
MUITO NATURAL
“Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção”, o conselho dado por Caetano Veloso em “Língua”, serve como exemplo do amor do povo brasileiro pela música.
Que País possui uma variedade tão grande de estilos e ritmos? E em que outro ela está tão presente no cotidiano?
A vida do brasileiro possui trilha sonora. Depois da efervescente “era do rádio”, a nossa época de ouro, não há momento da nossa História que não tenha uma música que o marque. Da eleição de Vargas ao enterro de Juscelino; do Golpe “militar” ao movimento pelas diretas; da Copa de 58 ao penta de 2002; tudo tem a sua trilha, tudo é representado por alguma canção.
O Brasil do mangue beat e da timbalada; dos choros, cirandas, marchinhas, frevos, cocos, baiões, partidos-alto, maracatus atômicos e bossas sempre novas. Do Abril pro Rock e do Free Jazz. Do Bumbódromo e do Sambódromo. Das batidas urbanas e da batida perfeita. O Brasil tropicalista. Um caldeirão de influências, tendências e - por que não? - idéias incríveis.
“Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.” (Oswald de Andrade/Manifesto antropófago).
É na mistura de ritmos, na modernista antropofagia musical que revelamos a nossa identidade, que mostramos a nossa cara. Um País mestiço com uma música mestiça. O mundo inteiro está na música popular brasileira, assim como nas nossas cidades. Mas, essa absorção não resulta em confusão, ela fabrica a unidade. Uma singularidade que aproxima e distingue. Não é européia, nem oriental, nem africana e nem de nenhum outro lugar da América: é brasileira. Sem siglas nem chauvinismo.
Como definiu Mario de Andrade, a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça (entenda-se, o povo brasileiro).
“Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português.” (Noel Rosa/ Não tem tradução).
E mesmo com todas as tentativas torna-la caricata ou deprecia-la, ela resiste nas pontes de Pernambuco, nas vitrines do Rio, nas chalanas do Mato Grosso, nos manos de São Paulo, nos clubes e esquinas de Minas, nas praças da Bahia, nos uirapurus da Amazônia. Do Oiapoque ao Chuí, é a música que sensibiliza, orienta e influencia a vida de nossa juventude. Nossa filosofia, sociologia, nossa maneira de nos vermos e ao mundo, tudo é traçado pelas nossas canções. É a música, junto com o futebol, que impede que as nossas barreiras sociais se transformem definitivamente em castas. É nela que a juventude carente de Estado e História se agarra para não submergir.
Nossa música está nos palanques e nas sociedades alternativas, nas rosas e nos serrados, nas procissões e nas torcidas organizadas, nas curvas das estradas e nos vilarejos, nas cozinhas e nas salas de recepção, em Angola e Montreux. Ela foi a grande estrela televisa na época da popularização dessa e hoje as telas de cinema, que já tiveram seu auge com os músicais, biografam nossos compositores.
É a força dessa música que faz os movimentos sociais agarrar-se aos compositores (como os estadunidenses agarram-se aos produtores de cinema) e dá a todo bom letrista o nome de poeta (Chico Buarque, Cazuza, etc.) ao mesmo tempo em que transforma grandes poetas em letristas (Vinícius de Moraes, Torquato Neto, Capinam, Cacaso e outros). Por sua espontaneidade e competência nossos músicos, e aqui é necessário destacar que não somos um país imperialista, são reconhecidos e requisitados no mundo inteiro. De Cesária Évora a Diana Krall, de Ryuch Sachamotto a David Byrne, músicos de todo o mundo não cansam de render homenagens à música brasileira e seus profissionais.
Todo brasileiro é um músico em potencial; por perceber isso é que o maestro Heitor Villa-Lobos fez tanto para que a música fosse valorizada na educação formal e chegou a dizer que todos os problemas sociais do nosso País seriam resolvidos com a formação de um grande coral. Se hoje a música não faz parte da grade de ensino dos nossos colégios, trata-se de mais uma deficiência do nosso sistema educacional.
O Brasil ama sua música. E será nas lições musicais, das harmonias dissonantes, que construiremos a melodia de nossa democracia social. Uma aquarela de diferenças que se aglutinam e formam uma unidade.
E aí então, para alegria de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Brasil merecerá o Brasil.
* Publicado também nos jornais "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4480) e "Brasileiros e brasileiras" (http://www.jornalbb.com/v_impr_fev08/pdfs/A10.pdf)
Que País possui uma variedade tão grande de estilos e ritmos? E em que outro ela está tão presente no cotidiano?
A vida do brasileiro possui trilha sonora. Depois da efervescente “era do rádio”, a nossa época de ouro, não há momento da nossa História que não tenha uma música que o marque. Da eleição de Vargas ao enterro de Juscelino; do Golpe “militar” ao movimento pelas diretas; da Copa de 58 ao penta de 2002; tudo tem a sua trilha, tudo é representado por alguma canção.
O Brasil do mangue beat e da timbalada; dos choros, cirandas, marchinhas, frevos, cocos, baiões, partidos-alto, maracatus atômicos e bossas sempre novas. Do Abril pro Rock e do Free Jazz. Do Bumbódromo e do Sambódromo. Das batidas urbanas e da batida perfeita. O Brasil tropicalista. Um caldeirão de influências, tendências e - por que não? - idéias incríveis.
“Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.” (Oswald de Andrade/Manifesto antropófago).
É na mistura de ritmos, na modernista antropofagia musical que revelamos a nossa identidade, que mostramos a nossa cara. Um País mestiço com uma música mestiça. O mundo inteiro está na música popular brasileira, assim como nas nossas cidades. Mas, essa absorção não resulta em confusão, ela fabrica a unidade. Uma singularidade que aproxima e distingue. Não é européia, nem oriental, nem africana e nem de nenhum outro lugar da América: é brasileira. Sem siglas nem chauvinismo.
Como definiu Mario de Andrade, a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça (entenda-se, o povo brasileiro).
“Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português.” (Noel Rosa/ Não tem tradução).
E mesmo com todas as tentativas torna-la caricata ou deprecia-la, ela resiste nas pontes de Pernambuco, nas vitrines do Rio, nas chalanas do Mato Grosso, nos manos de São Paulo, nos clubes e esquinas de Minas, nas praças da Bahia, nos uirapurus da Amazônia. Do Oiapoque ao Chuí, é a música que sensibiliza, orienta e influencia a vida de nossa juventude. Nossa filosofia, sociologia, nossa maneira de nos vermos e ao mundo, tudo é traçado pelas nossas canções. É a música, junto com o futebol, que impede que as nossas barreiras sociais se transformem definitivamente em castas. É nela que a juventude carente de Estado e História se agarra para não submergir.
Nossa música está nos palanques e nas sociedades alternativas, nas rosas e nos serrados, nas procissões e nas torcidas organizadas, nas curvas das estradas e nos vilarejos, nas cozinhas e nas salas de recepção, em Angola e Montreux. Ela foi a grande estrela televisa na época da popularização dessa e hoje as telas de cinema, que já tiveram seu auge com os músicais, biografam nossos compositores.
É a força dessa música que faz os movimentos sociais agarrar-se aos compositores (como os estadunidenses agarram-se aos produtores de cinema) e dá a todo bom letrista o nome de poeta (Chico Buarque, Cazuza, etc.) ao mesmo tempo em que transforma grandes poetas em letristas (Vinícius de Moraes, Torquato Neto, Capinam, Cacaso e outros). Por sua espontaneidade e competência nossos músicos, e aqui é necessário destacar que não somos um país imperialista, são reconhecidos e requisitados no mundo inteiro. De Cesária Évora a Diana Krall, de Ryuch Sachamotto a David Byrne, músicos de todo o mundo não cansam de render homenagens à música brasileira e seus profissionais.
Todo brasileiro é um músico em potencial; por perceber isso é que o maestro Heitor Villa-Lobos fez tanto para que a música fosse valorizada na educação formal e chegou a dizer que todos os problemas sociais do nosso País seriam resolvidos com a formação de um grande coral. Se hoje a música não faz parte da grade de ensino dos nossos colégios, trata-se de mais uma deficiência do nosso sistema educacional.
O Brasil ama sua música. E será nas lições musicais, das harmonias dissonantes, que construiremos a melodia de nossa democracia social. Uma aquarela de diferenças que se aglutinam e formam uma unidade.
E aí então, para alegria de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Brasil merecerá o Brasil.
* Publicado também nos jornais "Página Dois" ( http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4480) e "Brasileiros e brasileiras" (http://www.jornalbb.com/v_impr_fev08/pdfs/A10.pdf)
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