sábado, 27 de setembro de 2008

LEVE

Escrever por quê?

Pra que?

Pra quem?

Escrever é gestar,

parir,

criar,

É lançar mundos no mundo,

Libertar-se em si.

Estou preso a mim

Como a palavra está presa às letras,

Como o jogo está preso às regras,

Como a língua está presa à gramática.

Comigo sou amor, sou Glauber,

Sou Picasso, Sidarta;

Sem eu sou apenas o concreto,

O português tacanha,

O tempo e o espaço,

As limitações externas;

Preso ao indivíduo, à razão,

Como o yang está preso ao yin,

Como o fim está preso ao início,

Como Deus está preso à fé,

Mas, cada palavra que passa me liberta

E livre sou mais real, mais ar, mais vida,

Mais Cauê e Renata,

Sou mais eu.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A VIAGEM

Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad
Todo es mentira yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?
(Manu Chao/Mentira)

Eu quero morar na cidade da propaganda.

Não é a cidade retratada pelos telejornais nem a polis de Platão nem a dos sonhos de Lynch e muito menos a de cabeça pra baixo que seduziu Raul Seixas. Esse oásis de justiça social e homens públicos esforçados em servir a população que o elegeu já existe. Moramos nela e nunca nos demos conta do nosso privilégio.

Eu quero me mudar para a cidade que a propaganda diz que é a minha. A bela cidade que dizem ser a que eu moro mesmo eu não a conhecendo.

A cidade do serviço público de qualidade com seus hospitais equipados e eficazes, seus transportes eficientes, sua política justa, suas escolas paradisíacas. A cidade dos jovens informados, da massa politizada e dos Impostos cobrados com responsabilidade e usados com transparência.

Todos nós que julgamos ser essas cidades um universo paralelo, que nunca pisamos em seus solos sagrados nem nunca desfrutamos de suas benesses, é que estamos enganados. Elas existem sim. O que vemos e vivemos todos os dias, os sofrimentos e revoltas, as injustiças e indiferenças, não passam de miragem. Ilusão de nossa imaginação pessimista. Real é o que nos diz a propaganda. Prova disso é a satisfação popular que se faz presente nas urnas em todas as eleições cujos resultados contrastam gritantemente com as lamúrias e bravatas que ouvimos durante a administração de tais benfeitores.

Já não sei mais se quem vota é o eleitor ou a pesquisa, se o real é o que eu vivencio ou a que me mostram os meios de comunicação.

Só sei é que eu não vivo e nem nunca vivi nas cidades existentes nas propagandas dos candidatos a reeleição.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

CASA

Na rua há um chalé. Um único entre os espigões. Um lar em meio ao progresso.

Anacrônico? Talvez. Numa era em que basta estar fora dos moldes ditos modernos para ser considerado como tal, é bem certo que o distinto chalé seja, para os “moderninhos” moradores dos “Residencials”, um trambolho, um resquício de uma época enterrada.

E assim é. O modesto chalé está lá, carregando consigo não só uma época que passou, mas todas as que passam por ele. Embora não seja tão antigo quanto parece ser na cabeça dos filhos do progresso, não há ninguém da sua idade na tal rua. Mais velho então, nem pensar. Na sua altivez estão lembranças de seus irmãos que deixaram de existir para que outros interesses viessem à luz. E ele segue firme. Sua fachada está pintada, as janelas e o portão também. Os muros baixos, os únicos na rua das grades, alarmes e interfones, estão bem cuidados. O chalé se preserva. Mesmo ouvindo os rumores de que ali deveria estar algum outro pseudo gran fino de nome estrangeiro, ele permanece firme. Firme e asseado. Dentro dele correm vidas. Vidas que se protegeram no seu calor, vidas concebidas no seu aconchego. Vidas que se infiltraram em suas paredes e cujas marcas permanecem embaixo das pinturas.

Encostada no muro, a velha (Sim, eu disse velha, mas ela não liga para tal, sabe que é preferível ser chamada assim com carinho a ser desrespeitada entre risinhos e palavras escolhidas), a rainha do chalé olha mais uma tarde passando pela rua. Uma tarde de maio, mês das noivas e das mães. Nem Helena nem Macabea nem Carolina, ela olha a cidade indiferente ao tempo. Varre o lixo do elegante prédio atirado no seu quintal e cultiva suas lembranças. As lembranças da vida que passou e que continua a passar. Dos filhos que são pais, dos netos que batalham e dos bisnetos que virão. A vida continua seguindo independente do século e das ambições predominantes.

Seus olhos verdes, sua pele levemente maquiada, seu perfume doce e discreto, seu sorriso aos passantes, mostram que a vida ainda pulsa indiferente às tendências. Já viu muito, já ouviu de tudo. Viveu o suficiente para não ter certezas. Sua única convicção é a beleza incerta desta tarde. Desse mesmo muro viu guerras e revoluções. Marchas e marchas. Democracias e ditaduras. E nada abalou seu pensamento, sua fé e felicidade. Ela continua olhando pelo muro como se assistisse ao mundo, como se ele fosse um espetáculo apartado do seu chalé. Como se a vida das pessoas individualmente não formassem o mundo e como se o mundo em nada influenciasse a sua vida, seja na alegria seja na tristeza. Sorri para os bebês que passam nos carrinhos. São seus filhos, seus netos. Os bebês riem das mesmas brincadeiras e choram pelas mesmas necessidades indiferentes ao século. Nos tempos de Lacan já eram assim; já o eram antes mesmo da loba.

“La bohème” toca na sua vitrola e ressoa por toda a rua. "Je vous parle d'un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaitre..." ("Eu vos falo de um tempo que os menores de vinte anos não podem conhecer...") E ela cantarola com os olhos no entardecer da rua e em Montmartre ou no Alentejo ou na Galícia ou nas ruas de uma Santos que não existe mais. "La bohème, la bohème, ça voulait dire on est heureux ..." ("A boemia, a boemia, isso queria dizer que éramos felizes..."). Canta a vida, a felicidade, o amor e o tempo que fica mas não pára. O tempo queijo derretido da memória persistente de Dalí. "...Fallait-il que l'on s'aime et qu'on aime la vie..." ("...Era preciso que nos amássemos e amássemos a vida...")

Haverá um dia em que o chalé não estará mais ali. Cairá como as árvores da floresta em nome do dito progresso. Talvez até o endereço deixe de existir. "...Ni les murs, ni les rues qui out vu ma jeunesse... "("...Nem os muros nem as ruas que viram minha juventude..."). Quando esse dia chegar, a tal velhinha não mais fará parte deste mundo de famílias e presépios. Haverá um dia em que todo o zelo se transformará em destroços, a afeição em herança e o amor em lembrança, dando lugar a um outro amor que também se transformará em lembrança e assim sucessivamente. Assim sempre passará o mundo. Os homens vivendo suas vidas, construindo suas casas, dando vida às ruas e passando para outras vidas, outros sonhos. E toda essa pintura será sempre contornada pelo lápis do amor. O amor. Enquanto houver vida na Terra haverá amor. O amor da velha e do chalé. O amor das leoas e dos gorilas. O amor dos homens que marchavam. O amor da ópera e dos operários. O amor dos índios e dos antropólogos. O amor das noivas e das mães. A vida será sempre amor e procura.

Sigo pela rua, a velha e o chalé ficam para trás. Na vitrola toca “Eu e a brisa”. Eu já não a vejo, provavelmente alguma placa de “vende-se” anuncie o tal inventário. “...brisa fica pois talvez quem sabe...”; pode ser que se eu olhe agora já não distinga mais a velha do chalé, pode ser que o muro já tenha caído. “... o inesperado traga uma surpresa...”. Eu sou a velha e as suas incertezas. O tempo que eu a vi vendo só existe dentro de mim. Seus filhos e netos foram fecundados por mim. Ela é o outro e eu o bebê. A tarde como a vi só existe pra mim. Eu e a brisa. Eu agora sou o chalé. O chalé e o endereço que um dia deixará de existir.

terça-feira, 29 de abril de 2008

SANTO OFÍCIO

Ah, a propaganda!
Santificado é o seu nome.
Da mesma forma que a filosofia guiou as idéias e pensamentos do século XVIII, nesta nossa Idade Mídia, em que a sofrida Mãe Terra se transformou numa imensa bolsa de valores, é a propaganda quem determina o pensamento contemporâneo.
Sob a sua influência, quantos crimes compensaram? Quantos satélites foram invadidos? Quantos muros se ergueram e quantos caíram? Quantos imbecis se tornaram gênios e quantos gênios foram malditos? Quantos reis e rainhas foram coroados e quantos fenômenos foram criados? Quantas línguas morreram e quantos deuses deixaram de existir?
É ela a serpente que induziu o homem a provar o seu fruto proibido e viver condenado a ganhar o pão com o suor do seu rosto. Como se não bastasse comer o cérebro dos mortais, ela toma o lugar dos sentidos, regendo a seu bel prazer o olfato, a audição, a visão e até mesmo o tato dos incautos, vítimas preferenciais da sua lobotomia.
Santa propaganda! São os seus milagres que transformam entretenimento em arte, repressão em liberdade, pão em brioche, negociata em justiça, lixo em luxo e ambição em religião. São as suas obras que anestesiam a mente do homem condenado a permanente atividade e desvario. São os seus interesses que estipulam a estética, a fé, a saúde, o lazer, os ideais e as ambições do censo comum. É por sua mão que o belo passa a ser feio e o inconcebível, real.
Tantas vidas mal vividas, tantas famílias desfeitas, tantos talentos desperdiçados, tanta fome, tanto tédio e tanto vício, para que sempre seja feita a sua vontade.
Cervantes definiu a pena como a língua da alma. Basta lermos nas entrelinhas (nem sempre é preciso tanto) para constatarmos que a escrita dos nossos escritores, jornalistas, cronistas e de tantos outros é a língua da alma do negócio.
E em nome dessa beatitude é que no país movido pelas agências de criação, ferir a liberdade de expressão é proibir publicidade de cerveja na televisão.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Dia 23 de abril é o dia mundial do livro.
Um país se faz com homens e livros, disse Monteiro Lobato; mas talvez falar de livros em um país que tem mais editoras que livrarias talvez não signifique exatamente a construção de um país. Mesmo com todos os festejos e ações que a UNESCO promove em países do mundo inteiro para celebrar a data que ela instituiu em 1995, o mais importante é lembrarmos o que ela significa:
No dia 23 de abril do longínquo (nem tão longe assim) ano de 1616, dois gênios das letras deixavam o nosso planeta:
Shakespeare e Cervantes. Hamlet e D.Quixote de La Mancha. Romeu e Julieta e O curioso impertinente.
Gênios tais que se confundem com as lendas;
Gênios tais que sobrevivem 400 anos depois de suas mortes;
Gênios tais que seus personagens adquiriram vidas próprias e romperam a barreira do tempo. A prova disto é que hoje, séculos depois das mortes de seus criadores, não é difícil encontrar pessoas que se identifiquem com a inadequação de D.Quixote com o tempo em que vivia ou com a rebeldia contra as normas sociais representadas pelo casal de personagens mais famoso do teatro.
Cervantes lutou em guerras, foi prisioneiro na Argélia, perdeu a mão esquerda e criou o melhor livro de ficção de todos os tempos, antecipando-se ao realismo. Shakespeare levou uma vida discreta, o que colabora com as lendas quanto a sua existência, pariu o teatro moderno e, séculos depois, emprestou seus personagens e conflitos para servirem como base para os estudos de Freud e Lacan.
Hoje, na era digital do excesso de informação e variedade de conceitos, é sempre oportuno refletirmos onde estão nossos pares para Shakespeares e Cervantes.
Estarão tentando romper a barreira dos intere$$es editorais e midiáticos? Combatendo em alguma guerra absurda? Interessados apenas nas suas, como disse Capinan, vida in vitro feita nas coxas e vivida às pressas? Preparam no subterrâneo da nossa Idade Mídia uma obra-prima? Ou esqueceram-se de serem o que são e tentam ser Shakespeare e Cervantes?
De qualquer forma, nada mais justo para o dia do livro que a data em que perdemos duas das maiores forças literárias que a raça humana produziu.
Parabéns Miguel! Parabéns Willian! Parabéns a todos, gênios ou não, que rompem a barreira do cotidiano e se aventuram pela dor e delícia do mundo das letras!

*Publicado também no jornal Página Dois (http://www.paginadois.com/conteudo.php?c=4883)

terça-feira, 22 de abril de 2008

SINAIS

Sinal vermelho. Pare. Sinal verde. Contramão. Velocidade máxima permitida. Travessia de pedestres.

Para que servem as sinalizações? Por que existem leis de trânsito? É óbvia a resposta que as leis, no caso do trânsito, servem para assegurar uma convivência harmoniosa. Mas, no caso do que vemos pelas ruas do Brasil a afirmativa pode bem ser interpretada como falsa. Se na teoria todos aparentemente concordam com a afirmativa, na prática quase ninguém as respeita. Resultado: o caos.

Talvez o nosso trânsito seja a demonstração cabal da selva em que ainda vivemos, dos selvagens em que nos transformamos e da fraqueza da nossa civilidade. No país do “quem pode mais chora menos” e “cada um com os seus problemas”, o descalabro instalado em nossas avenidas, ruas e rodovias é a metáfora perfeita do individualismo reinante. Aí está a conseqüência do tão aclamado jeitinho: salve-se quem puder.

Como esperar de uma população que não consegue respeitar um código tão elementar para a convivência pacífica como o de trânsito a construção de uma grande nação? Como falar em cidadania, democracia ou o que quer que seja para quem não consegue respeitar uma faixa de pedestres? O número de acidentes com mortos, cuja causa é o desrespeito às mais elementares leis de trânsito, dá para preencher a nossa televisão com programas diários, desses que gostam de espremer o sangue das vítimas da nossa selvageria ou até mesmo alguma produção com o intuito de conscientizar e sociabilizar, coisa raríssima de encontrar nas nossas emissoras ( mais preocupadas com os próprios interesses que com as obrigações perante o país que lhes deu a concessão), sem necessidade de reprise.

Quem é o culpado? O governo? O sistema de educação? A má distribuição de renda? Não. A culpa é do individualismo que rege a vida nacional. A culpa é da falta de sensibilidade pelos interesses do próximo, dessa lei da selva onde somente os fortes sobrevivem (no trânsito, a preferência nunca é do pedestre) e cada um visa apenas os seus próprios anseios. Aonde as nossas classes “A” e “B” enfiam toda a sua elegância, esclarecimento e sensibilidade quando a bordo de seus automóveis (muitos deles importados) cometem atrocidades dignas de deixar boquiaberto o exército de Átila?

É esse individualismo burro, que muitos gostam de intitular malandragem, a causa do nosso caos. É através dele que elegemos nossos governantes, que educamos nossos filhos, que parimos a guerra urbana que se instituiu em nossas metrópoles. E regidos pelos mesmos individualismos é que tentamos encontrar as soluções. Pra que buscar soluções? Pra que mostrar solidariedade com as crianças assassinadas quando desprezamos os vivos? Pra que tentar buscar soluções para a paz quando a nossa única preocupação é com a nossa própria segurança? Pra que discutir quando começa a vida se a partir do nascimento somos todos moldados segundo a doutrina do “cada um por si”? Pra que discutir política quando o nosso único interesse é pela nossa própria estabilidade em detrimento de qualquer tentativa de se construir uma nação de verdade? Será que as regras de respeito e convívio são tão desbaratadas para nós como eram as leis da cavalaria para os contemporâneos de Cervantes?

Não foi pensando nos pequenos interesses individuais, nem na mesquinharia dos oligarcas que os E.U.A. (que gostamos tanto de nos comparar) se tornou independente e firmou-se como nação. Mesmo com o egoísmo aguçado pelo capitalismo, o sentimento de coletividade, de patriotismo é o que impulsiona o País. Se Fidel deixa o governo de Cuba com a certeza de que sua Universidade-Ilha jamais voltará a ser um balneário é porque sabe que os ideais da revolução deixaram para a população a certeza de que o coletivo é mais forte que o individual.


Enquanto em nossas vias continuarem circulando a barbárie do nosso personalismo, nenhum partido, religião ou sistema nos livrará da realidade fabricada pelo nosso egoísmo e aqui será sempre, como bem disse Torquato Neto, o fim do mundo. O país dos heróis sem caráter de Mario de Andrade, do “sabe com quem está falando?” de Roberto da Matta, da corrupção, das brigas de torcida, da bala perdida, da dengue, do seqüestro relâmpago, do coronelismo, do legal-imoral, da “pilantropia”,dos engarrafamentos e de toda a sorte de catástrofes que o desrespeito ao próximo pode causar.

quarta-feira, 5 de março de 2008

DIAS DE LUZ

Neste ano de 2008 comemoraremos os cinqüenta anos de lançamento do Lp “Canção do amor demais” da divina Elizeth Cardoso, o primeiro Lp a registrar a batida do violão de João Gilberto e, portanto, o marco zero da bossa nova. Sendo assim, este é o ano de comemorarmos meio século da bossa sempre nova. Parabéns Brasil!

A bossa nova foi um sonho que o Brasil teve. Um sonho de sofisticação e simplicidade. Um sonho de popularização do refinamento em meio a um país que caminhava de encontro à realização dos ideais de uma geração sonhadora. Seu cenário era o Rio de Janeiro com peixinhos a nadar no mar e garotas com um balançar que era mais que um poema. O Rio de Orfeu, Garrincha e Niemeyer; sua pátria era o Brasil de Juscelino (o presidente bossa nova), da poesia de Drummond, das crônicas de Rubem Braga, da Gabriela de Jorge Amado e das telas de Portinari.

A bossa, com seu estilo muito natural, colocou o Brasil definitivamente entre os maiores produtores (quiçá o maior) de música popular de qualidade do planeta. Tinha na sua árvore genealógica um músico de talento ímpar chamado Tom Jobim, um poeta romântico de primeira grandeza chamado Vinícius de Moraes e um gênio chamado João Gilberto. Suas batidas, suas harmonias, suas letras coloquiais de amor e galhofa e sua miscigenação do samba da nossa terra com o jazz era a trilha sonora ideal para um país que se erguia como potência cultural e que acabava de gritar “o petróleo é nosso”.

Seus cantinhos e violões revelaram ao mundo, talentos inigualáveis como João Donato, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra, Astrud Gilberto e Johnny Alf, emocionaram o Carneggie Hall, fascinaram músicos como Miles Davis, Stan Getz , Frank Sinatra e Ella Fitzgerald e arrebataram inúmeros Grammys (Awards, não o genérico latino). Depois caiu na mão de charlatães sem talento que se aproveitando da popularidade que o gênero alcançava tentaram transforma-la em apenas mais um produto, como disse João Gilberto, em “jazz para débil mental.”.

Mas, como tristeza não tem fim, felicidade sim, o Brasil foi subjugado pelo medo e pela ganância e quem acreditou no amor, no sorriso e na flor depois chorou e perdeu a paz. João Goulart foi deposto, as reformas não aconteceram e JK não voltou em 65. A roda-viva de uma guerra estúpida e fria chegava ao Brasil tornando cinzas nossas tardes tão azuis. Os filhos da bossa nova surgiam então com uma preocupação maior que o refinamento musical: a de conscientizar uma população que começava a mergulhar na letargia de uma ditadura truculenta e alienante. Precisavam fazer a hora, caminhar contra o vento, lutar para que não perdêssemos a ternura.

Hoje, meio século depois que a onda da bossa nova se ergueu no nosso mar, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza. É preciso inventar de novo o amor.

* Publicado também nos jornais "Brasileiros e Brasileiras", "Página Dois" e no site "Direto da Redação".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O CANDIDATO ROCK N' ROLL

Uma nova esperança paira no ar, cada vez mais quente, do nosso mundo: seu nome é Barack Obama.

Depois dos violentos, e pouco inteligentes, anos Bush, grande parte da população estadunidense vê no negro havaiano uma luz no fim do túnel de trevas desse mundo cada vez mais corporativista. E como a paz e a liberdade do mundo, principalmente dos países ditos em desenvolvimento, estão sujeitas às decisões tomadas pela Casa Branca o assunto passa a ser de interesse mundial. Inclusive, chega a ser razoável pensar que eleitores do mundo inteiro deveriam votar nessas eleições.

Barack Obama é o candidato rock n’ roll. Assim como a música de Little Richard e Chuck Berry representava a ânsia de liberação e expressão da geração do Pós-Guerra (se bem que a guerra não acabou, apenas esfriou. E se observamos os acontecimentos geopolíticos não será absurdo concluir que ela continua até hoje), dos negros do sul dos E.U.A., o senador democrata representa o sonho das minorias (?) esmagadas por uma política voltada aos intere$$es excludentes do poder multinacional.

Ao som de U2 (os trovadores da luta religiosa da Irlanda), promete um “Beautiful day” após a longa noite “bushiana”. É o porta-voz de uma juventude emudecida pelo esvaziamento ideológico. Promete o fim das guerras burras e uma universalização no sistema de saúde cuja precariedade Michael Moore retratou no seu mais recente filme, “Sicko”. Quer um Estados Unidos realmente unido e propõe uma mudança nas relações internacionais e ambientais.

No mundo hipocritamente correto, onde a preocupação individualista é quase uma lei no pensamento corrente, Obama é um sinal de mudança. Uma mudança bem parecida com a transformação nas relações ambicionada pelos pais do rock n’roll e sonhada por Luther King.

Com a indústria cultural preocupada em fabricar uma música fácil, cada vez mais parecida com jingles, e pseudo-artistas cuja única preocupação é engordar suas contas bancárias colhendo os frutos de uma fama conquistada com 99% de promoção e 1% (quando muito) de inspiração, sem Jimmy Hendrix e sem John Lennon, o outrora anárquico rock n’roll é hoje uma monarquia mais a serviço dos interesses corporativistas alienantes do que das massas oprimidas que o originaram.

Se Obama também mudará a postura ao chegar ao topo, no caso, à Casa Branca, não se sabe. Não sabemos ao menos se conseguirá eleger-se candidato. Porém, o democrata miscigenado, cujos jantares de família "são sempre uma mini-O.N.U.", é uma via alternativa ao marasmo ideológico e traz de volta o sonho de um mundo mais tolerante e diverso.

Infeliz é o povo que precisa de heróis, dizia Brecht. Portanto, Obama reflete a infelicidade daqueles que são cada vez mais esmagados pela truculenta política corporativista, assim como o rock foi durante anos a música eleita por aqueles que sonhavam mudar o mundo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

CAMINHOS

Todos os dias havia debate na senzala.

Reunidos na mesa do jantar - ruim e insuficiente, como diria Graciliano Ramos – os escravos discutiam suas vidas, seus planos, suas funções e, principalmente, o futuro.

Toninho era sempre o mais apaixonado em suas teses. Sempre eloqüente e esperançoso, seus olhos brilhavam quando defendia seus princípios. Ele realmente acreditava no que sonhava. Mas, para a maioria dos seus companheiros de senzala, não passava de um maluco, de um baderneiro com sérios problemas de caráter. Ele queria a liberdade.

- Será que você não percebe que isso é uma loucura, rapaz? – dizia-lhe Neto, um senhor de respeito, antigo na labuta e respeitado por todos – Esse papo de liberdade é muito bonito na teoria, mas na prática não funciona. Se fosse realmente possível, Palmares não teria sido destruída...

- Palmares caiu por uma série de fatores e nenhum deles aponta para a inviabilidade da liberdade...

- Não? Você precisa informar-se mais. Sonhar é muito bonito, eu concordo, mas o trabalho é que dignifica o homem. Nós precisamos de alguém que nos direcione, o problema de Palmares foi exatamente esse, não haviam pessoas esclarecidas para governar...

- Esclarecidos para o senhor são esses vagabundos que escravizam a gente?

- Olha o respeito, rapaz. Como é que você pode chamar nossos senhores de vagabundos? Chega a ser até ingrato da sua parte...

- Ingrato? E por que eu deveria ser grato a quem vive do luxo proporcionado pelo meu suor e em troca me devolve esta vida de merda?

- Você devia era levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus: você tem comida na mesa, tem saúde e tem um teto. Você já parou pra pensar em quantas pessoas gostariam de estar no seu lugar? Ter a oportunidade que você tem?

- Oportunidade?!?!? De que? De enriquecer ainda mais quem sempre foi rico? De esperar os minutos de folga para fazer o que eu realmente gosto? Oportunidade de estragar a minha saúde enriquecendo essas sanguessugas?

Enquanto Neto e Toninho, ou Antonio de Ogum, discutiam, os demais escravos acompanhavam com atenção e pensavam em suas vidas. No fundo, lá no escaninho da alma, todos concordavam com Toninho. Porém, os argumentos de Neto pareciam-lhes mais sensatos, sobretudo porque enquanto um era um jovem sonhador o outro era um senhor experiente. Além do mais, já estava provado que a liberdade era para quem tinha capacidade de gestão, o que não era o caso deles.

Toninho, na verdade, pouco se importava com a desaprovação dos outros, sabia que os recursos que dispunham para livrar-se da lavagem cerebral que receberam eram escassos e enquanto a subserviência de Neto fosse tomada como exemplo, as coisas permaneceriam como estavam.

- Escute o que eu vou te dizer, garoto. Eu tenho idade quase de ser seu avô, aliás fui muito amigo dele, e me sinto na obrigação de te aconselhar: esse papo de igualdade não existe. É desculpa de vagabundo que não quer pegar no batente. E te digo mais: agradeço todos os dias da minha vida por trabalhar para um senhor que raramente nos chicoteia, e quando o faz é porque o merecemos, e tudo o que eu tenho hoje na minha vida eu devo a ele.

- E o que o senhor tem na vida? – Toninho não conseguia esconder o desprezo que sentia pelo comodismo e ignorância do respeitado conselheiro.

- Tenho respeito, uma estória linda e, dentro em breve, terei direito a um merecido descanso. Aposentar-me-ei como chefe. E sabe por quê? Porque eu lutei pra isso. Porque ao invés de sonhar eu construí minha vida.

- E foi isso que o senhor sempre quis? Quando olhava para sua velhice, era essa bela estória que sonhava construir? Não acredito.

- As besteiras da mocidade morrem com a mocidade.

- Será que a sua vida é tão desprezível que valeu a pena trocá-la por essas porcarias que o senhor julga imprescindível?

- Chega! Já falou besteira demais. – Branco e Gegê interferiram no debate enquanto Neto, com um sinal de desdém, desaprovava o comportamento de Toninho.

- A vida vai ensiná-lo. – profetizava o respeitável trabalhador.

A cada dia a situação dos escravos tornava-se mais sacrificantes. Apoiados pelos governantes, os senhores cada vez davam menos direitos aos pobres trabalhadores, além de exigirem cada vez mais dedicação. As obrigações aumentavam na mesma proporção que os direitos eram suprimidos.

Cada direito suprimido dava origem a um novo debate e paradoxalmente quanto mais eram explorados mais os trabalhadores tomavam partido do senhor.

Incomodado com as conversas abordadas por Toninho durante as refeições, Neto sugeriu aos administradores uma forma de acabar com os debates. Um mês depois, uma televisão foi instalada na senzala. O aparelho foi recebido com festa, Neto fez um discurso exaltando a benevolência dos diretores em proporcionar diversão e cultura aos trabalhadores.
Desse dia em diante, os debates foram substituídos pelos programas de auditório, novela e telejornais cujos conteúdos deixavam bem claro que qualquer sugestão de uma vida diferente daquela era um disparate.

Somente Toninho não via mais sentido em permanecer naquela situação. Desde criança nunca vira perspectiva de felicidade dentro do regime que viviam. Nunca sonhou o sonho que lhe implantavam e nem se deixou levar por congratulações e promoções. Isolado, desistiu do levante, da tomada da empresa por todos os escravos, de uma república igualitária, que tinha em mente e decidiu sair dali sozinho.

- A gente ainda não sonhou. A vida não é só isso. Nós estamos entregando nossas vidas aos interesses alheios. Eles dependem de tudo isso, nós não... Os escravos são eles e nós sustentamos com os nossos desejos a liberdade deles. Pra mim chega! Como disse meu mestre Rousseau, é preciso ter olhos pra ver e coração pra sentir. – falou o rapaz a alguns amigos poucos minutos antes de demitir-se – O que faz o forte é o medo do fraco. Eu quero ser feliz e para isso é necessário que eu seja livre. A liberdade precede a felicidade, até isso eles subverteram. E nem isso, vocês percebem. – falou o rapaz aos companheiros de cruz na última noite que passou na senzala.

Depois dessa noite Toninho nunca mais foi visto. Neto foi promovido e tratou de redobrar a vigilância e impedir que o nome de Toninho fosse proferido pelos amigos. Patrocinado pela direção, organizou palestras de motivação e exibiu documentários que mostravam o contraste da verdadeira liberdade que eles tinham naquela senzala em comparação a repressão e a miséria dos quilombos.

A liberdade até hoje não chegou àquela senzala, se bem que todos acreditam viver no modelo mais liberal do planeta. Muitos dos que ouviram o debate ainda repetem confiantes as palavras do velho Neto outros se arrependem de não terem saído com Toninho, de temerem não haver felicidade fora da escravidão e do sonho de se tornar senhor.

Neto morreu alguns anos depois de uma doença causada pelo trabalho. No enterro, muitos amigos comentaram a sabedoria e a vida correta do respeitável chefe. Os patrões não foram despedir-se, no entanto mandaram uma linda coroa de flores com um emocionante cartão que realçava a importância da obstinação e da perseverança daquela personalidade única.

Quanto a Toninho, as notícias que chegaram dele na senzala nunca foram comprovadas. Ninguém sabe ao certo como foi sua vida fora da senzala. A informação oficial, transmitida pelos meios de comunicação e palestrantes é de que ele morreu de fome nas imediações da senzala.

Alguns afirmam que ele foi morto traiçoeiramente pelas tropas dos empresários (perdão, do governo) enquanto pregava a liberdade (e a igualdade) em outras senzalas.

A única certeza que se tem é a de que ele nunca mais foi escravo.

O resto é silêncio.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A ENGRENAGEM

Augusto Boal foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz!

Não falaremos aqui sobre o quão curioso será teatrólogo vir a ser o único vencedor do tão cultuado prêmio em um país onde o teatro tem sua penetração restrita e nem sobre a grande contradição do Nobel da paz ser pago com o dinheiro da venda de dinamites, já que Alfred Nobel foi também o inventor do explosivo.

Acima de tudo isso está a obra de Boal e tudo o que ela engloba: o teatro do oprimido, o teatro legislativo (uma miscigenação de teatro com política bem ao estilo da cultura brasileira), a Libertação de D.Helder Câmara, a luta de Zumbi e do povo de Palmares, os ideais de Tiradentes e Bolívar, a pedagogia de Paulo Freire, a antropofagia modernista, o teatro instrutivo de Brecht e a paz. A paz...

Com a história contada pelos vencedores, a cultura da guerra e das revoluções é, para muitos, a mola que a impulsiona. É a guerra que propaga a opressão. É ela que mantém o governo, a educação e as informações sob controle. E como nos ensinou Cristo, o homem que disse nos trazer a espada: não devemos combater o mal com o mal. Ou seja, a paz só pode ser fruto da paz. Portanto, o teatro do oprimido do nosso curinga carioca é um grande passo rumo a uma sociedade pacífica e verdadeiramente cristã (no bom sentido da palavra).

Ou será que alguém é capaz de vislumbrar alguma possibilidade de paz entre a raça humana com a nossa sociedade dividida em opressor, opressor-oprimido, oprimido-opressor e oprimido? Será que alguém ainda é capaz de crer na paz pela força? Na liberdade vigiada? Nas invasões pela liberdade? Será que alguma esperança ainda pode ser alimentada com o avanço da política excludente das corporações?

A criação de Boal, sua visão de fazer um teatro fora da lógica separatista artista X público, de dar voz àqueles cujos papéis sempre foram assistir e aplaudir ganhou o mundo e hoje é praticado em mais de 70 países. Mais que um prêmio Nobel ao Brasil, um prato cheio para propagandas ufanistas, a sua importância está na proposta: a idéia de uma sociedade sem opressão (moral, física, financeira, intelectual, criativa, religiosa e todas as outras) onde todos são melhores do que se imaginam. Um mundo onde todos têm voz. Não a voz pedinte, a voz de que os ouvidos “superiores” se servem para exercer suas filantropias e exibir sua benevolência. E sim a voz criativa, a voz realizadora, aquela que grita que somos todos capazes e que nossa sociedade não é feita de minorias, líderes e elites, a voz que grita que nossa sociedade é feita de plenos-cidadãos. A voz de um mundo onde todos podem “sentir-se gente com a alma à solta”. Sem opressores nem oprimidos. Um mundo livre.

Com o Nobel ou não, fica a mensagem do filho do padeiro de que enquanto a nossa engrenagem depender da opressão, a palavra paz será apenas uma fala na boca dos canastrões que representam o triste teatro do bem e do mal, há séculos em cartaz na nossa arena social.

Parar de dar murro em ponta de faca e pôr um fim a esse tempo de guerra e opressão é a maior premiação de paz que daremos ao nosso caro amigo Boal, ao teatro do oprimido e a todos nós.

E o Brasil agradecerá.